A teoria da “hipnocracia”, recentemente invocada por figuras públicas como a deputada do PSD Ana Gabriela Cabilhas e o antigo ministro socialista Manuel Maria Carrilho, afinal tem autoria fictícia. O suposto filósofo chinês Jianwei Xun, criador do conceito, não existe: trata-se de uma invenção produzida com recurso a inteligência artificial por Andrea Colamedici, um filósofo e editor italiano. A revelação foi feita pela revista L’Espresso na sua edição de 4 de abril.
O embuste foi inicialmente detetado pela jornalista Sabina Minardi, da L’Espresso, que tentou contactar Jianwei Xun para uma entrevista. Tudo indicava que Xun era uma figura real: existia uma página da Wikipedia com detalhes biográficos — alegadamente nascido em Hong Kong e residente em Berlim —, referências a estudos publicados e até fotografias do alegado autor disponíveis através de pesquisas online. No entanto, nenhuma tentativa de contacto resultou.
A descoberta levou à admissão pública da farsa. O site oficial de Jianwei Xun foi alterado e passou a reconhecer que se trata de uma “entidade filosófica” criada pela interação entre inteligência artificial e inteligência humana. “Inicialmente apresentado ao mundo como um filósofo nascido em Hong Kong e baseado em Berlim, a verdadeira natureza de Xun como uma construção intelectual híbrida foi revelada na primavera de 2025, transformando o que começou como uma experiência meta-narrativa num evento genuinamente filosófico”, lê-se na nova biografia publicada online.
O sucesso académico e mediático de uma criação fictícia
Apesar da sua origem artificial, o livro Hipnocracia: Trump, Musk e a nova arquitetura da realidade conquistou atenção no meio académico e mediático. Publicado em janeiro de 2025 em Itália, e traduzido para francês e espanhol, o livro foi alvo de críticas em publicações de prestígio como Le Figaro e El País. Em Portugal, encontra-se à venda em livrarias como a Bertrand e a WOOK, que disponibilizam as edições em francês e espanhol.
A teoria da “hipnocracia”, apresentada no livro, sustenta que figuras como Donald Trump e Elon Musk mergulharam o mundo “num estado de hipnose permanente, em que a consciência está abafada, mas nunca completamente calada”, uma alegoria à manipulação da realidade por via da comunicação digital e da construção de imaginários coletivos.
Foi com base nesta premissa que Ana Gabriela Cabilhas, deputada do PSD desde 2024 e ex-presidente da Federação Académica do Porto, utilizou o conceito para defender o atual primeiro-ministro Luís Montenegro num artigo de opinião publicado na revista Sábado a 31 de março, intitulado O triunfo da hipnocracia. No texto, a deputada referiu que “Jianwei Xun alerta para uma transformação ainda mais profunda com a apresentação da definição de ‘hipnocracia’. A consciência coletiva está a ser capturada e induzida pela capacidade de construir, sustentar e multiplicar realidades alternativas”.
Cabilhas defendeu ainda que a hipnocracia “pode beneficiar ou boicotar uma governação e influenciar eleições, sempre com consequências destrutivas para as instituições democráticas”.
Também Manuel Maria Carrilho, filósofo e antigo ministro da Cultura, recorreu ao mesmo conceito para criticar o regresso de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. No seu blogue pessoal e na página de Facebook, Carrilho publicou um texto intitulado Hipnocracia, o segredo de Trump, onde escreveu: “Encontrei recentemente esta mesma intuição, trabalhada numa ambiciosa visão do nosso tempo, no conceito de hipnocracia, proposto pelo filósofo Jianwei Xun, num pequeno mas acutilante livro.” Acrescentou ainda que essa ideia reflete “exatamente” o que se está a observar com o segundo mandato de Trump.




