Cumpriu 14 meses de prisão por acidente mortal. Agora diz que a culpa foi dos travões do Ferrari

Robert Ebert, antigo responsável pela área de ações do Deutsche Bank para a região Ásia-Pacífico, foi condenado por condução perigosa após o atropelamento mortal de Ku Lap-chi

Executive Digest

Um antigo alto quadro do Deutsche Bank, que cumpriu 14 meses de prisão em Hong Kong depois de atropelar mortalmente um segurança ao volante de um Ferrari 458 Spider, quer agora processar a marca italiana, alegando que o acidente terá sido causado por uma falha nos travões.

Segundo o ‘The Independent’, Robert Ebert, antigo responsável pela área de ações do Deutsche Bank para a região Ásia-Pacífico, foi condenado por condução perigosa após o atropelamento mortal de Ku Lap-chi, ocorrido em junho de 2015, quando seguia de carro para o trabalho.

Ebert sempre afirmou que se tratou de um acidente e que os travões do Ferrari 458 Spider falharam. No julgamento em Hong Kong, porém, um funcionário da Ferrari prestou depoimento como perito e defendeu que a falha descrita era “impossível”, tendo em conta a sofisticação do sistema de travagem do veículo.

O antigo banqueiro, nascido em Londres, foi condenado a 22 meses de prisão, dos quais cumpriu 14, antes de ser deportado para o Reino Unido. Agora, pretende avançar com uma ação de milhões de libras contra a Ferrari, sustentando que milhares de veículos da marca, incluindo o seu, foram posteriormente alvo de recolhas por problemas relacionados com os travões.

Esta terça-feira, Robert Ebert iniciou no Supremo Tribunal de Londres um pedido prévio à ação judicial para obrigar a Ferrari a entregar documentos que, segundo a sua defesa, poderão ajudar a esclarecer que conhecimento tinha a empresa sobre estes problemas na altura do julgamento em Hong Kong.

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Andrew Butler KC, advogado de Ebert, afirmou em tribunal que o antigo banqueiro perdeu o controlo do Ferrari 458 Spider a 9 de junho de 2015, tendo o veículo saído da estrada e embatido no segurança Ku Lap-chi, que morreu na sequência do acidente.

A defesa sublinhou que Ebert manteve desde o início a versão de que os travões tinham falhado, mas acabou condenado depois de a Ferrari enviar um representante ao julgamento, Martino Casolari, cujo depoimento sustentou que o cenário descrito pelo condutor era cientificamente impossível.

Segundo o advogado, esse depoimento foi um fator relevante na condenação. A defesa argumenta agora que a situação ganhou novo significado depois de a Ferrari ter emitido, anos mais tarde, recolhas de determinados modelos por defeitos associados ao sistema de travagem.

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Em outubro de 2021, a marca italiana chamou à oficina vários modelos nos Estados Unidos, incluindo veículos da mesma classe do Ferrari 458. Em 2022, foi anunciada uma nova recolha na China, abrangendo mais de dois mil automóveis importados entre março de 2010 e março de 2019, também por uma falha relacionada com os travões.

De acordo com a defesa, o anúncio chinês fazia referência a uma tampa do reservatório do fluido dos travões que poderia não ventilar corretamente. O carro de Ebert tinha sido produzido em fevereiro de 2012, o que, segundo os seus advogados, o colocaria dentro do universo de veículos abrangidos por essa recolha.

O antigo banqueiro sustenta que quer conhecer exatamente que informação tinha a Ferrari sobre estes eventuais problemas na altura do seu julgamento, com vista a apresentar uma ação contra a fabricante italiana. A defesa afirma que a condenação teve consequências devastadoras na sua vida pessoal e profissional.

Na altura do acidente, Ebert ganhava entre 2,5 e 5 milhões de dólares por ano no Deutsche Bank e, segundo o seu advogado, estava em progressão para funções que poderiam render entre 6 e 7 milhões de dólares anuais, com potencial para chegar a valores entre 8 e 11 milhões. Após a condenação, perdeu o cargo e o emprego.

Atualmente, segundo a defesa, vive no Reino Unido e dirige uma empresa própria de serviços financeiros, com rendimentos anuais de cerca de 80 mil libras. O advogado acrescentou que a condenação continua a limitar a sua vida, uma vez que lhe terá sido recusada a entrada em vários países, incluindo Hong Kong, Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia.

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A Ferrari contesta o pedido. Tim Otty KC, advogado da marca italiana, afirmou em tribunal que Ebert está a tentar contornar os procedimentos legais adequados e que qualquer pedido de acesso a documentos deveria ser feito em Hong Kong ou em Itália, não em Londres.

A defesa da Ferrari rejeita ainda que as recolhas posteriores tenham qualquer relação com o acidente ou com a condenação do antigo banqueiro. A empresa nega que o defeito associado às recolhas tenha causado o acidente e contesta a alegação de que o depoimento prestado no julgamento tenha sido falso, enganador ou negligente.

Para a marca italiana, o pedido apresentado em Londres representa uma tentativa imprópria de obter documentos detidos no estrangeiro fora dos mecanismos legais internacionais adequados. A Ferrari defende que Ebert deveria primeiro intentar uma ação e procurar a divulgação de provas nas jurisdições competentes.

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