Depois do rally histórico, chega o teste: IA barata pode colocar as “sete magníficas” em xeque? A análise de um especialista

O mercado acionista tem vivido, nos últimos dois anos, sob o paradigma da “exclusividade da inteligência artificial”. Mas esse modelo poderá estar a enfrentar um risco estrutural com origem na China.

André Manuel Mendes

O mercado acionista tem vivido, nos últimos dois anos, sob o paradigma da “exclusividade da inteligência artificial”: chips escassos, custos elevados de treino e uma vantagem tecnológica concentrada nos EUA sustentaram um prémio significativo nas avaliações das grandes tecnológicas. Mas esse modelo poderá estar a enfrentar um risco estrutural com origem na China.

Segundo João Lampreia, expert da Freedom24, o surgimento de modelos chineses como o DeepSeek, comparáveis em qualidade aos líderes de mercado mas desenvolvidos a custos substancialmente mais baixos, poderá desencadear uma reavaliação profunda do setor tecnológico global.

A própria Fundo Monetário Internacional já deixou um alerta. A diretora-geral adjunta, Gita Gopinath, afirmou recentemente que um modelo de IA chinês competitivo e significativamente mais barato poderia levar a uma reavaliação em larga escala dos gigantes tecnológicos.

“Atualmente, o mercado valoriza não tanto os lucros atuais das empresas de TI, mas o seu futuro monopólio sobre a infraestrutura intelectual. Qualquer evidência de que a IA pode ser produzida a uma fração do custo coloca automaticamente em causa biliões de dólares em capitalização. A China já fez isto com o aço, os painéis solares e as baterias. Agora é a vez da IA”, refere João Lampreia, expert da Freedom24.

 

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A maior aposta da década

O rally da IA entre 2023 e 2025 foi um dos mais concentrados da história recente. As “sete magníficas” passaram a representar cerca de 30% da capitalização do S&P 500, enquanto a Nvidia atingiu um peso próximo de 5% no MSCI World.

As grandes tecnológicas norte-americanas estão a investir mais de 250 mil milhões de dólares por ano em infraestruturas de IA. A Microsoft prevê um capex anual entre 80 e 90 mil milhões de dólares; a Amazon entre 70 e 80 mil milhões; a Alphabet entre 60 e 70 mil milhões; e a Meta entre 40 e 50 mil milhões.

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Estas projeções assentam numa premissa central: o treino de modelos será cada vez mais caro e a procura por capacidade computacional continuará a crescer quase sem limites. No entanto, a abordagem chinesa poderá inverter essa lógica.

 

O choque do custo

De acordo com a análise da Freedom24, o diferencial energético é um dos fatores críticos. Treinar um grande modelo de IA pode exigir entre 10 e 30 milhões de kWh. Com preços industriais de eletricidade significativamente mais baixos na China face aos Estados Unidos, a diferença de custo por modelo pode variar entre 900 mil e 4 milhões de dólares.

Se as arquiteturas evoluírem para exigir menos recursos computacionais, o impacto poderá ser direto sobre fabricantes de hardware como a Nvidia: maior eficiência, menos horas de GPU necessárias e menor poder de fixação de preços.

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“O principal risco não é o fracasso da IA, mas o seu sucesso excessivo”, sublinha João Lampreia. “Se a escassez se transformar em abundância, poderemos assistir não a um colapso tecnológico, mas a uma compressão de múltiplos.”

Atualmente, os múltiplos da Nvidia (P/L entre 45 e 50) refletem expectativas de escassez prolongada. Num cenário de “IA barata”, o crescimento poderá manter-se, mas com margens mais baixas e avaliações ajustadas.

 

Lições da história

O especialista traça paralelos com a bolha dot-com. Em 1999, o mercado acreditava que fabricantes de routers como a Cisco capturariam permanentemente a maior fatia dos lucros da internet. Algo semelhante aconteceu com a Intel no auge da expansão tecnológica.

A história, contudo, mostrou que, à medida que a tecnologia se massifica, os lucros tendem a migrar da infraestrutura para as aplicações e serviços finais.

O padrão, diz, repete-se também em setores onde a China ganhou escala: aço, painéis solares e baterias de iões de lítio. Em todos os casos, a produção em massa levou a quedas acentuadas de preços e à compressão das margens dos produtores.

 

Quem poderá ganhar com a IA barata?

Num cenário de queda acelerada dos custos de treino e inferência, a rotação de capital poderá favorecer empresas de IA aplicada, software como serviço (SaaS) e soluções verticais em áreas como medicina, logística ou finanças.

Plataformas com ecossistemas consolidados e dados proprietários poderão manter poder de fixação de preços, mesmo num ambiente de computação abundante. Já fabricantes de GPUs de topo e operadores de data centers enfrentariam maior pressão sobre preços médios de venda e risco de excesso de capacidade.

Para os investidores, alerta a Freedom24, o risco é sistémico em índices passivos altamente concentrados em hardware e grandes tecnológicas.

“O tempo dirá quem está certo. Mas a história ensina-nos que, quando a China começa a escalar, as regras antigas são reescritas muito rapidamente — e é importante estar preparado para isso”, conclui João Lampreia.

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