Tal como o alegado pirata informático português Rui Pinto, que começa hoje a ser julgado, admitiu ser o denunciante por detrás dos documentos que estão na origem do «Luanda Leaks» e está acusado de mais 90 crimes no âmbito do processo «Football Leaks», há mais casos em que um denunciante revelou informações ‘preciosas’ sobre empresas e Governos.
Da Wikileaks ao Dieselgate: lembra-se destes casos? Quem são os whistleblowers e o que lhes aconteceu?
Julian Assange
Assange foi o fundador do portal da Internet WikiLeaks, conhecido em 2010, altura em que se divulgou um vídeo onde apareciam soldados americanos a disparar contra civis no Médio Oriente. O domínio “leaks.org” estava registado desde 1999, mas só em 2006 é que nasceu o Wikileaks.

O activista, de 48 anos, está na prisão de alta segurança de Belmarsh desde Abril do ano passado. Assange foi detido por agentes britânicos, logo depois de o Presidente equatoriano Lenín Moreno retirar-lhe o asilo diplomático que tinha desde 2012 na embaixada do Equador, em Londres.
O denunciante aguarda o início do julgamento de extradição para os Estados Unidos, no próximo mês, que lhe imputa acusações que podem levá-lo a uma sentença de até 170 anos de prisão. Entre as acusações, os Estados Unidos pedem que o australiano seja extraditado devido aos milhares de documentos confidenciais veiculados no portal e aos crimes de «conspiração» para se infiltrar nos sistemas de computadores do Governo norte-americano.
Chelsea Manning
Nascida Bradley Manning, a ex-militar do Exército norte-americano esteve à frente da divulgação de mais de 700 mil documentos entregues à WikiLeaks, depois de falar com jornalistas do “The Washington Post” e do “The New York Times”, que não se mostraram interessados na informação.

Enquanto analista de informação secreta em Badgad, teve acesso a estas informações – onde constam, por exemplo, detalhes sobre a forma como o Vaticano tentou encobrir os casos de abusos sexuais ocorridos na Irlanda ou como os Estados Unidos fizeram ameaças e levaram a cabo acções de espionagem para fazer valer os seus objectivos na conferência sobre o clima em Copenhaga. Os dados foram publicadas ao longo de um ano, entre Abril de 2010 e Abril de 2011.
Manning, que esteve presa entre 2010 e 2017, tendo voltado a ser detida em 2019, divulgou ainda comunicações de 271 embaixadas e consulados em 180 países, incluindo correspondência de altos diplomatas. Esta fuga de informação viria a ser conhecida como Cablegate.
Edward Snowden

O informático norte-americano chegou à CIA sem qualquer curso superior ou frequência universitária. E foi lá que se apercebeu da magnitude do sistema de cibervigilância que os Estados Unidos impõem aos seus cidadãos.
Durante a sua passagem pela CIA, Dell e NSA, teve acesso limitado a algumas das redes mais sensíveis do planeta e ajudou a montar aquele que seria o backup global da agência de inteligência norte-americana NSA – ou seja, um registo permanente da vida de todos. Toda a informação esteve reunida numa cloud e, durante anos, teve acesso «quase ilimitado às comunicações de praticamente qualquer homem, mulher ou criança que à face da Terra usasse um telefone ou um computador».
Em 2013, saiu dos Estados Unidos, depois de denunciar essas práticas e está, hoje, exilado na Rússia.
Glenn Greenwald
Greenwald denunciou os programas secretos de vigilância global dos EUA juntamente com Snowden. Mas não se ficou por aqui.
O nome do norte-americano aparece como editor no The Intercept, um projecto jornalístico brasileiro, fundado em 2014. Porém, tornou-se conhecido só em 2019, por estar associado à investigação jornalística às suspeitas de irregularidades em torno da operação Lava Jato, que acabou por ficar conhecida como Vaza Jato. As conversas privadas divulgadas pelo portal puseram em causa a imparcialidade do juiz Sérgio Moro, responsável pelo julgamento dos casos de corrupção no âmbito das Operações Lava Jato.
Acusado de ter incentivado, auxiliado e orientado as invasões aos telemóveis do juiz pelo Ministério Público Federal, o jornalista e advogado diz que estas acusações são «tentativa óbvia de atacar a imprensa livre em retaliação pelas revelações que foram divulgadas sobre Moro e o Governo Bolsonaro».
Christopher Wylie
O programador canadiano foi responsável por denunciar o escândalo do uso abusivo de dados de utilizadores do Facebook pela empresa Cambridge Analytica (que, na altura, ainda se chamava SCL Elections), onde trabalhou.
Em 2013, Wiley trabalhou no desenvolvimento de novas campanhas políticas para figuras conservadoras como Donald Trump. Na altura, com 28 anos, recolheu de forma ilegal os dados de 87 milhões de pessoas através dos seus perfis do Facebook.
Em 2018, revelou os documentos ao “The Guardian”, que davam conta do acesso abusivo a dados para criar campanhas políticas direccionadas em todo o mundo. Terão influenciado, por exemplo, a vitória de Donald Trump, nos Estados Unidos, e o resultado do referendo “Brexit” no Reino Unido.
Actualmente, com 30 anos, trabalha na cadeia sueca de vestuário H&M, onde assume o cargo de Research director.
Antoine Deltour
Deltour esteve envolvido no processo Lux Leks, que revelou os acordos fiscais secretos entre o Governo luxemburguês e 340 multinacionais, em Novembro de 2014.
Foi em 2010 que Antoine Deltour, então trabalhador na PricewaterhouseCoopers (PWC), abandonou a empresa, levando consigo os documentos de formação. Mas, ao aceder às bases de dados, descobriu os documentos na base dos acordos que permitiam que as multinacionais não pagassem impostos em território luxemburguês. Fez uma cópia e entregou-a um jornalista francês que os terá feito chegar ao consórcio internacional.
Na investigação, publicada em 2014, encontra-se também referência a outras consultoras como a Deloitte, KPMG e Ernst & Young. Ou seja, Deltour não foi o único denunciante deste caso.
Foi, contudo, acusado de violação do segredo comercial e roubo, tendo sido condenado na primeira instância a pena suspensa de prisão de 12 meses. Depois de um recurso, a pena de prisão desceu para os seis meses, mas Deltour ficou obrigado ao pagamento de 1500 euros de indemnização, até que, em 2018, o Supremo Tribunal do Luxemburgo decide atribuir-lhe o estatuto de «denunciante», livrando-o da prisão.
John Doe
A identidade de «John Doe» («Zé Ninguém», em português») é um mistério até hoje. Nem sequer se sabe se é homem ou mulher. No entanto, foi quem esteve por detrás da fuga de documentos dos servidores da empresa Mossack Fonseca, através dos quais foram descobertos paraísos fiscais, com a divulgação, pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, dos Panama Papers.
Hemanth Kappanna
Foi uma das figuras da equipa de investigadores da área da Engenharia que expôs as práticas fraudulentas da Volkswagen. Ficou assim provado que a fabricante alemã desenhou o software dos seus veículos a diesel de forma a «esconder» as verdadeiras emissões dos automóveis, tendo sido obrigada a pagar mais de 23 mil milhões de dólares em custas legais nos Estados Unidos e 33 mil milhões de dólares no total. Para as autoridades alemãs foram 535 milhões de euros.








