De 254 mil para 67 mil hectares: chuva ajuda a cortar área ardida em Portugal em 74%

Números, ainda provisórios, constam dos dados do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF)

Revista de Imprensa

A chuva que marcou parte do mês de agosto deu uma ajuda decisiva no combate aos incêndios rurais em Portugal. Entre 1 de janeiro e 31 de agosto, terão ardido cerca de 67 mil hectares, uma redução de aproximadamente 74% face ao mesmo período de 2025, quando as chamas consumiram mais de 254 mil hectares.

Escolha a Executive Digest como fonte preferida no Google Escolher ›

Os números, ainda provisórios, constam dos dados do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) citados pelo ‘Diário de Notícias‘ (DN).

Apesar da forte redução em relação ao ano passado, 2026 deverá ainda posicionar-se como o quinto pior ano em termos de área ardida até ao final de agosto desde 2016. O ano de 2025 permanece, neste período de comparação, como aquele em que as chamas consumiram maior área.

Uma das principais explicações para a diferença está no céu: a chuva que chegou durante a segunda metade de agosto alterou significativamente as condições para a propagação e combate aos fogos.

“A chuva não só ajudou como foi determinante”, afirma António Nunes, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, em declarações ao ‘DN’.

Continue a ler após a publicidade
Continue a ler após a publicidade

“Não se compara 30 dias de agosto com 30 dias”

O responsável chama a atenção para uma particularidade importante quando se compara agosto deste ano com o mesmo mês de 2025.

“Não se compara 30 dias de agosto com 30 dias, mas com 20 dias”, explica, referindo-se aos cerca de dez dias em que a chuva e as temperaturas mais baixas criaram condições bastante mais favoráveis.

A meteorologia também ajudou durante a madrugada. António Nunes destaca situações em que, “por volta das 04h00, 05h00, o vento estava mais ameno e a temperatura mais baixa”, condições que facilitaram o trabalho dos operacionais.

Para o presidente da Liga dos Bombeiros, estes episódios mostram como “as condições meteorológicas locais são determinantes para o sucesso do combate ao incêndio”.

Continue a ler após a publicidade

António Nunes deixa, contudo, um alerta contra conclusões precipitadas a partir da comparação entre apenas dois anos.

“Não é fácil fazer comparações de um ano para o outro”, salienta, defendendo que são necessárias séries de vários anos para avaliar de forma estatisticamente válida a evolução dos incêndios em Portugal.

“Em 2024 ardeu, em 2025 ardeu muito, 2026 eventualmente vai arder menos e depois temos de ver se em 2027 vai arder muito ou não. E depois, ao final de quatro ou cinco anos, fazemos esse balanço”, explica.

Calor e tempo seco mantêm risco até dia 5

A chuva ajudou no final de agosto, mas os primeiros dias de setembro voltam a exigir atenção.

Continue a ler após a publicidade

De acordo com uma previsão do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), Portugal deverá enfrentar “episódios de tempo quente e seco sem recuperação noturna até dia 5”.

A situação deverá alterar-se a partir de domingo, com uma descida das temperaturas e uma mudança do vento para oeste, trazendo maior humidade marítima e condições potencialmente mais favoráveis à diminuição do risco de incêndio rural.

Setembro continua, porém, integrado no período tradicionalmente mais crítico dos incêndios em Portugal. A chamada Fase Charlie decorre entre 1 de julho e 30 de setembro, podendo ser prolongada pelo Governo caso as condições meteorológicas o justifiquem.

Meios aéreos começaram a atuar mais cedo

A meteorologia não explica tudo. António Nunes aponta também mudanças na resposta operacional aos incêndios durante este ano.

“Este ano assistimos à intervenção dos meios aéreos mais cedo do que acontecia”, afirma.

Continue a ler após a publicidade

Segundo o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, se anteriormente a entrada em ação destes meios acontecia habitualmente pelas 09h00 ou 09h30, em 2026 houve várias situações em que começaram a operar pelas 08h00.

“Houve algumas melhorias. Nem tudo pode ficar igual de um ano para o outro”, reconhece.

Outra particularidade da época de incêndios deste ano prende-se com a localização das ocorrências. “Muitos dos incêndios ocorreram em áreas ardidas no ano passado”, refere António Nunes.

O Norte concentrou uma parte significativa das ocorrências, enquanto a região Centro foi relativamente poupada. Lisboa e Vale do Tejo registaram “dois ou três incêndios” relevantes, enquanto Algarve e Alentejo tiveram igualmente poucas ocorrências destacadas, segundo o responsável.

“Precisamos, talvez, de uma dezena de anos”

Apesar da redução de 74% da área ardida, o presidente da Liga dos Bombeiros recusa considerar resolvido o problema estrutural dos incêndios em Portugal.

Continue a ler após a publicidade

António Nunes reconhece uma maior consciencialização política sobre a necessidade de executar medidas de prevenção, mas considera que a transformação da paisagem prevista após os grandes incêndios de 2017 ficou aquém do inicialmente projetado.

O plano “alcançou alguns objetivos, mas não todos”, afirma, apontando a limpeza dos terrenos e a mudança de comportamentos como alguns dos desafios que permanecem.

“Precisamos, talvez, de uma dezena de anos para levar a efeito a transformação no território de uma forma global”, conclui.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.