O Grupo de peritos sobre o Mecanismo Europeu de Preparação e Resposta à Crise de Segurança Alimentar reúne-se esta quarta-feira, dia 23 de março, em Bruxelas, para avaliar a situação e definir, eventualmente, uma resposta ao problema que se vive em toda a Europa, incluindo em Portugal.
Este encontro segue-se a um outro, que aconteceu na segunda-feira entre o Ministério da Agricultura e o Grupo de Acompanhamento e Avaliação das Condições de Abastecimento de Bens nos Setores Agroalimentar e do Retalho, responsável por gerir e avaliar o abastecimento alimentar nacional, numa altura em que o preço dos bens tem disparado, fruto da crise de energia.
Ontem, depois da reunião, a ministra da Agricultura, Maria do Céu Antunes, voltou a sublinhar que o Governo não antevê problemas no abastecimento alimentar, pedindo que se evite “o pânico”, nomeadamente com o óleo de girassol, que “não faltou, só aumentou de preço”.
“Nesta altura, não antevemos que falhem produtos de abastecimento nos supermercados”, declarou, adiantado que o grupo de trabalho no Governo português criado para a pandemia está já a monitorizar a situação “para não se chegar a fase de ruturas e falhas” e se poder “tomar as melhores medidas” em cada momento.
A governante disse ainda, relativamente ao aumento dos preços, que o executivo está a “preparar um cabaz de ajuda às famílias mais necessitadas”, porque, reiterou, “é inevitável o aumento dos preços (…) e temos de estar preparados”.
A par disso, a Comissão Europeia comprometeu-se com 500 milhões de euros para distribuir pelos Estados-membros da União Europeia (UE) para garantir segurança do abastecimento alimentar, cabendo nove milhões a Portugal, revelou ainda.
Entre outras medidas incluídas no pacote europeu está ainda a derrogação para usar terras em pousio para pastoreio e para produção de proteínas vegetais, a flexibilização das regras europeias para ajudas estatais, o armazenamento privado da carne de porco e adiantamentos em maio de metade dos pagamentos diretos para avançar com 500 milhões de euros para os agricultores portugueses.
Estas declarações surgem numa altura de aceso confronto armado na Ucrânia devido à invasão russa, com tensões geopolíticas que estão a afetar cadeias de abastecimento, causando receios de rutura de ‘stocks’ e de crise alimentar.
Alimentos básicos sobem oito euros
Segundo cálculos da Deco Proteste, entre 9 e 16 de março, um cabaz com 63 alimentos básicos – calculado pelo INE para o consumo mensal de uma família – que antes custava 183,64 euros, aumentou para 191,58, uma subida de 4,3%.
Isto significa que comprar bens alimentares básicos ficou oito euros mais caro em apenas uma semana, um reflexo da crise que o país atravessa atualmente, impulsionada pelo aumento dos preços em vários setores e matérias-primas.
O cabaz em causa inclui produtos como leite, queijo, manteiga e fiambre, um pacote de arroz, de farinha, de massa e de açúcar, 1 kg de carne de peru e de frango, carapau, pescada, cebola, batata, cenoura, banana, maçã ou laranja.
A maior subida no leque destes produtos corresponde aos peixes, a pescada aumentou 18%, o salmão e o carapau 12%, mas também às ervilhas, cujo valor subiu cerca de 15%, de acordo com os mesmos dados.
Agricultores admitem racionamento, mas APED desvaloriza
Eduardo Oliveira e Sousa, presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), disse que a subida dos custos da energia e dos combustíveis leva agricultores a desistir de produzir várias culturas sazonais, como milho, hortícolas e algumas frutas, para não terem prejuízo.
“Assim, além de um aumento de preços, haverá carência de produtos, o que leva à especulação, que, por sua vez, leva a um novo aumento. É impossível saber até onde vai chegar a escalada”, referiu, admitindo até racionamento em algumas situações.
Por outro lado, o diretor-geral da APED, Gonçalo Lobo Xavier, assegurou ontem que não vai haver rutura de produtos nos supermercados, sinalizando, no entanto, que perante a atual conjuntura, o aumento de custos vai ter consequências no rendimento das famílias.
“Não é preciso ir a correr para os supermercados” fazer compras porque “não vai haver rutura de produtos”, garantiu, ressalvando contudo que “no preço dos bens alimentares o aumento médio (…) vai ser da ordem dos 30%”, o que “vai ter consequências no rendimento as famílias e isso vai ser um desafio enorme que vamos ter, seja no digital seja nas lojas [físicas]”.




