Depois da tempestade: Reconstruir casas e proteção financeira

Opinião de Gracinda Rita Guerreiro, Professora de Matemática Atuarial da NOVA FCT

Executive Digest

Por Gracinda Rita Guerreiro, Professora de Matemática Atuarial da NOVA FCT

 

As imagens são devastadoras: casas inundadas, estradas destruídas, telhados arrancados pelo vento. Nas últimas semanas, Portugal foi novamente fustigado por tempestades de severidade extrema, deixando um rasto de destruição material e angústia humana. No meio do caos, importa lembrar o que é verdadeiramente insubstituível: a vida, a saúde, o equilíbrio emocional das populações. Bens sem preço, cuja salvaguarda exige a reposição de água, energia e mobilidade, e o acesso a apoio psicológico. Mas a recuperação plena assenta também noutros dois pilares essenciais: a reconstrução física das casas e, de forma crítica, a reconstrução da nossa protecção financeira. Estes eventos, além de testarem a resiliência das populações, deixaram a descoberto a fragilidade das redes de segurança que adoptámos para enfrentar a nova normalidade climática.

Devemos deixar de classificar estes fenómenos como ‘excepcionais’. Dados do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) confirmam uma tendência alarmante: o aumento da frequência e intensidade de episódios de precipitação extrema e ventos fortes. A sequência de tempestades severas constitui um sinal inequívoco da realidade para a qual nos devemos preparar. Ignorar esta evidência é o primeiro e mais grave erro de cálculo.

O segundo erro, e o mais caro a nível individual, reside na nossa exposição ao risco financeiro. Segundo dados da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), uma percentagem alarmantemente alta dos nossos principais activos materiais – a casa e o carro – não está adequadamente segurada contra fenómenos naturais. Esta vulnerabilidade resulta de uma combinação perigosa: a primazia dada ao prémio mais baixo em detrimento da abrangência da cobertura – muitas vezes por contingência financeira – e frequentes lacunas na literacia financeira associada aos seguros. As dúvidas desfazem-se apenas após o sinistro, ao descobrir-se que riscos como inundações ou sismos não foram, afinal, contratados.

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Após uma catástrofe desta magnitude, a reconstrução tem de ser, forçosamente, física e financeira. Se a frequência e intensidade destes fenómenos vão aumentar como os modelos científicos projectam, a protecção para riscos naturais deve ser uma prioridade na salvaguarda do património familiar. A primeira etapa da ‘reconstrução financeira’ deve incluir: revisão crítica da apólice, conversa clara com um mediador e ponderar a inclusão de coberturas para riscos naturais, tendo em mente que o custo do prémio é incomparavelmente menor que o da reconstrução.

Face à calamidade que se abateu sobre famílias e empresas, a resposta do sector segurador nacional foi notável. Perante a catástrofe, a generalidade das companhias reagiu de forma exemplar: peritos, mediadores e voluntários no terreno, linhas de apoio, novos locais de atendimento junto das populações, acessos facilitados à participação de sinistros, indemnizações simplificadas e céleres, incluindo ex-gratias em situações à margem da cobertura contratual. A resposta incluiu ainda donativos para reconstrução e apoio a desalojados e comunicação diversificada com clientes. Sendo também um evento de magnitude rara na gestão operacional do sector, esta eficiência é um sinal vital da sua maturidade e trouxe um alívio valioso aos afectados. Contudo, é crucial sublinhar: todo este robusto mecanismo de socorro só se activa para quem, em primeiro lugar, possui um contrato que possa evocar.

Em paralelo, a dimensão sistémica do risco obriga-nos a pensar em soluções colectivas. O cenário actual – em que os lesados sem seguro dependem de uma compensação estatal ad-hoc, com montantes e prazos incertos, é insuficiente e angustiante. É, por isso, imperativo e urgente um debate sobre a criação de um Fundo para Catástrofes Naturais. Inspirado em modelos europeus ou no projectado Fundo Sísmico nacional, esta solução exige a obrigatoriedade do seguro multirriscos com cobertura para riscos naturais. Estes fundos, financiados por dotação orçamental e contribuições das apólices, funcionam como uma rede de segurança previsível, assegurando uma compensação definida e mais célere aos desprotegidos e cobrindo danos catastróficos que excedam a capacidade do mercado. A obrigatoriedade do seguro assegura a base financeira do sistema, enquanto o fundo assegura a resposta financeira perante eventos extremos.

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Este modelo assenta num princípio de justiça e equidade: quem beneficia da protecção colectiva contribui para a sua sustentabilidade, garantindo que todos têm acesso a um nível básico de protecção financeira. Assume-se, assim, que a responsabilidade pela resiliência face a estes riscos climáticos é partilhada – entre o cidadão prudente, o mercado eficiente e um Estado que organiza e garante a solidariedade de último recurso.

As tempestades, sabemos, virão. A questão que fica é se, da próxima vez, estaremos apenas a contar os estragos e a apelar à solidariedade nacional, ou se teremos aprendido a lição: que reconstruir casas exige, em paralelo, erguer uma estrutura de protecção financeira sólida. Sem ela, qualquer obra será sempre precária. E esta estrutura terá de ser robusta para muito mais do que a chuva: dentro de poucos meses, estaremos novamente a discutir incêndios. A verdadeira resiliência exige que construamos, finalmente, uma protecção que resista a todas as estações.

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