Depois da energia e da água, nova polémica atinge os data centers: uma bactéria rara e potencialmente mortal

O caso ocorreu em Cheyenne, no estado americano do Wyoming, num data center da Meta

Francisco Laranjeira

A contestação aos centros de dados usados pela indústria tecnológica tem-se concentrado sobretudo no consumo de água e energia. Mas um caso em Cheyenne, no estado americano do Wyoming, acrescentou agora uma nova preocupação ao debate: a contaminação de águas residuais com uma bactéria rara e potencialmente mortal.

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Segundo o ‘Unilad Tech’, a Cheyenne Board of Public Utilities suspendeu, por tempo indeterminado, todas as descargas industriais provenientes de sistemas de centros de dados ligados à rede municipal. A decisão foi tomada depois de um empreiteiro associado à Meta Platforms ter contaminado o sistema de águas residuais da cidade.

O caso envolve a construção de um centro de dados da Meta avaliado em 800 milhões de dólares, cerca de 685 milhões de euros, no sul de Cheyenne. A empresa Goat Systems LLC, contratada para trabalhos no projeto, foi considerada em “incumprimento significativo” das regras municipais sobre resíduos industriais.

A contaminação terá ocorrido durante um processo conhecido como “fill-and-flush”, usado antes da entrada em funcionamento dos sistemas de arrefecimento de centros de dados. Nesta fase, os circuitos são enchidos com água e depois descarregados. Foi nessa descarga que terá entrado na rede local uma bactéria chamada Cupriavidus gilardii.

Trata-se de um agente patogénico pouco conhecido, resistente a vários medicamentos e raramente encontrado em águas residuais. As infeções humanas são consideradas muito raras, mas não inofensivas. De acordo com o relato citado pelo ‘Unilad Tech’, a bactéria foi associada a dez mortes em 32 infeções conhecidas desde 2009, incluindo três casos envolvendo crianças imunocomprometidas.

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As autoridades locais garantem, no entanto, que a contaminação ocorreu no sistema de águas residuais e não na água potável. Até ao momento, não há registo de qualquer pessoa infetada na sequência do episódio.

A bactéria foi detetada em testes de rotina destinados a identificar contaminação fecal. Segundo responsáveis dos serviços de água de Cheyenne, não era um organismo normalmente pesquisado, o que obrigou a um processo mais complexo para perceber exatamente o que estava presente na rede.

Depois de identificada a origem da descarga, o lançamento de águas residuais industriais foi interrompido. Ainda assim, continua por esclarecer como é que a bactéria chegou ao interior das instalações ou ao circuito associado ao processo de arrefecimento.

A Meta afirmou estar a trabalhar com o empreiteiro Fortis para resolver o problema. Segundo a empresa, assim que as autoridades comunicaram a deteção da substância nas águas residuais da cidade, e não na água de consumo público, a descarga foi suspensa e os resíduos passaram a ser transportados para fora do local.

O episódio surge num momento em que os centros de dados, impulsionados pela inteligência artificial e pelos serviços digitais, estão sob crescente escrutínio público. A crítica já não se limita ao volume de eletricidade necessário para alimentar servidores ou à água usada no arrefecimento. Em Cheyenne, o debate passou também a incluir a forma como estas infraestruturas lidam com os seus resíduos industriais — e até que ponto as cidades estão preparadas para os fiscalizar.

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