A insistência de Donald Trump em relação à Gronelândia está longe de ser um capricho pessoal. O presidente dos Estados Unidos iniciou 2026 a admitir publicamente a possibilidade de adquirir o território autónomo pertencente ao Reino da Dinamarca, alegando razões de “segurança nacional”. Caso a compra não seja viável, Trump garante que a sua administração está a estudar “diversas opções” para assumir o controlo da ilha, incluindo “o uso das Forças Armadas norte-americanas”.
A resposta do Governo da Gronelândia foi imediata. “A Gronelândia é nossa. Não estamos à venda nem nunca estaremos”, afirmou o primeiro-ministro da região autónoma, Múte Egede, rejeitando de forma categórica qualquer negociação nesse sentido e pedindo contenção face à escalada retórica de Washington.
Uma ambição que atravessa mais de século e meio
Apesar da dureza das declarações recentes, o interesse dos Estados Unidos pela maior ilha do mundo não é novo. Remonta, pelo menos, a 1867, o mesmo ano em que Washington comprou o Alasca à Rússia czarista por 7,2 milhões de dólares. Nesse período, um relatório do Departamento de Estado, durante a presidência de Andrew Johnson, já classificava a Gronelândia como uma “aquisição ideal”, devido à sua localização estratégica e riqueza natural.
A ideia não avançou na altura, mas permaneceu latente. Durante a Segunda Guerra Mundial, a ilha voltou a ganhar importância estratégica. Em 1941, com a Dinamarca ocupada pela Alemanha nazi, o embaixador dinamarquês em Washington, Henrik Kauffman, assinou um acordo que permitiu aos Estados Unidos instalar bases militares na Gronelândia, em troca da sua defesa. A presença americana consolidou-se durante a Guerra Fria.
Em 1946, o então presidente Harry Truman ofereceu formalmente 100 milhões de dólares em ouro a Copenhaga pela ilha, proposta recusada de forma firme. Poucos anos depois, com a criação da NATO em 1949, da qual a Dinamarca foi membro fundador, os EUA mantiveram a sua infraestrutura militar e construíram a base de Thule, hoje conhecida como Pituffik, essencial no equilíbrio nuclear com a União Soviética.
Uma ilha-chave no tabuleiro geoestratégico global
Com mais de dois milhões de quilómetros quadrados, cerca de 85% permanentemente cobertos por gelo, a Gronelândia tem uma população entre 56 mil e 60 mil habitantes, maioritariamente inuit, concentrada na faixa costeira. A baixa densidade demográfica contrasta com o seu enorme valor estratégico e económico.
Sob a superfície encontram-se vastos recursos ainda por explorar, incluindo ferro, alumínio, níquel, cobre, urânio, tungsténio e platina. Desde 2021, o Governo da Gronelândia proibiu a extração de urânio. Estima-se também a existência de cerca de 18 mil milhões de barris de petróleo por descobrir, além de importantes reservas de gás natural.
Um dos principais fatores por detrás da atenção dos Estados Unidos são as terras raras, minerais essenciais para a indústria tecnológica e militar, utilizados em telemóveis, sistemas de armamento e bombas. A Gronelândia é considerada um dos maiores depósitos mundiais destes recursos.
Segundo um estudo do Serviço Geológico da Dinamarca e da Gronelândia (GEUS), cerca de 25% das terras raras existentes no mundo localizam-se neste território. Atualmente, a China é um dos maiores fornecedores globais destes minerais, sendo também o principal rival geopolítico dos Estados Unidos no século XXI.
Uma posição estratégica vital para a defesa dos EUA
Do ponto de vista geográfico, a Gronelândia ocupa a rota mais curta entre a América do Norte e a Europa, desempenhando um papel crucial na vigilância e defesa antimíssil dos Estados Unidos. Na ilha localiza-se a base espacial de Pituffik, o posto militar mais setentrional do Exército norte-americano, fundamental para o sistema global de radar.
A partir deste enclave, os EUA podem detectar e neutralizar eventuais mísseis provenientes da Rússia, da China ou da Coreia do Norte, além de permitir uma projecção militar mais rápida para a Europa ou a Ásia, se necessário.
Um estudo do Instituto Espanhol de Estudos Estratégicos (IEEE) destaca que a Gronelândia integra o chamado GIUK Gap, uma região que liga a Gronelândia, a Islândia e o Reino Unido, tradicionalmente disputada pela Rússia ou pela antiga União Soviética. Segundo o relatório, trata-se de uma zona de “importância vital” tanto para a NATO como para Moscovo. O documento conclui que, com a aceleração das alterações climáticas, “as ações de todas estas grandes potências intensificar-se-ão”.
China e Rússia também disputam o Ártico
Os principais rivais estratégicos dos Estados Unidos também têm interesses crescentes no Árctico. A China tem investido fortemente na região, adquirindo e encomendando rompe-gelos e promovendo a chamada “rota da seda polar”, que visa criar novas vias comerciais marítimas à medida que o gelo derrete.
Pequim duplicou os seus investimentos na Gronelândia na última década e tentou financiar infraestruturas como aeroportos, estradas e sistemas de abastecimento de água, em troca de acesso a matérias-primas. Em 2018, a Administração norte-americana conseguiu bloquear o financiamento chinês de três aeroportos na ilha.
A Rússia, por seu lado, planeia investimentos de grande escala para desenvolver cidades na costa siberiana, reforçando a presença no Árctico. Uma vez que grande parte da região não pertence formalmente a nenhum país, os analistas admitem a possibilidade de futuros confrontos entre superpotências.
O estatuto político da Gronelândia e os limites da ambição de Trump
A Gronelândia é uma região autónoma do Reino da Dinamarca desde 1979 e possui, desde 2009, o direito legal de declarar a independência através de referendo. Ainda assim, o Governo local insiste que qualquer decisão deve partir exclusivamente da vontade do povo gronelandês. Múte Egede tem reiterado que a ilha “não está à venda” e apelado à calma.
Internamente, a política da Gronelândia oscila entre o desejo de maior autonomia e a dependência económica de Copenhaga, que assegura uma parte significativa do orçamento público através de subsídios anuais. Os gronelandeses nunca votaram a independência, e especialistas consideram improvável que o façam se isso implicar uma redução do nível de vida ou a substituição por um “novo amo colonial”, como afirmou o investigador Ulrik Pram Gad.
A proposta de Trump levanta obstáculos jurídicos e políticos significativos. O direito internacional não prevê a compra de territórios entre Estados soberanos, e qualquer processo exigiria negociações e aprovações nos Estados Unidos, na Dinamarca, na Gronelândia e possivelmente na União Europeia.
Além disso, a avaliação económica da ilha é complexa. O PIB anual da Gronelândia ultrapassa os 3.200 milhões de dólares, valor que teria de ser combinado com o seu potencial mineiro, energético e estratégico, tornando qualquer estimativa simples inviável.
Apesar disso, Trump e o seu círculo mais próximo têm defendido investimentos em infraestruturas e desenvolvimento económico como contrapartida pelo acesso aos recursos naturais, sugerindo ainda apoiar uma eventual independência da Gronelândia como passo intermédio para uma futura integração ou associação aos Estados Unidos — um caminho que os especialistas classificam como longo, incerto e politicamente explosivo.














