“Crise do sector bancário pode ser mais séria do que a crise financeira de 2007 e 2009”, alerta economista

O economista Ricardo Cabral acusou os bancos centrais de ser o “mecanismo incendiário” para a turbulência

Francisco Laranjeira
Março 27, 2023
10:32

A crise que se faz sentir no sector bancário dos Estados Unidos e na Europa “pode ser mais séria do que a crise financeira que se viveu entre 2007 e 2009, garantiu, esta segunda-feira, o economista Ricardo Cabral, em entrevista à ‘CNN Portugal’, que acusou os bancos centrais de ser “o mecanismo incendiário” para a turbulência.

Em particular, o Fed, dos Estados Unidos, que “está a ser apanhado de surpresa e não percebem o que está a acontecer. É uma questão de esperarmos por um acidente”, apontou.

As autoridades “estão com a sua atitude típica de que o nosso sistema é resiliente e robusto. Foi o que nos fartámos de ouvir, inclusive antes de colapsos de bancos importantes. O que aconteceu nos Estados Unidos pode acontecer na zona Euro”, apontou o especialista.

“As autoridades monetárias não perceberam bem o que aconteceu. Estavam convencidas que o esquema regulatório que tinham criado era perfeito. O exercício de regulação e supervisão foi encarado pelas autoridades como uma lista de itens a verificar. Que, desde que as estatísticas fossem cumpridas de acordo com os parâmetros que eles inventaram, estaria tudo bem. Não haveria nenhuma razão para os mercados entrarem em pânico”, acusou Ricardo Cabral.

Aliás, segundo o economista, o pânico partiu dos próprios bancos centrais. “Seguiram o guião que representa o consenso dominante. Agora, parece-me que a solução não podia ser esta, de aumentar tão radicalmente e tão depressa as taxas de juro. É engraçado constatar que o Banco Central da China deu esse recado às autoridades americanas – parecem quase estupefactos com o amadorismo das autoridades monetárias, tanto na Europa como nos Estados Unidos”, garantiu.

A crise pode assim tornar-se “mais séria do que a crise financeira de 2007-2009, e é uma crise que está a ser causada pela política monetária dos bancos centrais. O mecanismo incendiário, que precipitou e continua a causar a fuga de depósitos, tem sido a política monetária da Reserva Federal e do BCE. É o cozinhado perfeito para termos uma crise mesmo séria”, acusou.

E, em Portugal? “Estará menos mal do que outros bancos noutros países porque tivemos uma crise muito significativa e tivemos sob a vigilância apertada do BCE, que quase não deixou a carteira de crédito crescer. Há outros países que estão em situação muito pior. O que acontece é que o pânico cria a sua própria realidade no sistema bancário. E isto é que é o trágico. Por mais robusto que esteja o banco, se agentes económicos, sobretudo aqueles com maior património, acreditarem que um banco está em fragilidade, o banco pode colapsar”, finalizou.

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