Crise do petróleo devido à guerra no Irão já supera choques de 1973, 1979 e 2022 juntos

A crise do petróleo e do gás desencadeada pelo bloqueio do estreito de Ormuz é “mais grave do que as de 1973, 1979 e 2022 juntas”, alertou o director executivo da Agência Internacional da Energia (IEA), Fatih Birol, numa avaliação que sublinha a dimensão histórica do actual choque energético global.

Pedro Gonçalves

A crise do petróleo e do gás desencadeada pelo bloqueio do estreito de Ormuz é “mais grave do que as de 1973, 1979 e 2022 juntas”, alertou o director executivo da Agência Internacional da Energia (IEA), Fatih Birol, numa avaliação que sublinha a dimensão histórica do actual choque energético global.

Falando ao jornal francês Le Figaro, Birol afirmou que o impacto do conflito no Médio Oriente sobre o mercado petrolífero ultrapassa a soma dos dois grandes choques petrolíferos da década de 1970 e das consequências da invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022. O responsável máximo da IEA advertiu ainda que os países em desenvolvimento serão os mais afectados, enfrentando preços mais elevados do petróleo e do gás, aumento dos preços dos alimentos e uma aceleração generalizada da inflação. Também a Europa, o Japão e a Austrália deverão sentir efeitos significativos.

Os preços do petróleo oscilaram em torno dos 110 dólares (cerca de 97 euros) por barril na terça-feira, ultrapassando temporariamente esse patamar depois de o presidente norte-americano, Donald Trump, ter advertido que “uma civilização inteira morrerá esta noite” caso o Irão não aceitasse um acordo. Mais tarde, as cotações aliviaram ligeiramente, ficando abaixo desse nível.

Trump exigiu que Teerão reabrisse o estreito de Ormuz como condição para travar a guerra, estabelecendo um prazo até às 20h00 da costa leste dos Estados Unidos (01h00 em Lisboa). Numa publicação na sua rede Truth Social, escreveu: “Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais voltar.” Surgiram ainda relatos de ataques norte-americanos a alvos militares na ilha de Kharg, onde se localiza um importante terminal de exportação de petróleo iraniano.

Daniela Hathorn, analista sénior de mercados da Capital.com, descreveu um ambiente de elevada tensão, afirmando que “os mercados estão novamente em alerta à medida que o conflito entre os EUA e o Irão entra numa fase crítica, com os investidores a negociar essencialmente contra mais um prazo imposto pela administração Trump”. Segundo a analista, o cenário evoluiu para um desfecho binário a curto prazo: “ou uma escalada através de ataques directos a infra-estruturas iranianas, ou uma desescalada de última hora que poderá desencadear uma inversão acentuada nos activos de risco”. Para já, acrescentou, “a ausência de um caminho claro mantém os mercados voláteis e indecisos”.

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Bolsas sob pressão na Europa, Ásia e EUA
As principais praças europeias encerraram em queda após as ameaças de Washington. Em Londres, o índice FTSE 100 recuou 0,84%. O alemão DAX perdeu 1,1% e o francês CAC 40 caiu 0,7%. Em Wall Street, o Dow Jones abriu em baixa, a ceder 296 pontos, ou 0,64%, para 46.373 pontos.

Na Ásia, o comportamento foi misto: o Nikkei japonês manteve-se estável, o Kospi sul-coreano subiu 1,1% e o Hang Seng de Hong Kong recuou 0,7%.

Os mercados têm registado forte volatilidade desde o ataque conjunto dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, em Fevereiro, numa altura em que o encerramento de facto do estreito de Ormuz alimentou receios de inflação e fragilizou a confiança dos investidores.

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FMI prevê inflação mais alta e crescimento mais lento
A directora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, advertiu que a guerra deverá traduzir-se em inflação mais elevada e crescimento global mais fraco. Em declarações à Reuters, afirmou que, antes do início do conflito, o FMI previa uma ligeira revisão em alta do crescimento mundial, estimando 3,3% para 2026 e 3,2% para 2027. Agora, reconheceu, “todos os caminhos conduzem a preços mais elevados e crescimento mais lento”. O relatório actualizado das Perspectivas Económicas Mundiais deverá ser publicado na próxima semana.

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