Banqueiros, investidores e comerciantes, com a ajuda de um advogado, extraíram mais de mil milhões dos contribuintes do país. A história remete para o caso Cum-Ex e de como esta se tornou uma máquina de fazer dinheiro a uma escala sem precedentes.
Há um ano, um homem que se apresentou como Benjamin Frey apareceu na televisão alemã usando um queixo falso, uma peruca cinza e óculos grossos. Com a voz distorcida artificialmente, o homem contou como ajudou banqueiros, investidores e comerciantes a extrair mais de mil milhões dos contribuintes do país – e como cerca de 50 milhões de euros (56 milhões de dólares) desse dinheiro foram parar aos seus próprios bolsos, reporta a Bloomberg.
Na semana passada, o mesmo homem de 48 anos apareceu como testemunha no primeiro julgamento alemão sobre o Cum-Ex, a polémica estratégia de negociação de activos descrita na televisão. Sem máscara, ele teve de usar o seu verdadeiro nome diante de cinco juízes em Bonn. O homem, um advogado cuja identidade ainda não pode ser revelada, foi a primeira pessoa a cooperar com os promotores nas investigações sobre a Cum-Ex em troca de não ser preso. O seu relato expôs como o Cum-Ex se tornou uma máquina de fazer dinheiro a uma escala sem precedentes.
A prática tornou-se um escândalo na Alemanha, envolvendo dezenas de bancos e figuras conhecidas nas finanças numa rede de investigações criminais por toda a Alemanha. O nome em latim significa “Com-Sem”. A Cum-Ex ajudava investidores a explorar fendas nos pagamentos de dividendos, permitindo que várias pessoas reivindicassem a mesma devolução de imposto, segundo as autoridades. Segundo parlamentares, as actividades acabaram por custar ao Governo 10 mil milhões de euros em receitas perdidas.
No julgamento em Bonn, Martin Shields e Nicholas Diable, que actuavam como banqueiros em Londres, são acusados de ajudar a organizar acordos que provocaram perdas superiores a 400 milhões de euros. Nenhum deles contestou os factos reunidos pelos promotores e o tribunal decidirá se cometeram algum crime. O homem foi convocado a testemunhar sobre o seu papel na Cum-Ex. Para facilitar a leitura desta reportagem, a Bloomberg usou o nome inventado, Benjamin Frey. Frey voltará na terça-feira para responder a perguntas do tribunal em Bonn. Durante três dias actuando como testemunha, Frey explica como ele e outro advogado conseguiram transformar a Cum-Ex, que em 2005 era usada para transacções entre bancos, numa máquina de ganhos para investidores ricos e seus assessores.
Ele descreveu como o seu parceiro era supostamente capaz de influenciar parlamentares a respeito de novas regras e como ajudavam clientes a “ajustar” transacções para escapar às autoridades que tentavam combater o reembolso duplo de dividendos. “Muitas vezes, fabricámos a nossa própria versão da verdade”, admitiu Frey.







