Soldados futuristas da União Europeia, caças a sobrevoar o continente ao som de eurodance e mapas onde o bloco se estende da Gronelândia ao Cáucaso tornaram-se imagens recorrentes nas redes sociais. Este é o universo da propaganda digital pró-UE que, nos últimos dois anos, passou a retratar a União Europeia não como um conjunto fragmentado de 27 países, mas como uma superpotência comparável aos EUA ou à China.
De acordo com o jornal ‘POLITICO’, este tipo de conteúdo, que imagina a UE como um império pan-europeu, uma federação continental ou mesmo os chamados Estados Unidos da Europa, acumulou milhares de milhões de visualizações em plataformas como YouTube, TikTok e Instagram. A sua expansão coincidiu com o período posterior à invasão da Ucrânia pela Rússia e com a reação negativa, em várias partes da Europa, a um acordo comercial entre a UE e os EUA considerado humilhante para Bruxelas.
Reação à pressão externa e às críticas à Europa
A intensificação destes memes pró-europeus surge também como resposta às críticas do presidente americano, Donald Trump, que classificou os líderes europeus como “fracos” numa entrevista ao ‘POLITICO’, e às diatribes anti-UE do empresário Elon Musk. Nesse contexto, as publicações multiplicaram-se e ganharam maior alcance, recorrendo a cartazes de inspiração soviética com o emblema das estrelas da UE, vídeos com imagens aéreas de monumentos europeus e comparações entre os alegados pontos fortes do modelo europeu e os EUA sob a liderança de Trump.
Embora grande parte deste conteúdo recorra a imagens geradas por inteligência artificial, os autores rejeitam a ideia de que se trate apenas de propaganda vazia. A Europa idealizada por contas como “Ave Europa” ou “Propagandista Europeu” distancia-se da realidade de um bloco dividido sobre questões centrais, desde o financiamento da guerra na Ucrânia às reformas económicas necessárias para travar um prolongado declínio económico. Ainda assim, o objetivo declarado não é reproduzir fielmente a política europeia, mas criar um sentimento de protagonismo e ambição entre jovens que se sentem pressionados pelo trumpismo, pelo expansionismo russo e pela rivalidade entre Washington e Pequim.
Uma geração politicamente diversa, mas europeísta
O ‘POLITICO’ contactou 11 dos responsáveis por estas contas e concluiu que se tratam de pessoas reais, com posições políticas variadas, que vão da esquerda à extrema-direita. Alguns identificam-se como federalistas europeus, outros como imperialistas pan-europeus, privilegiando a defesa de uma civilização europeia em detrimento de uma arquitetura institucional específica. O denominador comum é a idade: todos têm menos de 35 anos.
Christelle Savall, antiga presidente da Associação dos Jovens Federalistas Europeus, considera que esta mobilização reflete uma vontade de recuperar capacidade de ação e soberania. A dirigente sublinha que o movimento juvenil pró-UE tem vindo a crescer, contrariando a narrativa dominante de que o futuro político da Europa pertence inevitavelmente à extrema-direita.
Apoio crescente à integração europeia
Esta mudança de clima também encontra eco fora do espaço digital. Sondagens recentes indicam que o apoio à União Europeia está em níveis historicamente elevados. Uma maioria clara dos europeus defende uma maior integração nas áreas da segurança e da defesa, segundo dados do Eurobarómetro 2025, enquanto um inquérito realizado em nove países mostra que 69% dos alemães apoiam a criação de um exército europeu, uma ideia frequentemente descartada como utópica pelos líderes em funções.
Há ainda sinais de que este europeísmo juvenil pode ter impacto eleitoral. Rob Jettens, um político centrista de 38 anos que obteve o maior número de votos nas recentes eleições nos Países Baixos, é visto por alguns federalistas como um exemplo desta nova geração. O partido pan-europeu Volt Europa, fundado em 2017, expandiu-se significativamente e conquistou um lugar no Parlamento Europeu.
Entre o idealismo e o euro-realismo
Apesar deste entusiasmo, os líderes europeus continuam a resistir a passos decisivos rumo a uma federação plena, como a criação de um exército integrado ou de uma união fiscal robusta. Mesmo após a pandemia e a guerra na Ucrânia, prevalece em Bruxelas uma lógica de “euro-realismo”, que privilegia avanços cautelosos para evitar alimentar forças eurocéticas.
Mario Draghi defendeu recentemente uma abordagem de “federalismo pragmático”, baseada em coligações de países dispostos a avançar em áreas específicas, enquanto vários responsáveis políticos descartam abertamente a ideia de um exército europeu. Para os jovens ativistas digitais, esta falta de ambição é frustrante e reforça a perceção de que a visão estratégica para o futuro da Europa está ausente do debate político tradicional.
Uma ideia antiga com novas roupagens
A ambição de uma Europa politicamente unificada não é nova. Victor Hugo já a antecipava em 1849 e, após a II Guerra Mundial, a criação da Comunidade Económica Europeia e, mais tarde, da União Europeia, materializou parte dessa visão. No entanto, a oposição histórica de líderes nacionalistas, como Charles de Gaulle, limitou a evolução para um verdadeiro Estado federal.
Hoje, as divisões persistem, tanto entre Governos como entre os próprios jovens europeístas. Enquanto alguns defendem uma federação inclusiva, outros imaginam uma Europa culturalmente homogénea e com competências limitadas para Bruxelas. Ainda assim, analistas como Joseph de Weck consideram que a grande mudança está no referencial político desta geração: a Europa passou a ser o ponto de partida do debate, e não a política nacional.
Uma mudança lenta, mas visível
Ao contrário de 2016, quando o Brexit alimentou receios de uma fragmentação do projeto europeu, nenhum dos atuais líderes populistas defende hoje a saída do seu país da UE. Mesmo Governos críticos de Bruxelas assumem que querem permanecer dentro do bloco, uma realidade que sugere uma transformação profunda do debate político europeu.
Os Estados Unidos da Europa podem não estar iminentes, mas os seus defensores acreditam que cada meme, cada vídeo e cada símbolo digital ajuda a aproximar esse horizonte. Como resume o ‘POLITICO’, trata-se de uma batalha cultural e política travada online, mas com ambições claras de impacto no mundo real.














