“Deixamos de ter um Governo liderado por Montenegro”: Chega avança com moção de censura

Ventura já tinha admitido estar “mais tendente a avançar do que a não avançar” e garantido existir um “consenso bastante alargado” dentro do partido de que a apresentação da moção “pode fazer sentido”

Francisco Laranjeira

Ventura justificou a iniciativa com aquilo que considera ser uma sucessão de suspeitas sobre a gestão do Estado e apontou diretamente ao ministro. “É uma evidência que o Estado português tem estado sob suspeita”, afirmou o líder do Chega, acusando Luís Neves de estar num “lamaçal de indignidade” e de demonstrar uma “incapacidade de dar resposta” às questões que lhe têm sido colocadas.

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O presidente do Chega recordou que o partido exige esclarecimentos há cerca de dois meses e acusou o ministro de ter recusado responder às suspeitas. “O benefício da dúvida não pode ser o sustentar do benefício de todas as dúvidas”, afirmou.

“O Chega percebeu desde o primeiro momento que há duas coisas a fazer quando se lidera a oposição: não ter medo e ser capaz de exigir transparência, mesmo perante aqueles que usam a ameaça e a intimidação como arma contra os seus adversários”, prosseguiu Ventura.

O líder do Chega recuperou ainda declarações recentes de Luís Neves, nomeadamente a afirmação de que “falo quando quero”, para defender que a atitude do ministro ultrapassou uma questão meramente política. “Foram muitos anos com a cultura do cala e deixa andar em Portugal. Vou exigir respostas”, garantiu.

Ventura assegurou que a posição do partido “nunca foi uma disputa pessoal” e considerou que a forma como Luís Neves tem respondido às suspeitas demonstra falta de condições para permanecer no Governo.

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“A incapacidade de perceber que as suspeitas têm de ser atacadas mostra que Luís Neves não tem capacidade para ser ministro de uma democracia. Podia ser numa ditadura”, disparou. “Não podemos tolerar um ministro que, com suspeitas assim, nada diz nem nada explica.”

“Um desafio à autoridade” de Montenegro

André Ventura revelou ainda ter abordado o assunto com o Presidente da República, António José Seguro, transmitindo-lhe as preocupações do Chega relativamente àquilo que classificou como um clima de “impunidade”.

“Temos duas opções: vergar a este discurso ou exigir um esclarecimento cabal, sem fanfarronice”, sustentou.

Ventura dirigiu então a pressão diretamente a Luís Montenegro. “Porque não atua o primeiro-ministro? Revê-se neste estilo? Tenho quase a certeza de que não”, afirmou, considerando que “um ministro a falar por cima do primeiro-ministro é um desafio à autoridade inaceitável”.

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Para o presidente do Chega, a permanência de Luís Neves no Executivo passou a colocar em causa a própria autoridade do chefe do Governo.

“Se Luís Neves continuar como ministro, o padrão ético em Portugal desapareceu por completo. E deixamos de ter um Governo liderado por Luís Montenegro para passar a ter um Governo liderado por Luís Neves”, declarou.

Ventura afirmou ainda que o Presidente da República “tem atuado e está vigilante” perante a situação e concluiu que já não existem condições políticas para a manutenção do ministro da Administração Interna.

“Todos já reconheceram que não há condições, que não a vergonha própria do Estado, que justifiquem a manutenção deste ministro”, rematou.

Foi neste contexto que Ventura confirmou formalmente a decisão de avançar com a moção de censura, revelando já a ter comunicado aos deputados do partido. “Transmiti ao grupo parlamentar a irreversibilidade desta moção de censura”, anunciou, sublinhando que este “não era um instrumento desejado”, mas que “a degradação das instituições” obrigou o Chega a avançar.

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“Se o primeiro-ministro não compreende que este é um problema de decência e dignidade do Estado, o principal partido da oposição assim o deve demonstrar”, justificou.

O líder do Chega esclareceu ainda que a apresentação da moção de censura não coloca em causa a comissão parlamentar de inquérito à gestão de Luís Neves já anunciada pelo partido.

Caso a moção seja aprovada — cenário que Ventura considera depender “essencialmente do PS” —, o Chega compromete-se a retomar a comissão parlamentar de inquérito “logo após o início da nova legislatura”.

Se a moção não for viabilizada, o partido manterá a comissão de inquérito na atual legislatura, para impedir, segundo Ventura, que existam “desculpas” para que eventuais ilegalidades sejam “atiradas para baixo do tapete e escondidas dos portugueses”.

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