Carlos Moedas declarou mais de 1,3 milhões de euros em ativos financeiros e aceitou uma redução superior a dois terços no rendimento anual para assumir a presidência da Câmara Municipal de Lisboa, segundo as declarações de património e rendimentos entregues ao Tribunal Constitucional ao longo dos últimos anos. O atual autarca da capital, que regressou à política em 2021 após a passagem pela Comissão Europeia, apresentou um património financeiro significativamente superior ao registado no início da sua carreira governativa em Portugal, mantendo ao mesmo tempo um património imobiliário reduzido e apenas uma viatura declarada: um Fiat 500 de 2015.
De acordo com uma análise divulgada pelo Observador sobre os rendimentos e património dos principais presidentes de câmara eleitos nas autárquicas de 2025, Carlos Moedas conta já com cerca de 15 anos de declarações entregues ao Tribunal Constitucional. Esses documentos permitem acompanhar a evolução do património do autarca desde a entrada no Governo de Pedro Passos Coelho, em 2011, passando pelo período em Bruxelas como comissário europeu, até ao regresso à política nacional para disputar e conquistar a liderança da Câmara de Lisboa.
Antes de voltar à política ativa, Moedas teve um interregno de cerca de um ano e meio após deixar a Comissão Europeia, em outubro de 2019. Nesse período assumiu funções fora do Estado, incluindo um cargo de administrador na Fundação Calouste Gulbenkian. A declaração entregue em 2021, já como presidente da Câmara de Lisboa, mostra uma quebra expressiva dos rendimentos anuais. Em 2020, o último ano antes do regresso à política, declarou ganhos de 238.492,01 euros. Já como autarca, o rendimento anual passou para cerca de 75 mil euros, tendo declarado 73,9 mil euros em 2023 e 76,1 mil euros em 2024.
Apesar da redução salarial, o património financeiro declarado aumentou substancialmente desde a saída do Governo português e da posterior passagem pelas instituições europeias. Na primeira declaração enquanto presidente da autarquia lisboeta, Moedas apresentou uma carteira de títulos avaliada em 394.358,43 euros, incluindo um fundo de investimento de 255.455,25 euros. A isso somavam-se seis contas bancárias a prazo, no valor global de 270.410,50 euros, e dez contas à ordem que totalizavam 395.366,78 euros. No total, os ativos financeiros atingiam 1.060.135,71 euros. Em 2024, após a entrada para o Conselho de Estado, o valor declarado ascendeu a 1.408.943,58 euros, fixando-se depois em 1.367.000,47 euros na declaração entregue após a reeleição em 2025.
O gabinete de Carlos Moedas justificou, contudo, que a diferença superior a 300 mil euros entre as declarações não corresponde a um aumento efetivo do património pessoal do autarca, mas sim a uma alteração no critério utilizado para declarar contas bancárias e fundos de investimento partilhados com a mulher, Céline Abecassis Moedas. Segundo a explicação avançada, em 2021 apenas metade do valor das contas conjuntas foi considerada, enquanto nas declarações posteriores passou a ser apresentado o valor total dessas contas, embora assinalando a cotitularidade. De acordo com a mesma fonte, entre 2021 e 2025 terá existido até uma “perda efetiva de património” de cerca de 31.775 euros.
As declarações mostram ainda que Carlos Moedas entrou no Governo de Passos Coelho já com um património financeiro considerável. Em 2011, declarava mais de 279 mil euros distribuídos por várias carteiras de títulos e fundos PPR, além de depósitos bancários relevantes. Na altura, auferia no setor privado mais de 118 mil euros anuais, valor que caiu para cerca de 70 mil euros quando assumiu funções como secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro. Durante esse período governativo, o património financeiro sofreu oscilações e o passivo associado a um empréstimo do banco espanhol BBVA foi sendo progressivamente reduzido, passando de mais de 317 mil euros para cerca de 281 mil euros até 2014. Quando regressou às declarações públicas, em 2021, o crédito já estava totalmente liquidado.
Ao assumir funções governativas, Moedas alienou igualmente as participações que detinha em três empresas privadas: a Crimson Investment Management, a Shilling Capital Partners e a Win World. A saída da Crimson levou a sociedade a tornar-se numa empresa unipessoal detida pela mulher do autarca, passando a dedicar-se sobretudo a atividades de consultoria e ensino. Já a Shilling Capital Partners, fundada em 2010, continua ativa, embora tenha registado resultados negativos em 2024.
No plano imobiliário, o presidente da Câmara de Lisboa manteve praticamente inalterado o património ao longo da carreira política. Moedas declarou apenas um apartamento em Campo de Ourique, avaliado em cerca de 412 mil euros, e outro imóvel em Beja, com valor patrimonial de aproximadamente 51 mil euros, que, segundo explicou anteriormente, é utilizado pela mãe. As últimas declarações incluem também rendimentos prediais provenientes do arrendamento do apartamento em Campo de Ourique, num valor anual entre 18 mil e 23 mil euros. Atualmente, segundo fonte oficial do gabinete do autarca, Carlos Moedas reside numa casa arrendada em Lisboa. Quanto a veículos, apenas consta nas declarações um Fiat 500 com matrícula de 2015, apresentado desde 2021 como a única viatura do presidente da Câmara lisboeta.








