Crise no Mar Vermelho está a atingir comércio de produtos frescos na Europa, alertam especialistas

Diversas companhias de navegação suspenderam as operações através do estreito de Bab el-Mandeb e redirecionaram a rota para o Cabo da Boa Esperança, o que acrescentou atrasos de até três semanas no transporte de e para a Europa – além de um aumento de cinco vezes nos custos dos contentores, os produtos frescos têm agora maior probabilidade de apodrecer no caminho

Francisco Laranjeira
Janeiro 29, 2024
12:21

Quando começaram a ‘chover’ mísseis dos rebeldes Houthis sobre navios porta-contentores no Mar Vermelho, os líderes europeus temeram um retrocesso no fornecimento de energia no bloco europeu. No entanto, três meses volvidos, são os alimentos que estão sob ataque, com os exportadores e transportadores a alertar para os crescentes danos que a instabilidade militar na região tem causado ao comércio de frutas e vegetais.

Diversas companhias de navegação suspenderam as operações através do estreito de Bab el-Mandeb e redirecionaram a rota para o Cabo da Boa Esperança, o que acrescentou atrasos de até três semanas no transporte de e para a Europa – além de um aumento de cinco vezes nos custos dos contentores, os produtos frescos têm agora maior probabilidade de apodrecer no caminho.

“Existe um risco significativo”, referiu Marco Forgione, diretor-geral do Instituto de Exportação e Comércio Internacional, ao jornal ‘POLITICO’, citando uma série de categorias de produtos além de frutas e vegetais – da carne aos cereais, passando pelo chá e café, se a perturbação continuar, “destruirá a economia alimentar em geral”, indicou o responsável, salientando que o processamento é outro elo fraco, com as entregas desordenadas de óleo de palma a atrasar a preparação de alimentos de maior valor.

Os exportadores são particularmente afetados nos países do sul da Europa, como Itália, Grécia e Chipre. Dado que as suas cargas têm agora de sair do Mediterrâneo para oeste e percorrer o longo caminho até ao Médio Oriente e à Ásia, muitos estão a lutar para levar produtos perecíveis para os mercados estrangeiros a tempo, colocando em perigo bens no valor de milhares de milhões de euros.

“O prolongamento dos prazos pode criar problemas na preservação dos produtos frescos, com o risco de perder fatias importantes do mercado”, alertou a Coldiretti, o maior lobby agrícola de Itália.

Em muitos casos, “o prazo de validade dos produtos frescos não permite prolongar a viagem em 15 e 20 dias”, garantiu Cristian Maretti, presidente da Legacoop Agroalimentare, que representa as cooperativas agrícolas e alimentares italianas, em declarações à agência ‘Ansa’.

Por enquanto, os frutos mais sensíveis foram poupados. Kiwis, uvas e figos foram colhidos no outono europeu, enquanto as cerejas foram despachadas no verão.

No entanto, outros produtos já foram derrotados. As exportações italianas de maçãs para a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, avaliadas em cerca de 400 milhões de euros por ano, foram interrompidas durante o seu pico de frescura, o mesm acontecendo com as peras, o repolho e a couve-flor. “Num setor dominado pela sazonalidade da produção, a dimensão dos danos dependerá da duração do bloqueio”, observou Maretti.

“Por enquanto, os efeitos da crise não são um alerta vermelho, mas precisamos avançar com antecedência e não esperar pelo curso dos acontecimentos”, frisou Giovanna Ferrara, presidente da associação empresarial italiana Unimpresa.

Questionados sobre se os consumidores enfrentarão prateleiras vazias, os supermercados europeus minimizaram o impacto dos choques. “O fornecimento de mercadorias às lojas Lidl está geralmente garantido”, afirmou o grupo Schwarz, líder retalhista alimentar alemão, em comunicado ao ‘POLITICO’. Já a francesa Danone negou “qualquer impacto significativo no curto prazo” da interrupção do transporte marítimo.

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