Da Ucrânia a Portugal, a viagem dos refugiados ucranianos que fugiram das atrocidades cometidas pelo exército russo não é isenta de dificuldades – são mais de 3,5 milhões de pessoas deslocadas pelo conflito que estão distribuídas pelo continente europeu. A distância? Quatro mil quilómetros até encontrar um ponto de recolhimento, naquela que é a última fronteira da Europa que já cerca de mil ucranianos atravessaram desde o início de março, segundo relatou o jornal espanhol ‘El País’.
A chegada ao nosso país, após a terrível ligação ferroviária entre Espanha e Portugal, que obriga a apanhar três comboios e quase 10 horas e meia para percorrer 624 quilómetros: para trás ficaram nove países para chegarem ao destino, após mais de uma semana de viagem.
Tome-se o caso de Violetta Khadasevich e Sergei Dzemikhov, de 23 e 26 anos, respetivamente, casados e bielorrussos que viviam em Kiev. Fogem com Elena, mãe de Sergei, e o seu animal de estimação, Mike, um cão abandonado que adotaram num abrigo na Bielorrússia há quatro anos e que manteve um silêncio absoluto durante a viagem até Lisboa. Aliás, nem as crianças fazem barulho: divertem-se em jogos no telemóvel.
Violetta e Sergei passaram a noite num albergue em Badajoz, administrado pela Cruz Vermelha. Há dois anos deixaram a Bielorrússia, depois de Violetta ter sido espancada pela polícia, rumo a Kiev. “Tivemos uma vida boa. Muita gente ajudou-nos a encontrar trabalho e a ter documentos”, explicou Sergei, no comboio. Uma Kiev que, agora, não é parecida àquela que deixaram para trás, submetida às regras da guerra. O último refúgio do casal foi uma estação de metro para se protegerem dos bombardeamentos. Agora, dois anos volvidos, esperam reconstruir as suas vidas pela terceira vez.
Apesar da distância – mais de 4 mil quilómetros – cerca de 18.400 ucranianos já receberam o estatuto de proteção temporária concedido pelo Governo português para acelerar a sua integração: as crianças já ingressaram em escolas assim como há quem já trabalhe sem entraves burocráticos.
A solidariedade da diáspora ucraniana instalada há anos em Portugal – mais de 27 mil pessoas em 2021 – incentivou a longa deslocação. O casal bielorrusso tem amigos na Nazaré. Nem todos escolhem Portugal porque existe uma rede de apoio. Igor Ryzhykov escolheu o nosso país pela sua boa imagem: “Agradável e onde as pessoas falam bem inglês.” A sua família está segura (por enquanto) no oeste da Ucrânia e o seu desejo é trazer a sua filha assim que se estabelecer. A guerra entrou na sua vida às 5 horas com duas explosões que o acordaram em Kharkov, a segunda maior cidade da Ucrânia e uma das russófonas devido à sua proximidade geográfica (a 40 quilómetros da fronteira). “A minha mãe tem irmãos que moram na Rússia. Ela ligou-lhe para dizer que Putin havia invadido o país e eles não acreditaram. Disseram que eram os americanos. Acreditam na propaganda de Putin em vez das nossas palavras”, garantiu Igor Ryzhykov.
Pedir o fim da guerra é absurdo mas Igor não se escondeu: “Espero que alguém mate Putin mas acho que os russos estão como ‘zombies’. Talvez façam protestos durante alguns meses, quando as sanções afundarem a sua economia. Podem vencer a guerra com ataques aéreos mas acho que o nosso exército é mais forte no terreno.”
Também o nigeriano William Obiana, programador informático de 29 anos que se formou e montou a sua vida em Kiev, escolheu Portugal apesar de não ter rede de apoio. “Fiz uma investigação entre diferentes países para ver a ajuda aos refugiados e Portugal parecia o melhor, juntamente com Noruega, França e Espanha. O pior é a Suécia”, apontou. Deixou para trás emprego, amigos, dinheiro e apartamento. Acima de tudo, deixou para trás uma vida que agora olha com saudade: “Os ucranianos são um dos povos mais agradáveis que já conheci. Fui para Kiev estudar porque eles têm um bom sistema educacional, estava a trabalhar e tinha uma casa. A Ucrânia é a minha casa e quero voltar quando a guerra acabar.”
O comboio demorou 3 horas a fazer os 180 quilómetros entre Badajoz e o Entroncamento, onde foram recebidos pelos bombeiros voluntários, que os encaminharam para novas linhas conforme o destino. No último domingo, houve grupos para Fátima, Porto e Lisboa. Irina, que deixou Mikolaiv, no sul da Ucrânia, com a cunhada e a filha de 6 anos, deixou para trás o marido, que ficou a cuidar da sua mãe e pai. Ela fugiu com algumas roupas, documentos e algum dinheiro e revelou uma força determinada para agradecer aos voluntários e condenar os russos: “Para nós, esse povo já não existe: nem parentes, nem amigos, nada. Esta não é a nossa guerra, não magoámos ninguém e não precisávamos de libertação. Um dia terminará e vamos reconstruir a Ucrânia e seremos muito melhores”, prometeu.













