A invasão russa da Ucrânia ultrapassou a duração da Primeira Guerra Mundial, assinala o ‘El País’. Esta quinta-feira cumpriram-se 1.569 dias desde que Vladimir Putin ordenou a entrada do exército russo em território ucraniano, a 24 de fevereiro de 2022, mais um dia do que o conflito que decorreu entre 28 de julho de 1914 e 11 de novembro de 1918.
A comparação é inevitável, não pelo número de mortos, que continua a ser incomparável, mas pelas imagens que chegam diariamente da frente de batalha. Lama, trincheiras, pânico, combates corpo a corpo, florestas destruídas por bombas e posições quase entrelaçadas entre os dois exércitos evocam cenários associados à Primeira Guerra Mundial.
Da guerra de trincheiras à guerra de drones
Ao longo dos 52 meses que se seguiram à ordem de Putin, a guerra mudou de forma profunda. O combate entre soldados continua a marcar muitas batalhas urbanas, sobretudo nas disputas pelo controlo de localidades ao longo da linha da frente. Mas os drones passaram a ter um papel cada vez mais decisivo.
Hoje, muitos militares já não enfrentam o inimigo diretamente, mas através de um ecrã. Drones aéreos, terrestres e navais, equipados com câmaras e operados à distância, transformaram a forma de vigiar, atacar e defender posições.
Apesar da modernização do armamento, o fator humano continua a ser determinante. O ‘El País’ destaca o caso do capitão ucraniano Oleksiy Mykhailov, de 37 anos, que bateu o recorde nacional de maior período de serviço numa única posição sem descanso.
O capitão permaneceu 343 dias na frente de Orihiv, na região de Zaporíjia, entre 1 de abril de 2025 e 8 de março de 2026. Depois de ser condecorado pelo presidente Volodymyr Zelensky, explicou aos meios locais que, em teoria, um soldado de infantaria deveria passar um mês em combate e outro em recuperação, mas que isso se tornou irrealista devido à falta de homens.
Para Kiev, a guerra começou antes de 2022
Apesar do marco simbólico dos 1569 dias, os ucranianos rejeitam a ideia de que a guerra tenha começado apenas a 24 de fevereiro de 2022. Para Kiev, essa data assinala a tentativa de Putin de desferir o golpe final e tomar a capital em poucos dias.
A guerra, defendem, começou oito anos antes, em 2014, com a anexação da Crimeia e a ofensiva russa no Donbas, nas regiões de Donetsk e Lugansk. Por essa leitura, o conflito já dura há mais de 12 anos.
A memória de guerras anteriores também pesa no país. O jornal espanhol recorda o testemunho de Lidia, uma mulher de 86 anos de Kozacha Lopan, na região de Kharkiv, que em 2023 descreveu a invasão russa como a sua “segunda guerra”, depois de ter vivido a II Guerra Mundial em criança.
Sem fim à vista
As negociações impulsionadas pelo presidente americano, Donald Trump, estão paralisadas, em parte devido à crise no Médio Oriente. Neste contexto, não há sinais de um fim próximo para a guerra.
O ‘El País’ admite que o conflito possa não só ultrapassar a duração da I Guerra Mundial, como também aproximar-se ou superar a II Guerra Mundial, que durou seis anos e um dia, ou 2193 dias.
Para a Europa, o peso da guerra vai além da eventual adesão da Ucrânia à União Europeia ou à NATO. Zelensky tem insistido que o país funciona como barreira ao avanço da Rússia sobre outros Estados europeus.
Putin, por sua vez, mantém pressão sobre a Europa não apenas através da guerra convencional, mas também por meio da ameaça de drones e mísseis e da guerra híbrida, usada como instrumento de desestabilização contra governos e processos eleitorais.
As cidades que ainda travam o avanço russo
O texto estabelece ainda uma ligação entre a memória da I Guerra Mundial e a realidade atual da Ucrânia. Se o filme 1917, de Sam Mendes, se inspirou nas histórias do avô do realizador, mensageiro durante a I Guerra Mundial, hoje muitos soldados ucranianos enfrentam uma missão comparável: impedir que cidades quase destruídas caiam nas mãos russas.
É o caso de Kostiantinivka, já muito danificada, mas ainda vista como um bastião contra o avanço de Moscovo e contra o objetivo russo de controlar totalmente o Donbas.
Mais de um século depois da I Guerra Mundial, a Ucrânia vive uma guerra diferente na tecnologia, mas familiar na dureza das trincheiras, na exaustão dos soldados e na incerteza sobre quanto tempo ainda poderá durar.







