Crise dos fertilizantes pode fazer disparar (ainda mais) os preços dos alimentos na Europa

Ligação entre a guerra no Golfo e o preço de uma baguete faz-se em três passos lentos: o gás encarece, os fertilizantes sobem, as colheitas ficam mais caras e, meses depois, o custo chega aos alimentos

Francisco Laranjeira

Mais de dois meses depois do início da guerra no Irão, o impacto do conflito ainda não chegou de forma visível à maioria dos supermercados europeus. O Carrefour garante que os preços não mexeram e a cadeia alemã Aldi diz o mesmo, escreve o ‘POLITICO’.

Mas essa estabilidade poderá não durar.

A ligação entre a guerra no Golfo e o preço de uma baguete faz-se em três passos lentos: o gás encarece, os fertilizantes sobem, as colheitas ficam mais caras e, meses depois, o custo chega aos alimentos.

“Grande parte da comida que está atualmente nas prateleiras dos supermercados foi produzida com fatores de produção comprados ou contratados antes de a crise se desenvolver por completo”, explica David Laborde, responsável pela divisão de economia agroalimentar da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura.

“A estabilidade atual reflete sobretudo o calendário, não imunidade”, acrescenta.

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Fertilizantes já estão a subir

A Europa produz fertilizantes azotados, mas depende de gás importado para os fabricar. Quando a perturbação no Golfo faz subir o preço do gás, os fertilizantes produzidos na Europa também ficam mais caros.

Desde que a retaliação iraniana aos ataques dos Estados Unidos e de Israel levou ao encerramento do Estreito de Ormuz, os preços do gás subiram 59%. Alguns fertilizantes aumentaram até 50%.

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Na Alemanha, a ureia, o fertilizante mais transacionado, custa agora cerca de 550 euros por tonelada, contra cerca de 370 euros antes da guerra.

O primeiro impacto sentido pelos consumidores deverá chegar através dos combustíveis, no final do verão. O efeito dos fertilizantes será mais lento, mas poderá ser mais persistente.

Primavera protegida, outono em risco

Para a campanha de primavera, muitos agricultores europeus escaparam ao pior. Tinham comprado fertilizante antes da guerra e a Comissão Europeia considera que as necessidades desta estação estão “em larga medida asseguradas”.

O problema está nas próximas plantações.

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Os agricultores estão agora a fazer encomendas para o outono e as contas tornaram-se mais difíceis. O trigo continua a ser vendido ao mesmo preço de antes da guerra, mas os custos dos fertilizantes subiram.

Alguns produtores estão a reduzir o uso de azoto. Outros estão a mudar para culturas que exigem menos fertilizante. Em ambos os casos, o resultado poderá ser uma colheita menor em 2027, altura em que os consumidores poderão sentir de forma mais clara os efeitos da guerra.

Nem todos os países tiveram a mesma margem de proteção.

A Irlanda quase não tem indústria nacional de fertilizantes e 90% das suas terras agrícolas são pastagens que precisam de azoto ao longo de toda a estação. Muitos agricultores irlandeses começam a comprar em fevereiro e continuam até setembro, o que significa que já estão a fechar encomendas a preços de guerra.

Na Suécia, a federação agrícola nacional calcula que o conflito já custou 160 milhões de euros aos agricultores, o equivalente a 12% dos lucros do setor.

Quem tem fertilizante em armazém consegue manter os planos. Quem não tem, deverá usar menos, colher menos e transferir parte dos custos para os consumidores.

Bruxelas tenta responder, mas sem soluções rápidas

A Comissão Europeia já avançou com medidas para aliviar a pressão energética e flexibilizar regras de auxílios de Estado para apoiar agricultores.

Mas os fertilizantes são um problema mais difícil.

A dependência europeia do gás importado para produzir fertilizantes azotados foi-se acumulando ao longo de décadas. O plano de ação para os fertilizantes, que o comissário europeu da Agricultura, Christophe Hansen, deverá apresentar a 19 de maio, já estava em preparação antes da guerra.

O plano assenta em quatro pilares: reduzir a dependência das importações, reforçar a produção interna, promover alternativas de baixo carbono e ajudar os agricultores a usar menos fertilizante.

Nenhuma destas soluções, porém, responde ao calendário imediato das decisões de plantação para 2027.

Construir uma nova fábrica de fertilizantes demora entre três e quatro anos. Além disso, a produção europeia já está 19% abaixo dos níveis de 2019.

Imposto de carbono divide a União Europeia

Há ainda outro fator de pressão: o imposto europeu de carbono sobre importações de fertilizantes, conhecido como CBAM.

A medida entrou em vigor a 1 de janeiro e aplica uma sobretaxa a produtos importados de países com regras climáticas menos exigentes.

Num momento de subida dos preços provocada pela guerra, o CBAM torna os fertilizantes ainda mais difíceis de suportar para muitos agricultores.

Itália e França defendem a suspensão da medida. Polónia e Alemanha, que têm algumas das maiores fábricas de fertilizantes azotados da União Europeia, querem mantê-la.

A Comissão parece dividida. Segundo duas fontes citadas pelo ‘POLITICO’, versões anteriores do plano de 19 de maio incluíam algum alívio relacionado com o CBAM, mas a versão mais recente deixou cair essa possibilidade.

“Quando a crise no Médio Oriente acabar, o custo do CBAM vai continuar”, alerta Jean-Baptiste Boucher, diretor de comunicação da Copa-Cogeca, a principal organização agrícola europeia.

Fora da Europa, a pressão já é maior

Nos Estados Unidos, os agricultores compram fertilizantes mais perto da época de plantação e tiveram menos tempo para armazenar produto antes da escalada.

Segundo a American Farm Bureau Federation, cerca de 70% dizem não conseguir pagar todo o fertilizante de que precisam este ano.

O Departamento de Agricultura americano prevê a menor colheita de trigo desde 1919.

A pressão é ainda mais grave em países altamente dependentes de importações. O Brasil enfrenta uma escassez de fosfatos que pode chegar a três milhões de toneladas antes da plantação de soja em setembro.

A Etiópia, que recebe 90% dos fertilizantes azotados através do Djibouti a partir do Golfo, praticamente não tem alternativa.

A isto junta-se o risco climático. As previsões apontam para uma probabilidade superior a 90% de um forte El Niño, que poderá trazer fenómenos extremos a regiões já vulneráveis.

O Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas alertou que mais 45 milhões de pessoas poderão cair em insegurança alimentar aguda se a guerra continuar para lá de meados do ano.

Uma crise lenta, mas previsível

“Não é como o choque da Ucrânia”, afirma Alvaro Lario, presidente do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola, agência das Nações Unidas criada depois de uma crise semelhante de fertilizantes e petróleo há quase 50 anos.

“Esse foi imediato. Este é mais lento, mas sabemos que está a caminho.”

A China agravou a pressão ao suspender exportações de fertilizantes fosfatados até agosto, restringir misturas de azoto e potássio em março e anunciar a suspensão das exportações de ácido sulfúrico a partir de maio.

Para Lario, as restrições às exportações são o maior risco que ainda paira sobre o sistema: podem transformar um choque de preços numa escassez real.

A Comissão Europeia apresentará o seu plano para os fertilizantes a 19 de maio. Mas a próxima colheita será decidida antes de muitas das soluções estruturais poderem produzir efeitos.

Até lá, os preços no Carrefour e no Aldi podem continuar estáveis.

Mas, se a cadeia entre gás, fertilizantes e colheitas se confirmar, essa estabilidade chegará ao fim.

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