Crescimento global acima das expectativas… mas por quanto tempo? Especialistas temem nova vaga de inflação

Os economistas da Schroders acreditam que o crescimento económico global será mais forte do que o antecipado pelo consenso, criando um contexto favorável para os ativos de risco.

André Manuel Mendes

Os economistas da Schroders acreditam que o crescimento económico global será mais forte do que o antecipado pelo consenso, criando um contexto favorável para os ativos de risco. No entanto, alertam que a combinação de crescimento robusto e cortes adicionais nas taxas de juro poderá reacender pressões inflacionistas e aumentar a volatilidade nos mercados.

Na sua atualização trimestral, a gestora internacional de ativos revê em alta as perspetivas para a economia mundial e admite agora novos cortes de juros nos Estados Unidos e no Reino Unido. David Rees, Head of Global Economics da Schroders, sublinha que, apesar de a casa continuar a prever “um crescimento global mais forte do que é geralmente esperado”, existe preocupação quanto às consequências de manter as condições monetárias demasiado acomodatícias.



“Com os bancos centrais preparados para aproveitar quedas pontuais da inflação para reduzir ainda mais as taxas de juro e manter condições monetárias expansionistas, continuamos preocupados que um crescimento demasiado acelerado acabe por conduzir a inflação elevada no futuro”, afirma.

Segundo a Schroders, a maior alteração ao cenário base é precisamente a expectativa de novos cortes de juros nos EUA e no Reino Unido. A gestora considera que esse alívio adicional não é totalmente justificado pelos fundamentos macroeconómicos, sobretudo nos Estados Unidos, onde o consumo das famílias continua dinâmico. Ainda assim, entende que os decisores políticos demonstram uma predisposição para aliviar a política monetária sempre que surja oportunidade.

Nos EUA, a Schroders projeta um crescimento do PIB acima de 3% este ano, impulsionado pelo consumo robusto, por estímulos monetários e orçamentais adicionais e pelo forte investimento tecnológico. A criação de emprego deverá recuperar, num contexto de procura sólida e políticas de imigração mais restritivas, que poderão limitar a oferta de trabalho e pressionar novamente o mercado laboral. Neste enquadramento, a gestora considera que o equilíbrio de riscos pende para uma inflação mais elevada.

Na Zona Euro, a expectativa é que o crescimento supere o consenso entre 2026 e 2027, com a indústria transformadora a recuperar, particularmente na Alemanha, apoiada pelo aumento do investimento em defesa e infraestruturas. A inflação global deverá cair temporariamente abaixo da meta do Banco Central Europeu no início de 2026, mas a persistência da inflação nos serviços, impulsionada pelos salários, poderá levar o BCE a retomar o ciclo de subida de juros a partir de meados de 2027.

Já no Reino Unido, o crescimento permanece frágil. Quedas temporárias da inflação poderão justificar novos cortes de juros pelo Banco de Inglaterra na primavera, mas a Schroders alerta que políticas orçamentais desinflacionistas — nomeadamente ao nível da energia — podem mascarar pressões subjacentes ainda presentes. Um eventual choque inflacionista em 2027 poderá travar novos cortes e voltar a pressionar as yields da dívida pública britânica de longo prazo.

Relativamente à China, a gestora antecipa uma recuperação temporária, embora considere que a crise prolongada no setor imobiliário, marcada por pressões deflacionistas, limitará a sustentabilidade do crescimento. A procura interna contida poderá impedir as empresas de repercutirem custos mais elevados das matérias-primas nos consumidores domésticos, mas os exportadores poderão fazê-lo nos mercados externos, transferindo pressões inflacionistas para outras economias.

No conjunto, a Schroders traça um cenário de crescimento resiliente, mas avisa que a complacência monetária poderá ter custos mais à frente, reavivando tensões inflacionistas e expondo fragilidades nas finanças públicas de alguns países.

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