As crescentes tensões na fronteira entre a Rússia e a Ucrânia fazem aumentar os receios de que a crise de abastecimento de gás na Europa possa tornar-se muito mais séria – os preços do mercado do gás já ultrapassaram recordes e ameaçam sobrecarregar as famílias europeias com o aumento do custo de vida.
A Rússia é o principal fornecedor de gás da Europa, do qual um terço flui através dos gasodutos da Ucrânia para países de todo o continente. Os fluxos de gás russos foram um quarto mais baixos do que o normal no ano passado, mas os líderes europeus agora temem que uma invasão russa da Ucrânia possa significar uma catástrofe energética se as exportações de gás forem cortadas.
Os responsáveis da Casa Branca já garantiram, esta semana, que a Administração Biden está a preparar-se para finalizar um acordo para garantir “que a Europa seja capaz de sobreviver ao inverno e à primavera” – os principais países produtores de gás natural liquefeito (GNL) comecem a enviar por navios-tanque para a Europa, embora não seja um plano isento de desafios. As autoridades americanas descreveram a procura por carregamentos de gás como “global”.
Apesar disso, as negociações devem concentrar-se no Qatar, um dos maiores produtores mundiais de gás e segundo maior exportador de GNL, atrás da Austrália. O Qatar é um forte aliado ocidental no Médio Oriente e fornecec GNL ao Reino Unido e outros países europeus há anos, através de navios-tanque com conteúdos super-refrigerados. A Líbia, pela sua forte produção de gás e proximidade com o continente, também pode ajudar.
Os Estados Unidos podem igualmente desempenhar um papel direto no reforço do abastecimento de gás da Europa. Um número recorde de cargas de GNL deixou os EUA com destino aos portos europeus no último mês e os americanos têm um forte incentivo de longo prazo para incentivar a Europa a desistir da sua dependência da Rússia – e do projeto do gasoduto Nord Stream 2 – em favor das suas próprias reservas de gás de xisto.
Qual é o volume de gás que a Europa precisa? Vai depender até que ponto escalem as tensões entre a Rússia e a Ucrânia. Os russos enviam cerca de 230 milhões de metros cúbicos de gás para a Europa todos dos dias, um terço dos quais chega via Ucrânia. Os especialistas de mercado estão divididos sobre as ações da Rússia: se interrompe todas as exportações de gás para a Europa ou só aquelas que dependem do gasoduto da Ucrânia.
A crise global de fornecimento de gás que surgiu com a recuperação económica após a Covid-19 significa que há pouco gás de reposição, explicou Xin Nan, analista da Rystad Energy. Os Estados Unidos frisaram que as suas negociações “são realmente amplas, com muitas empresas e países em redor do mundo”, de tal forma que não precisa “pedir a nenhuma empresa ou país para aumentar as exportações em volumes significativos mas em volumes menores de um infinidade de fontes”.
Existem muitos exemplos de medidas de abastecimento de emergência no mercado global de petróleo, mas nunca para o gás. Durante a guerra civil da Líbia, a Arábia Saudita concordou em aumentar as suas exportações de petróleo para o mercado global para compensar um déficit no petróleo líbio, que elevou os preços do petróleo para 120 dólares por barril. Mais recentemente, a Arábia Saudita negociou um acordo com membros do cartel de petróleo da OPEP e os seus aliados para fazer um corte sem precedentes na produção de petróleo durante a pandemia da Covid-19 para evitar que os preços do petróleo caíssem. O mercado de gás carece da mesma cooperação global, o que tornou mais difícil responder à crise global de abastecimento.
“Mohammed bin Salman [o príncipe herdeiro saudita] vê-se como o banco central do petróleo. Não há equivalente no mercado de gás”, apontam especialistas, sobre as dificuldades de uma resposta coordenada ao fornecimento de gás na Europa.



