De “vou bombardear” a ‘TACO’: as vezes que Trump já ameaçou — e recuou face ao Irão

‘TACO’, sigla para ‘Trump Always Chickens Out’, é uma fórmula usada pelos críticos para acusar Trump de recuar depois de ameaças de força

Francisco Laranjeira

Donald Trump anunciou uma trégua por tempo indeterminado com o Irão até estarem concluídas as negociações de paz, numa nova mudança de posição que surgiu poucas horas depois de o presidente americano dizer que esperava estar a bombardear o país e de garantir que não prolongaria o prazo para um acordo. O ‘The Independent’ usa este novo volte-face para recuperar a expressão ‘TACO’, sigla para ‘Trump Always Chickens Out’, uma fórmula usada pelos críticos para acusar Trump de recuar depois de ameaças de força.

Ao justificar a nova extensão da trégua, Trump alegou que a liderança iraniana está “seriamente fraturada” e disse estar disposto a cessar as hostilidades até Teerão apresentar uma “proposta unificada” para negociar. A nova inversão encaixa numa sequência de ameaças e recuos que, segundo a publicação britânica, se repetiram ao longo das últimas semanas de guerra.

O primeiro grande exemplo desta sequência surgiu a 21 de março, quando Trump impôs um prazo de 48 horas para que o Irão reabrisse totalmente o Estreito de Ormuz, sob ameaça de destruir infraestruturas energéticas. O limite acabou depois por ser alargado para 28 de março e, mais tarde, para 6 de abril, sempre sob o argumento de que as conversações ainda poderiam produzir resultados.

A 31 de março, Trump voltou a ameaçar “obliterar” toda a infraestrutura energética iraniana, incluindo a ilha de Kharg, um centro crucial de exportação de petróleo. A declaração gerou alarme, mas não foi seguida de qualquer ataque imediato, repetindo o padrão que já começava a ser notado por observadores e aliados.

No início de abril, o tom voltou a subir. Trump ameaçou bombardear o Irão até o fazer regressar à “Idade da Pedra” e, poucos dias depois, num novo desabafo, chegou a afirmar que “uma civilização inteira morrerá esta noite”. As declarações provocaram condenação internacional, mas, horas depois, foi anunciada uma trégua de 14 dias mediada pelo Paquistão.

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A contradição repetiu-se agora. Na véspera do fim da trégua, Trump disse à ‘Bloomberg’ que era “altamente improvável” prolongá-la e afirmou mesmo que esperava estar a bombardear o Irão porque essa seria a atitude certa para entrar nas negociações. Questionado pela ‘CNBC’ sobre a possibilidade de mais tempo, respondeu que não queria fazê-lo e insistiu que já não havia margem para atrasos.

Horas mais tarde, porém, anunciou precisamente o contrário. Trump declarou que os Estados Unidos tinham sido convidados a suspender o ataque ao Irão até que os líderes iranianos apresentassem uma proposta comum. Foi este novo recuo que levou o ‘The Independent’ a voltar a pegar no rótulo ‘TACO’, já usado noutras ocasiões para retratar a distância entre a retórica agressiva do Presidente e o desfecho prático das suas ameaças.

Os constantes ziguezagues de Trump têm sido lidos de formas diferentes. Alguns analistas veem neles uma tentativa deliberada de baralhar o adversário e manter pressão negocial. Outros interpretam-nos como sinal de improvisação e instabilidade, com impacto sobre aliados e mercados. Emmanuel Macron, por exemplo, criticou este mês o estilo errático do presidente americano, ao dizer que não é preciso falar todos os dias.

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No caso do Irão, a leitura crítica ganha força porque a alternância entre ameaças máximas e recuos sucessivos deixou de parecer exceção. A trégua indefinida agora anunciada não encerra esse debate. Pelo contrário: reforça a imagem de um Presidente que promete sempre ir até ao limite, mas que repetidamente acaba por dar mais tempo, mais margem e mais espaço à diplomacia.

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