O Governo cubano respondeu de forma dura às novas pressões da administração norte-americana, recorrendo à retórica histórica da revolução castrista e garantindo que está disposto a defender o país “até à última gota de sangue” antes de ceder às exigências do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A reação surge após Washington anunciar que Cuba deixará de receber dinheiro e petróleo provenientes da Venezuela, num momento particularmente crítico para a economia da ilha.
A ofensiva diplomática e económica de Trump contra Havana surge na sequência da intervenção norte-americana na Venezuela, da captura de Nicolás Maduro e de advertências dirigidas a outros países, num contexto de crescente tensão geopolítica.
No passado fim de semana, depois de já ter exercido pressão sobre países como a Colômbia e o México, Donald Trump anunciou que Cuba deixará de beneficiar do fluxo de recursos financeiros e energéticos provenientes da Venezuela. A administração norte-americana acusa Havana de fornecer “serviços de segurança” ao regime chavista em troca de petróleo e apoio económico.
Perante este anúncio, o Executivo cubano reagiu evocando a épica revolucionária associada a Fidel Castro. O presidente Miguel Díaz-Canel afirmou que Cuba está disposta a “verter até à última gota de sangue” para “defender a Pátria”, recusando qualquer cedência às exigências de Washington.
Apesar do tom que recorda os discursos históricos do antigo líder revolucionário, as declarações partiram do atual chefe de Estado cubano, que tem insistido em preservar os princípios da revolução castrista, apesar do contexto económico e político profundamente distinto.
Trump reforça pressão e apela a um acordo “antes que seja demasiado tarde”
Além das ameaças económicas, Donald Trump instou publicamente Cuba a negociar um acordo com os Estados Unidos “antes que seja demasiado tarde”, aumentando a pressão sobre o Governo de Havana numa fase marcada por graves dificuldades económicas e energéticas na ilha.
A resposta cubana foi imediata. Miguel Díaz-Canel e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Bruno Rodríguez, rejeitaram de forma veemente as acusações e as ameaças norte-americanas, sublinhando a soberania do país e negando que a relação com a Venezuela assente nos “intercâmbios” descritos por Washington.
Havana classificou as declarações do presidente dos EUA como chantagem política e coerção, defendendo que Cuba, enquanto Estado soberano, tem o direito de manter relações comerciais com os parceiros que entender, sem se submeter a ultimatos.
Havana fala em chantagem e defende relações comerciais soberanas
Numa publicação na rede social X, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Bruno Rodríguez, afirmou que “Cuba tem absoluto direito a importar combustível daqueles mercados dispostos a exportá-lo”, defendendo o direito de desenvolver relações comerciais “sem a interferência ou subordinação às medidas coercivas unilaterais dos Estados Unidos”.
Rodríguez rejeitou ainda categoricamente a acusação de que Cuba receba compensações financeiras ou materiais por serviços de segurança prestados a outros países, sublinhando que, ao contrário dos EUA, o país não pratica mercenarismo, chantagem ou coerção militar contra outros Estados.
“O direito e a justiça estão do lado de Cuba”, afirmou o chefe da diplomacia cubana, acusando os Estados Unidos de se comportarem como “um hegemón criminoso e descontrolado” que ameaça a paz e a segurança não apenas em Cuba e no hemisfério, mas a nível global.
Referências à operação na Venezuela e críticas à captura de Maduro
Na sexta-feira anterior, Bruno Rodríguez reiterou que Cuba não irá “vender o país nem ceder à ameaça e à chantagem” dos Estados Unidos, após participar em Caracas num ato de homenagem aos agentes mortos durante a operação norte-americana destinada à captura de Nicolás Maduro, uma ação na qual morreram 32 agentes cubanos.
Durante o fim de semana, Havana voltou a exigir aos Estados Unidos o fim do que classificou como o “brutal sequestro” de Nicolás Maduro e da sua esposa, Cilia Flores, considerando a detenção “ilegal” e uma “farsa judicial e mediática”.
“São oito dias do brutal sequestro do presidente legítimo da Venezuela, Nicolás Maduro Moros, e da sua esposa, Cilia Flores”, escreveu Bruno Rodríguez nas redes sociais.
Crise económica e energética agrava impacto das sanções
Esta escalada diplomática ocorre num dos momentos mais delicados para Cuba em décadas. O país enfrenta uma grave crise económica e energética, marcada por escassez de combustível, cortes frequentes de eletricidade e dificuldades crescentes em setores essenciais, uma situação que poderá agravar-se significativamente sem o apoio energético proveniente da Venezuela.
Durante anos, Caracas foi o principal fornecedor de energia de Cuba, no âmbito de um acordo bilateral através do qual a Venezuela enviava crude em troca de serviços profissionais cubanos, sobretudo nas áreas da saúde e da educação, mas também em sectores ligados à segurança e à defesa.
Redução do petróleo venezuelano deixa Cuba em situação crítica
Em tempos, a Venezuela chegou a fornecer até 100 mil barris de petróleo por dia a Cuba. No entanto, essa quantidade foi sendo progressivamente reduzida, atingindo uma média de cerca de 27 mil barris diários em 2025, devido à queda da produção venezuelana e ao reforço das sanções impostas pelos Estados Unidos.
Cuba necessita de aproximadamente 110 mil barris de petróleo por dia para satisfazer as suas necessidades energéticas básicas, dos quais cerca de 40 mil são assegurados pela produção interna. Atualmente, quase metade das necessidades de crude do país é coberta por importações, sobretudo da Venezuela e do México, e em menor escala da Rússia, segundo estudos independentes.
Especialistas em geopolítica admitem não saber como evoluirá a relação entre o chavismo e o castrismo após a ausência de Nicolás Maduro, num contexto em que a pressão internacional e as dificuldades económicas se acumulam para ambos os regimes.






