Crise Israel-Irão: Quão vital é o Estreito de Ormuz para o mercado global do petróleo (e que riscos estão em jogo)?

ste corredor marítimo, fundamental para o escoamento do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL), é responsável pelo escoamento de uma parte substancial da energia consumida em todo o mundo.

Pedro Gonçalves
Junho 22, 2025
16:30

O agravamento das tensões entre Israel e o Irão está a provocar um aumento da inquietação nos mercados energéticos mundiais, com receios crescentes sobre a segurança do Estreito de Ormuz. Este corredor marítimo, fundamental para o escoamento do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL), é responsável pelo escoamento de uma parte substancial da energia consumida em todo o mundo.

O Estreito de Ormuz, situado entre o Golfo Pérsico e o Mar Arábico, tem apenas 29 milhas náuticas de largura na sua parte mais estreita. Por este canal passa quase um terço do petróleo transportado por via marítima a nível mundial e cerca de um quinto do comércio global de GNL. A Administração de Informação sobre Energia dos Estados Unidos (EIA) descreve o estreito como o “ponto de estrangulamento mais importante do mundo para o petróleo”, sublinhando o seu papel vital na ligação entre o Golfo e os mercados globais.

De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), em 2023 transitaram diariamente pelo Estreito de Ormuz cerca de 20 milhões de barris de petróleo bruto e produtos refinados, o que representa perto de 30% do comércio mundial de petróleo. A maior parte destas exportações — cerca de 70% — destina-se ao continente asiático, com a China, a Índia e o Japão como principais compradores.

O problema é que as alternativas são escassas. A AIE estima que apenas cerca de 4,2 milhões de barris por dia poderiam ser desviados para rotas terrestres, nomeadamente através do oleoduto saudita East-West até ao Mar Vermelho e do oleoduto da Abu Dhabi até Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos. Esta capacidade representa apenas cerca de um quarto do volume habitual que atravessa o estreito.

“A persistência de uma crise no Estreito de Ormuz não só interromperia os carregamentos dos principais produtores do Golfo — como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait, o Iraque e o Qatar — como também tornaria inacessível a maior parte da capacidade mundial de produção de reserva, concentrada na região do Golfo Pérsico”, alertou a AIE num recente relatório.

O risco para o GNL e os mercados regionais
Se no caso do petróleo as alternativas são limitadas, no do GNL são praticamente inexistentes. Todo o GNL exportado pelo Qatar — segundo maior exportador mundial — e pelos Emirados tem obrigatoriamente de passar pelo Estreito de Ormuz. A AIE indica que, nos primeiros dez meses de 2023, cerca de 90 mil milhões de metros cúbicos de GNL atravessaram o estreito, o que corresponde a 20% do comércio global deste combustível. Destes volumes, 80% tinham como destino a Ásia, enquanto 20% seguiam para a Europa, o que significa que uma interrupção agravaria a competição entre as regiões num mercado já apertado.

“A enorme quantidade de petróleo que passa pelo Estreito e a escassez de alternativas significa que mesmo interrupções breves teriam consequências significativas para o mercado global”, refere a AIE.

A escalada dos preços e os cenários possíveis
Embora a hipótese de um encerramento total do Estreito de Ormuz continue a ser considerada pouco provável, os analistas são unânimes em afirmar que o simples risco já basta para provocar instabilidade e volatilidade nos mercados.

Na última semana, os preços do crude subiram 13% face ao aumento da tensão entre Israel e o Irão. Apesar de terem recuado ligeiramente após confirmação de que as infraestruturas energéticas iranianas não foram atingidas por ataques israelitas, o receio de uma escalada mantém-se elevado.

O banco de investimento Goldman Sachs advertiu que um cenário extremo de fecho prolongado do estreito poderia levar o preço do petróleo acima dos 100 dólares por barril. A instituição estima que o Irão produz atualmente cerca de 3,6 milhões de barris diários de petróleo bruto e 0,8 milhões de barris de condensados, com exportações marítimas médias de 2,1 milhões de barris por dia, maioritariamente destinadas à China.

Por seu lado, Warren Patterson, responsável pela estratégia de matérias-primas do ING, considera que o mercado já está a refletir um prémio de risco geopolítico mais elevado. Segundo o especialista, “qualquer perturbação no fluxo de petróleo iraniano seria suficiente para anular o excedente esperado para o quarto trimestre de 2025 e poderia empurrar os preços do Brent para cerca de 80 dólares por barril”. Contudo, Patterson adverte que um cenário mais grave, como uma interrupção do tráfego marítimo no Estreito, teria impactos muito superiores: “Quase um terço do petróleo marítimo mundial passa por este ponto. Uma perturbação significativa poderia fazer os preços disparar para os 120 dólares por barril, sobretudo porque a maior parte da capacidade excedentária da OPEP se encontra no Golfo Pérsico e ficaria inacessível.”

O analista sublinha ainda as implicações para o mercado europeu do gás: “Esta escalada tem também ramificações para o mercado europeu do gás”, afirmou.

Perspetivas para os próximos tempos
O Estreito de Ormuz é mais do que um simples canal de navegação: é uma verdadeira linha vital para o abastecimento energético global. Sem alternativas viáveis para o tráfego de petróleo e GNL, a sua vulnerabilidade deixa os mercados nervosos sempre que se acentuam as tensões na região. Apesar de um encerramento total do estreito parecer improvável, o simples facto de estar em cima da mesa é suficiente para manter os preços elevados e os mercados em alerta.

À medida que os confrontos entre Israel e o Irão continuam, o risco de erros de cálculo aumenta. Num cenário em que a diplomacia é frágil e os interesses em jogo são elevados, basta um passo em falso para que um conflito regional se transforme numa crise energética de escala global.

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