Da NATO ao armamento: Os cinco caminhos da Europa para (tentar) escapar à dependência militar dos EUA

A guerra na Ucrânia, o regresso de Donald Trump à Casa Branca e as sucessivas ameaças de uma redução do compromisso norte-americano com a NATO estão a acelerar uma transformação profunda na política de defesa europeia.

Pedro Zagacho Gonçalves

A guerra na Ucrânia, o regresso de Donald Trump à Casa Branca e as sucessivas ameaças de uma redução do compromisso norte-americano com a NATO estão a acelerar uma transformação profunda na política de defesa europeia. Depois de décadas de forte dependência tecnológica, industrial e operacional dos Estados Unidos, os países europeus procuram reforçar a sua capacidade militar própria, investindo em armamento, indústria, tecnologia, inteligência artificial e sistemas de defesa aérea. O objetivo é claro: aumentar a autonomia estratégica do continente e reduzir a vulnerabilidade face às decisões tomadas em Washington.

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Segundo uma análise publicada pela Newsweek, esta estratégia enfrenta, contudo, desafios significativos. Apesar dos investimentos sem precedentes e dos novos programas conjuntos lançados por vários países europeus, continuam a existir áreas em que as forças armadas do continente dependem fortemente da tecnologia, do financiamento, dos dados e das plataformas militares norte-americanas, uma realidade que poderá demorar muitos anos a alterar.

O desfile de Paris simbolizou ambição, mas também dependência
As comemorações do Dia da Bastilha, em França, serviram este ano como uma demonstração da crescente cooperação militar europeia. O desfile de 14 de julho reuniu um número recorde de 7.600 militares provenientes de vários países europeus, na presença do Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, e de diversos líderes aliados.

O espetáculo militar transmitiu uma imagem de unidade e capacidade operacional. No entanto, por detrás dessa demonstração permanece uma realidade difícil de ignorar: caso a Europa fosse hoje chamada a enfrentar um conflito de grande dimensão sem o apoio dos Estados Unidos, continuaria altamente dependente do equipamento, das capacidades tecnológicas e da logística norte-americana.

As declarações de Donald Trump sobre uma eventual redução da presença militar norte-americana na Europa e a possibilidade de diminuir o envolvimento dos EUA na NATO levaram governos europeus a acelerar diversos projetos destinados a reforçar a autonomia do continente.

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Produzir mais armas europeias tornou-se prioridade
Uma das principais apostas passa pelo reforço da indústria europeia de defesa.

Durante décadas, o fim da Guerra Fria levou muitos países a reduzirem significativamente o investimento militar. A capacidade industrial diminuiu, as cadeias de produção fragmentaram-se entre vários Estados e muitos equipamentos passaram a ser adquiridos fora da Europa.

Agora, a Estratégia Industrial Europeia de Defesa pretende inverter essa tendência até 2035.

Entre as medidas previstas encontra-se a simplificação dos processos de aquisição de equipamento militar, a redução da burocracia e o incentivo para que os Estados-membros adquiram uma parte substancial do seu armamento junto de fabricantes europeus. Bruxelas prevê igualmente mecanismos de financiamento destinados a aumentar a capacidade produtiva da indústria e benefícios fiscais para compras conjuntas entre vários países.

Contudo, esta aposta colide com um importante instrumento de influência norte-americano.

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Ao tomar conhecimento da possibilidade de a União Europeia introduzir regras que favoreçam fornecedores europeus na aquisição de equipamento militar, a administração norte-americana alertou que poderia limitar o acesso europeu às plataformas de armamento dos Estados Unidos.

Essa capacidade resulta das regras norte-americanas conhecidas como International Traffic in Arms Regulations (ITAR), que permitem aos EUA restringir ou revogar o acesso de países estrangeiros a tecnologias militares, incluindo equipamentos já adquiridos.

Na prática, mesmo depois de comprar sistemas norte-americanos, vários países continuam dependentes da autorização de Washington para atualizações, manutenção, software ou acesso a determinadas capacidades.

Defesa aérea continua dependente de tecnologia externa
Outro dos pontos considerados críticos é a defesa antiaérea.

A guerra na Ucrânia demonstrou a importância dos sistemas capazes de intercetar mísseis balísticos e ataques de longo alcance, levando vários governos europeus a reconhecer que o continente continua insuficientemente preparado para responder a este tipo de ameaça.

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Como resposta surgiu a European Sky Shield Initiative (ESSI), liderada pela Alemanha.

O projeto procura criar uma rede integrada de defesa aérea através da aquisição de sistemas já existentes, incluindo o alemão IRIS-T, o norte-americano Patriot e o israelita Arrow 3.

Embora esta solução permita responder rapidamente às necessidades atuais, mantém uma forte dependência de tecnologia produzida fora da Europa.

Por esse motivo, dez países europeus, entre os quais França, Alemanha, Reino Unido e Ucrânia, anunciaram recentemente uma nova coligação destinada ao desenvolvimento de sistemas europeus de defesa antimíssil.

Empresas como MBDA, Airbus e Thales trabalham atualmente em novos intercetores de longo alcance e armas hipersónicas, embora nenhum destes sistemas deva entrar em serviço antes da próxima década.

Enquanto isso, os Estados Unidos continuam a reforçar a sua posição. A fabricante Lockheed Martin prepara a abertura de um centro europeu de manutenção para os mísseis Patriot e Donald Trump admitiu mesmo a possibilidade de conceder à Ucrânia licenças para produzir parte destes sistemas, embora sujeitas à aprovação norte-americana.

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Mísseis de longo alcance são outra prioridade
A capacidade ofensiva constitui igualmente uma preocupação crescente. Os atuais sistemas convencionais europeus apresentam alcances significativamente inferiores aos arsenais russos, limitando a capacidade de atingir bases aéreas, centros logísticos ou sistemas de defesa instalados em profundidade no território inimigo.

Para reduzir essa diferença foi criado o programa European Long-Range Strike Approach (ELSA), que reúne fabricantes de defesa do Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Polónia e Suécia.

O objetivo passa por desenvolver mísseis e drones com alcances superiores a 2.000 quilómetros.

Reino Unido e Alemanha lideram também uma iniciativa apoiada por doze países da NATO que prevê investimentos superiores a 50 mil milhões de dólares para acelerar estes programas.

Ao mesmo tempo, Londres e Berlim colaboram no desenvolvimento de um novo míssil terrestre de longo alcance ao abrigo do acordo Trinity House, enquanto a empresa anglo-alemã Hypersonica realizou este ano o primeiro teste bem-sucedido de um protótipo europeu de míssil hipersónico.

Ainda assim, especialistas alertam para a dimensão do desafio.
Sam Cranny-Evans, editor da revista Calibre Defence e investigador associado do Royal United Services Institute (RUSI), considera que a Europa está a fazer progressos relevantes, mas alerta que desenvolver munições avançadas exige investimentos muito superiores aos atualmente previstos.

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Segundo o especialista, citado pela Newsweek, os Estados Unidos utilizaram cerca de 13 mil munições de ataque durante os recentes bombardeamentos contra o Irão, um volume que ilustra a enorme capacidade industrial necessária para sustentar um conflito de grande intensidade.

Aviação de combate continua presa ao F-35
Uma das maiores dificuldades da Europa continua a ser a aviação de combate.

Apesar de produzir caças como o Eurofighter Typhoon, o francês Rafale ou o sueco Gripen, nenhum país europeu desenvolveu um caça de quinta geração equivalente ao norte-americano F-35, atualmente considerado um dos mais avançados do mundo.

Essa realidade obriga numerosos países europeus a adquirir aeronaves norte-americanas.

O problema poderá agravar-se na próxima década.
Os Estados Unidos já desenvolvem o futuro caça de sexta geração F-47, enquanto analistas acreditam que a China já realizou voos experimentais com dois protótipos desta nova geração.

Entretanto, o projeto europeu New Generation Fighter (NGF) acabou por colapsar este ano, após mais de uma década de desenvolvimento e dezenas de milhares de milhões de dólares investidos, devido a divergências entre empresas francesas e alemãs.

A principal esperança europeia passa agora pelo Global Combat Air Programme (GCAP), que junta Reino Unido, Itália e Japão.

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Os três governos aprovaram recentemente um contrato de cerca de 4,6 mil milhões de libras para desenvolver o futuro caça Tempest, cuja entrada em serviço está prevista para 2035.

Mesmo que esse calendário seja cumprido, tudo indica que Estados Unidos e China manterão uma vantagem tecnológica significativa.

Sam Cranny-Evans recorda ainda que muitos fabricantes europeus produzem componentes para o F-35 ou asseguram centros de manutenção da aeronave, o que cria uma forte ligação industrial ao programa norte-americano, tornando essa dependência particularmente difícil de eliminar.

Inteligência artificial e software continuam dominados pelos EUA
Outra área considerada decisiva para os conflitos do futuro é o software militar.

Hoje, sistemas de comando e controlo, inteligência artificial, satélites, aviões de vigilância e plataformas de reconhecimento são tão importantes quanto os próprios armamentos.

Também aqui a dependência europeia permanece elevada.

Segundo dados do International Institute for Strategic Studies, os países europeus da NATO operam apenas 47 aeronaves dedicadas à inteligência, vigilância e reconhecimento, enquanto os Estados Unidos dispõem de pelo menos 80 aviões desta categoria, além de outras 34 aeronaves especializadas em interceção de comunicações.

A Europa pretende renovar parte desta capacidade através da aquisição do sistema GlobalEye, desenvolvido pela sueca Saab em parceria com a canadiana Bombardier, mas continuará durante vários anos dependente de plataformas norte-americanas.

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Na inteligência artificial começam igualmente a surgir iniciativas europeias.

A empresa francesa Mistral assinou um acordo com as forças armadas francesas para fornecer modelos avançados de IA militar, enquanto França desenvolve projetos conjuntos entre o setor público e privado.

Também Finlândia e Estónia estão a testar soluções militares desenvolvidas pela empresa NestAI.

Ainda assim, os especialistas consideram que a maior vantagem norte-americana reside na dimensão do investimento privado disponível para empresas tecnológicas.

Gigantes como OpenAI, Anthropic e Google beneficiam de enormes recursos financeiros, permitindo desenvolver modelos de inteligência artificial a um ritmo muito superior ao dos concorrentes europeus, ao mesmo tempo que conquistam contratos milionários com o Pentágono.

Situação semelhante verifica-se no software de comando militar.

A plataforma Maven Smart System, desenvolvida pela norte-americana Palantir, foi adquirida pela NATO em março de 2025 e está atualmente a ser implementada em toda a Aliança Atlântica.

Embora países como França e Alemanha procurem soluções nacionais e a Ucrânia tenha desenvolvido o sistema DELTA, utilizado com sucesso no conflito contra a Rússia, um comandante da NATO responsável pela inovação afirmou recentemente ao Politico que, tanto quanto é do seu conhecimento, “não existe atualmente um verdadeiro concorrente para a Palantir”.

Autonomia europeia será um processo longo
Apesar da aceleração dos investimentos, dos novos programas industriais e da crescente coordenação entre os países europeus, especialistas consideram que a autonomia estratégica do continente continuará a ser um objetivo de longo prazo.

Grande parte das futuras capacidades militares europeias ainda se encontra em fase de desenvolvimento e muitas só deverão entrar em operação na próxima década.

Até lá, os exércitos europeus continuarão fortemente dependentes de equipamento, tecnologia, software e apoio logístico provenientes dos Estados Unidos, numa relação que Bruxelas procura reduzir, mas que permanece profundamente enraizada na arquitetura de segurança do continente.

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