A GoPro tornou-se sinónimo das pequenas câmaras de ação presas a capacetes, motas, bicicletas ou pranchas de surf. Agora, a empresa prepara uma das maiores transformações da sua história: quer levar a tecnologia que desenvolveu durante mais de duas décadas para a inteligência artificial, defesa, robótica e indústria aeroespacial.
A mudança surge através de um acordo de fusão com a Starman Optical, empresa dos EUA especializada em fotónica e transceivers óticos — componentes utilizados para transformar dados em sinais luminosos e permitir comunicações de alta velocidade, nomeadamente em centros de dados.
O negócio prevê um pagamento agregado de 285 milhões de dólares aos acionistas da GoPro, equivalente a 1,14 dólares por ação. Os atuais acionistas conservarão cerca de 10% da empresa resultante da operação. A transação deverá ainda permitir liquidar aproximadamente 92 milhões de dólares de dívida da GoPro.
A operação deverá ficar concluída até ao final de 2026, dependendo ainda da aprovação dos acionistas e das autoridades reguladoras.
Das câmaras para os centros de dados
É o destino da tecnologia da GoPro que torna a operação particularmente significativa.
A Starman Optical produz nos EUA transceivers óticos destinados, entre outras utilizações, à infraestrutura necessária aos centros de dados de inteligência artificial. Depois da fusão, estes equipamentos deverão passar a integrar o portefólio da GoPro.
A empresa pretende depois aproveitar a experiência acumulada em ótica e processamento de imagem para entrar noutros mercados: contratos governamentais, defesa, robótica e indústria aeroespacial.
A GoPro dispõe de um portefólio com mais de 2.500 patentes registadas nos EUA, uma propriedade intelectual que a nova empresa pretende explorar para lá do mercado tradicional das câmaras de consumo.
“Esperamos que esta fusão permita à GoPro crescer nos mercados de consumo, comercial e de defesa”, afirmou Nicholas Woodman, fundador e CEO da empresa, acrescentando que a combinação deverá permitir atuar em áreas relacionadas com câmaras, ótica e infraestrutura para IA.
As câmaras, contudo, não vão desaparecer.
A empresa garante que continuará a dar “total suporte” aos atuais produtos destinados aos consumidores, assim como aos serviços de subscrição e armazenamento na cloud. A GoPro continuará também cotada no Nasdaq após a conclusão da operação.
Uma marca que perdeu quase todo o valor
A transformação acontece depois de vários anos difíceis para aquela que chegou a ser uma das marcas tecnológicas mais reconhecidas dos EUA.
Quando entrou em bolsa, em 2014, a GoPro foi avaliada em cerca de quatro mil milhões de dólares. Desde então, o valor de mercado caiu aproximadamente 96%, segundo a ‘Reuters’. As receitas trimestrais encontram-se mais de 80% abaixo do máximo registado naquele ano.
A empresa enfrenta também concorrência crescente de fabricantes chineses, como DJI e Insta360, além do aumento dos custos de componentes como os chips de memória. No segundo trimestre deste ano, as receitas caíram 31% em termos homólogos e os prejuízos líquidos mais do que triplicaram, para 51 milhões de dólares.
O negócio com a Starman representa, por isso, muito mais do que uma simples incursão na inteligência artificial: é uma tentativa de encontrar novas fontes de crescimento para uma empresa cujo negócio tradicional perdeu grande parte da dimensão que tinha há uma década.
Bolsa reage em força
Os investidores não ficaram indiferentes.
As ações da GoPro fecharam a sessão de terça-feira com uma subida de cerca de 40%, para 1,23 dólares, depois do anúncio da operação.
A subida aconteceu poucos dias depois de outro desenvolvimento inesperado. Mark Fischbach, o criador de conteúdos conhecido como Markiplier, revelou ter adquirido uma participação de 8,5% na GoPro, tornando-se o maior acionista individual da empresa. Só essa notícia já tinha provocado uma forte valorização das ações.
Agora, porém, a mudança é estrutural.
Se a operação receber as aprovações necessárias, a GoPro continuará a vender as câmaras que fizeram o seu nome, mas deixará de depender apenas delas. A marca quer usar a experiência em imagem e ótica para disputar mercados que há poucos anos pareceriam improváveis para uma empresa associada sobretudo a vídeos de desportos radicais: centros de dados de IA, sistemas de defesa, robótica e aeroespacial.
É uma mudança que a própria ‘Forbes’ enquadra numa tendência mais ampla de empresas que procuram reposicionar-se perante a explosão do investimento em inteligência artificial.














