Criptomoedas, Stablecoins e DeFI: os desafios da Banca de Retalho Europeia

Opinião de Gonçalo Simões, Banking Services Director da NTT DATA Portugal

Executive Digest

Por Gonçalo Simões, Banking Services Director da NTT DATA Portugal

Durante décadas, a banca de retalho tradicional europeia operou num equilíbrio relativamente estável: depósitos como base de financiamento, crédito como motor de rentabilidade e os bancos centrais como âncora última de confiança e estabilidade. Esse equilíbrio está hoje a ser pressionado por três inovações, digitais e disruptivas: as moedas digitais de bancos centrais (CBDCs), a proliferação de stablecoins estrangeiras (maioritariamente associadas ao dólar) e o crédito descentralizado no ecossistema de Finanças Descentralizadas (DeFi) nas Blockchains. O debate destas últimas tendências, tende a centrar‑se na inovação tecnológica, mas o verdadeiro risco é estrutural.

No caso das CBDCs, foram pensadas, para preservar a soberania monetária e modernizar os sistemas de pagamento, mas estas moedas, podem, se mal desenhadas, fragilizar o próprio sistema bancário que visam sustentar. A possibilidade de cidadãos e empresas deterem moeda do banco central em formato digital levanta um risco clássico de desintermediação: por que manter depósitos num banco comercial quando existe uma alternativa percepcionada como mais segura? Mesmo com limites e modelos híbridos, o simples facto de essa opção existir, poderá alterar comportamentos, sobretudo em contextos de possível stress financeiro, como aqueles em que vivemos atualmente, com diferentes geografias em guerra.

E é de fora da esfera institucional europeia que surgem alguns dos riscos mais subestimados para os bancos europeus: as stablecoins estrangeiras, sobretudo as indexadas ao dólar, que não são apenas um fenómeno cripto, são, na prática, novos instrumentos monetários privados, globais e altamente líquidos. A sua adoção crescente como meio de pagamento, investimento e reserva de valor, cria um efeito de substituição silencioso dos depósitos bancários tradicionais em euros. Cada euro convertido numa stablecoin estrangeira, representa menos financiamento disponível para a banca europeia e, por extensão, menos capacidade de concessão de crédito à economia real.

A este fenómeno soma‑se agora um terceiro vetor: o crescimento do crédito descentralizado em plataformas DeFi. Hoje, qualquer cliente particular pode, a partir de uma carteira digital, obter empréstimos denominados em euro ou dólar, online, diretamente na blockchain, utilizando criptoativos como colateral. Estes empréstimos são concedidos de forma automática, sem intermediação bancária, com taxas de juro determinadas por algoritmos de oferta e procura e, em muitos casos, mais competitivas do que as praticadas pela banca tradicional.

Continue a ler após a publicidade

Mais disruptivo ainda é o facto de o colateral nestas plataformas poder continuar a gerar rendimento enquanto garante o empréstimo. Na prática, o mesmo ativo serve simultaneamente como garantia e como fonte de rentabilização, algo estruturalmente difícil de replicar no modelo bancário clássico. Este mecanismo altera profundamente a proposta de valor do crédito: o custo efetivo do financiamento reduz‑se e o incentivo à migração para estas soluções aumenta, sobretudo entre segmentos de clientes mais jovens e financeiramente sofisticados.

Embora o volume total de crédito em DeFi ainda seja limitado no contexto europeu, o sinal estratégico é claro e tal como aconteceu com os pagamentos, o crédito começa a ser desagregado em camadas modulares, globais e tecnológicas. Para os bancos europeus, isto representa uma pressão adicional sobre um dos seus negócios nucleares: o do crédito, baseado em spreads e relacionamento de longo prazo.

Este conjunto de dinâmicas tem também uma dimensão geopolítica incontornável, uma Europa onde poupança, pagamentos e crédito digital passam crescentemente por infraestruturas e ativos denominados noutras moedas está, na prática, a importar condições monetárias externas. A política monetária do Banco Central Europeu torna‑se menos eficaz quando partes relevantes do sistema financeiro funcional operam fora do seu perímetro de controlo. Para os bancos, isto traduz‑se em maior volatilidade do financiamento e compressão de margens.

Continue a ler após a publicidade

O desafio para a banca tradicional europeia deixou de ser apenas tecnológico; é existencial. As CBDCs obrigam a repensar o papel dos bancos num sistema onde o dinheiro do banco central pode tornar‑se diretamente acessível ao público. As stablecoins estrangeiras competem pela função monetária. O DeFi começa a competir pelo próprio negócio do crédito. Ignorar qualquer uma destas frentes é um erro estratégico.

A resposta não passará pela resistência, mas pela adaptação. Os Bancos têm que se adaptar, começar a inovar tecnologicamente e ficar mais focados em serviços de valor acrescentado, crédito especializado e ter um grande enfoque na gestão de risco, garantindo a confiança dos clientes para terem espaço para se afirmar. Em paralelo, a Europa terá de decidir se quer ser apenas utilizadora de infraestruturas financeiras globais ou se pretende liderar, com o euro digital e modelos híbridos regulados, a próxima fase da evolução do dinheiro e do crédito. O tempo para essa decisão está, rapidamente, a esgotar‑se.

 

 

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.