Enquanto os mercados continuam focados nas “Magnificent Seven” norte-americanas, a Europa está a consolidar o seu próprio grupo de gigantes cotadas, com presença global e peso crescente nos mercados financeiros.
ASML, SAP, LVMH, Novo Nordisk, Siemens, TotalEnergies e UniCredit formam aquilo que alguns analistas já apelidam de “Sete Magníficas” europeias — um conjunto de empresas líderes nos respetivos setores, cuja dimensão e desempenho estão a reforçar a atratividade das bolsas europeias junto dos investidores.
A análise é de João Lampreia, especialista de mercado na Freedom24, que destaca os resultados do primeiro trimestre de 2026 como prova de que estas empresas “não estão apenas a sobreviver, mas a moldar tendências estruturais à escala global”.
Ao contrário das gigantes tecnológicas dos EUA, concentradas sobretudo na inteligência artificial e nas plataformas digitais, o grupo europeu distingue-se pela diversidade setorial. Semicondutores, software, luxo, farmacêutica, indústria, energia e banca compõem um portefólio considerado mais equilibrado e resiliente a choques específicos.
Entre os destaques surge a neerlandesa ASML, monopolista mundial das máquinas de litografia EUV utilizadas na produção de chips avançados. A empresa registou vendas de 8,8 mil milhões de euros no primeiro trimestre, com uma margem bruta de 53%, impulsionada pela crescente procura de infraestrutura ligada à inteligência artificial. A tecnológica prevê receitas entre 36 e 40 mil milhões de euros em 2026.
Também a alemã SAP reforçou o posicionamento no software empresarial, com crescimento de 27% nas receitas cloud e um backlog de 21,9 mil milhões de euros. A empresa anunciou ainda um programa de recompra de ações de 10 mil milhões de euros até 2027.
No setor do luxo, a francesa LVMH enfrentou um trimestre mais desafiante. As receitas caíram 6% em termos homólogos, afetadas pela desaceleração no Médio Oriente devido ao conflito no Irão, que penalizou particularmente a divisão de Moda e Marroquinaria. Ainda assim, a empresa manteve estabilidade na Europa e no Japão e sinais de recuperação na Ásia.
Já a dinamarquesa Novo Nordisk continua a beneficiar da forte procura pelos medicamentos GLP-1 para diabetes e obesidade, como Ozempic e Wegovy. As vendas cresceram 32% em moedas constantes, apesar da pressão sobre os preços nos EUA. O lançamento da versão oral do Wegovy registou mais de dois milhões de prescrições desde janeiro.
Na indústria, a alemã Siemens apresentou crescimento de 8% nas receitas e aumentou em 15% o lucro operacional, impulsionada pela procura em automação industrial e infraestruturas inteligentes. O grupo continua a acelerar a estratégia “ONE Tech Company”, focada em software industrial e tecnologias avançadas.
A francesa TotalEnergies foi uma das beneficiadas pela volatilidade energética gerada pelo conflito no Médio Oriente. O lucro líquido ajustado disparou quase 29%, apoiado pela subida dos preços do petróleo e do gás natural liquefeito, enquanto a capacidade instalada em energias renováveis cresceu 20% em termos homólogos.
Por fim, a italiana UniCredit apresentou o 21.º trimestre consecutivo de resultados recorde, com lucro líquido de 3,22 mil milhões de euros, acima das expectativas do mercado. O banco continua a destacar-se pela eficiência operacional e avançou com uma ofensiva sobre o alemão Commerzbank.
Segundo João Lampreia, o principal fator diferenciador das “sete” europeias é precisamente a sua heterogeneidade. “Ao contrário da congénere americana, onde uma quebra no sentimento em torno da IA afeta simultaneamente todas as empresas, a carteira europeia oferece uma diversificação setorial integrada”, refere.
O analista considera que este grupo representa um caso de investimento cada vez mais relevante para os mercados internacionais, sobretudo em áreas onde “os EUA não têm concorrentes equivalentes ou estão estruturalmente em desvantagem”.








