Custos da guerra no Irão já ultrapassam 100 mil milhões de dólares e aumentam pressão sobre Trump (que os tenta esconder)

Os custos da guerra entre os Estados Unidos e o Irão poderão ser muito superiores aos valores oficialmente reconhecidos por Washington, enquanto cresce a contestação interna à estratégia da administração de Donald Trump.

Pedro Zagacho Gonçalves

Os custos da guerra entre os Estados Unidos e o Irão poderão ser muito superiores aos valores oficialmente reconhecidos por Washington, enquanto cresce a contestação interna à estratégia da administração de Donald Trump. Informações divulgadas por vários meios de comunicação norte-americanos indicam que o Pentágono terá subestimado tanto o impacto financeiro do conflito como o número de militares norte-americanos afetados, numa altura em que a oposição popular à guerra já ultrapassa, em velocidade e intensidade, a registada durante a Guerra do Vietname.

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A operação militar, apresentada inicialmente pela Casa Branca como uma intervenção limitada e cirúrgica, transformou-se, segundo várias estimativas internas, num conflito prolongado e extremamente dispendioso. Quando a operação “Fúria Épica” arrancou, no final de fevereiro, responsáveis do Pentágono informaram membros do Congresso, numa sessão à porta fechada, de que apenas os primeiros seis dias de combate já tinham custado mais de 11,3 mil milhões de dólares.

Nas semanas seguintes, as estimativas oficiais foram aumentando gradualmente. Em abril, Jules Hurst III, responsável interino pelas finanças do Departamento da Defesa, afirmou perante o Comité dos Serviços Armados que os custos rondavam os 25 mil milhões de dólares, sobretudo relacionados com munições, manutenção e substituição de equipamento militar. No início de maio, o valor aproximava-se já dos 29 mil milhões e, a 30 de junho, o diretor do Gabinete de Gestão e Orçamento, Russell Vought, declarou ao Congresso que os gastos ascendiam a cerca de 30 mil milhões de dólares.

Estimativas internas apontam para custos superiores a 100 mil milhões
Contudo, segundo uma investigação divulgada pela NBC e baseada em fontes da administração norte-americana com conhecimento das estimativas internas, a realidade financeira será bastante diferente.

Os cálculos internos do Pentágono situam o custo real da guerra entre 80 mil milhões e 100 mil milhões de dólares, quando são contabilizadas despesas como a reconstrução das bases atingidas pelos ataques iranianos, a substituição de aeronaves destruídas e a reposição integral do arsenal consumido durante meses de operações militares.

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Esta diferença representa, segundo a análise, a distância entre aquilo que foi apresentado ao público como uma intervenção limitada e aquilo em que o conflito efetivamente se transformou: uma guerra de desgaste, prolongada e extremamente onerosa.

O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) estimava já, num relatório divulgado em junho, que apenas a utilização de mísseis e restante armamento ofensivo representava cerca de 26 mil milhões de dólares.

Mas é na componente defensiva que as despesas mais aumentam. Um relatório do Serviço de Investigação do Congresso identificou 42 aeronaves danificadas, incluindo quatro caças F-15E Strike Eagle, um F-35A, um A-10 e sete aviões de reabastecimento KC-135.

Só a reconstrução das instalações militares atingidas por mísseis iranianos poderá ultrapassar os 30 mil milhões de dólares.

Paralelamente, a Casa Branca solicitou ao Congresso um financiamento suplementar de 87 mil milhões de dólares, dos quais 21 mil milhões destinam-se à reposição de munições, 17,3 mil milhões a custos operacionais e 12,1 mil milhões a programas classificados.

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Acusações de ocultação de baixas militares
À polémica em torno dos custos junta-se agora outra relacionada com a transparência das operações militares.

O The New York Times revelou que o Pentágono terá ocultado dezenas de militares norte-americanos feridos durante ataques iranianos contra bases militares na Jordânia.

Segundo a investigação, antes do ataque que provocou a morte de dois soldados e o desaparecimento de um terceiro, o Irão já tinha lançado outras três ofensivas contra posições norte-americanas naquele país, ferindo dezenas de militares e danificando vários helicópteros, episódios que nunca foram comunicados oficialmente.

Não é a primeira vez que o Departamento da Defesa é acusado de minimizar o número de baixas.

Nos primeiros dias da guerra, o Pentágono afirmou que menos de uma dúzia de militares tinha ficado ferida. Posteriormente, depois de a Reuters obter dados completos, reconheceu que os feridos ultrapassavam os 140 militares.

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Já no final de março, o próprio Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM) indicava que o primeiro mês de guerra tinha provocado mais de 300 militares feridos e 13 mortos. Desde então, deixou praticamente de divulgar atualizações regulares.

Segundo o The New York Times, o CENTCOM não realiza uma conferência de imprensa relevante sobre o conflito desde o início de maio e deixou igualmente de atualizar o número de alvos iranianos atingidos ou o total acumulado de militares norte-americanos feridos.

Responsáveis militares justificam a falta de informação com razões de segurança operacional, argumentando que a divulgação de detalhes poderia ajudar o Irão a melhorar a eficácia dos seus ataques com mísseis e drones.

No entanto, diversos analistas consideram igualmente plausível que exista uma preocupação política, numa altura em que a guerra decorre em pleno ciclo eleitoral norte-americano.

Países do Golfo também suportam custos elevados
As consequências do conflito não se limitam aos Estados Unidos.

Vários aliados norte-americanos no Golfo sofreram danos materiais e humanos provocados pelos ataques iranianos.

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No Kuwait, uma central de eletricidade e abastecimento de água foi atingida por duas vezes em apenas dois dias. Um ataque ao aeroporto internacional provocou uma vítima mortal e mais de 60 feridos.

No Barém registaram-se danos significativos num edifício residencial.

Já em Doha, no Catar, uma criança ficou ferida por estilhaços provenientes da interceção de um projétil.

Segundo uma análise publicada pela revista Foreign Policy, muitos destes países procuraram durante meses evitar precisamente este cenário, tendo desenvolvido esforços diplomáticos para impedir uma escalada militar.

Fontes governamentais de dois países do Golfo revelaram anteriormente à Associated Press o descontentamento crescente com Washington.

Entre as críticas apontadas encontra-se a ausência de aviso prévio relativamente ao ataque norte-americano de 28 de fevereiro, bem como a alegada falta de proteção das infraestruturas estratégicas dos aliados.

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Alguns responsáveis consideram que os Estados Unidos concentraram a sua capacidade defensiva na proteção de Israel e das próprias forças militares, deixando os parceiros regionais praticamente entregues aos seus próprios sistemas de defesa.

Embora publicamente mantenham um discurso mais diplomático, vários líderes da região têm apelado ao regresso das negociações.

O primeiro-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros do Catar, xeque Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, condenou energicamente os ataques iranianos e defendeu o regresso à via diplomática entre Washington e Teerão.

Também a Jordânia convocou o embaixador iraniano para protestar contra aquilo que classificou como ataques injustificados.

Especialistas acreditam, contudo, que o conflito poderá alterar profundamente o equilíbrio estratégico da região.

Fawaz Gerges, da London School of Economics, considera que a guerra destruiu o entendimento informal que vigorava há décadas, segundo o qual os países do Golfo garantiam energia e investimento enquanto os Estados Unidos asseguravam a sua proteção militar.

Na mesma linha, Abdulaziz Sager, presidente do Gulf Research Center, classificou como “horrendo” o impacto económico provocado pelo conflito.

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Rejeição popular cresce mais depressa do que durante a Guerra do Vietname
É, porém, na opinião pública norte-americana que Donald Trump enfrenta atualmente um dos maiores desafios políticos.

Segundo a média ponderada das sondagens compiladas pelo Silver Bulletin, do estatístico Nate Silver, apenas 33% dos norte-americanos apoiam atualmente a guerra, enquanto 59% manifestam oposição, o que representa um saldo negativo de 26 pontos percentuais.

Outros estudos revelam números ainda mais desfavoráveis.

Uma sondagem da Ipsos e do The Washington Post, realizada em meados de julho, concluiu que 69% dos inquiridos rejeitam o conflito, enquanto apenas 29% o aprovam.

O mesmo estudo atribui a Donald Trump apenas 37% de aprovação global e menos de 40% especificamente na gestão da guerra.

Outra sondagem, conduzida pela Ipsos em parceria com a Reuters, mostra que 79% dos norte-americanos acreditam que o envolvimento militar será prolongado, bastante acima dos 65% registados em maio.

Comparações históricas aumentam dificuldades políticas de Trump
As comparações históricas são particularmente desfavoráveis para a atual administração.

Segundo os dados compilados pelo Washington Post, apenas 28% dos norte-americanos consideram que esta guerra vale a pena, um nível de apoio inferior ao registado nas guerras do Afeganistão e do Iraque.

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Mas é a comparação com o Vietname que mais chama a atenção dos analistas.

Quando o instituto Gallup perguntou, pela primeira vez, em agosto de 1965, se o envio de tropas para o Vietname tinha sido um erro, apenas 24% dos norte-americanos responderam afirmativamente, enquanto 60% discordavam dessa ideia.

Só em outubro de 1967 é que os críticos ultrapassaram, pela primeira vez, os defensores da guerra, e apenas em agosto de 1968 uma maioria absoluta considerava claramente que o conflito tinha sido um erro.

No caso da guerra com o Irão, esse nível de rejeição foi alcançado em menos de cinco meses.

Pressão aumenta também dentro da base de Trump
A contestação não parte apenas dos eleitores democratas.

Segundo a análise, uma parte significativa da própria base eleitoral de Donald Trump demonstra crescente desilusão.

O movimento MAGA, liderado ideologicamente por Steve Bannon, apoiou Trump e o vice-presidente JD Vance com a expectativa de pôr fim às chamadas “guerras eternas”, reduzir o envolvimento militar dos Estados Unidos em conflitos externos e controlar a despesa pública.

Embora a criação do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), inicialmente liderado por Elon Musk, tenha sido apresentada como um passo nesse sentido, o prolongamento dos conflitos envolvendo Israel, Venezuela e agora o Irão tem alimentado críticas dentro do próprio eleitorado republicano.

Segundo esta leitura, Trump prometeu uma nova era de estabilidade e paz internacional, mas encontra-se atualmente envolvido em múltiplas frentes externas, num contexto em que o aumento dos custos militares, as dúvidas sobre a transparência da informação divulgada pelo Pentágono e a crescente rejeição popular poderão representar um dos maiores desafios políticos da sua presidência.

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