Covid-19: “Temos de ganhar até à Páscoa o verão e o outono deste ano”, insiste Marcelo

“Temos de ganhar até à Páscoa o verão e o outono deste ano”, insistiu Marcelo Rebelo de Sousa na mensagem que dirigiu ao país a propósito do 12.º estado de emergência que vai entrar em vigor no próximo dia 2. E tudo por uma questão de prudência, conforme fez questão de sublinhar: “Portugueses, disse e repito hoje: temos de ganhar até à Páscoa o verão e o outono deste ano. Por outras palavras: a Páscoa é um tempo arriscado para mensagens confusas ou contraditórias como por exemplo a de abrir sem critério antes da Páscoa para nela fechar logo a seguir para voltar a abrir depois dela. Quem é que levaria a sério o rigor pascal? É, pois, uma questão de prudência e de segurança manter a Páscoa como marco essencial para a estratégia em curso.”

Por outro lado, é também a vontade de não reeditar falhas. “Citando um quase clássico, um povo que não conhece a sua História está condenado a repeti-la. Nós conhecemos bem a história deste ano de pandemia. Não cometeremos os mesmos erros. E temos a esperança, a esperança não, a certeza, de que se formos sensatos o pior já passou.”

Mas Marcelo reconhece os esforços que estão implícitos. “Pode isto significar mais mobilidade por saturação? Pode. Mas um sinal errado de facilidade mal entendida também pode ou pode mais. Implica isto mais umas semanas de sacrifícios pesados e por isso que o Estado vá mais longe em medidas de emergência e de apoio a um futuro arranque? Implica. Mas a alternativa poderia ser ter de tomar, mais tarde, as mesmas medidas multiplicadas por dois ou por três. Em resumo, que se estude e prepare com tempo e bem o dia seguinte. Mas que se escolha melhor ainda esse dia, sem precipitações, para não se repetir o que já se conheceu. E nunca se confunda estudar e planear com desconfinar.”

E explica: “Sendo mais claro: planear o futuro é essencial, mas desconfinar a correr, por causa dos números destes dias, será tão tentador quanto leviano, até porque nós sabemos os números sobem sempre mais depressa do que descem.”

“Sabemos que, por atraso na entrega de vacinas, não haverá provavelmente no próximo mês, mês e meio, vacinação que garanta tudo o que se quer garantir, desde logo nas escolas. Sabemos que testar e rastrear em escassíssimas semanas, nos termos que permitam a segurança necessária, poderá ser complicado mesmo só para as escolas. Estas razões opostas fazem pensar duas vezes em criar-se expectativas de aberturas apressadas por muito sedutoras que sejam.”

No discurso do Presidente da República, união e coesão saem reforçados. “Qual é então o desafio que se coloca a quem tem de decidir? A resposta é simples: decidir deve basear-se na consciência de quem decide e não na preocupação de seguir a opinião de cada instante – ora quer fechar por medo, ora quer abrir por cansaço. Decidir em consciência é fundar-se em critérios objetivos e claros como são os indicadores da gravidade da pandemia, da pressão nas estruturas da saúde, da vacinação, da testagem, do rastreio, e deve ter presentes os sinais certos a dar aos portugueses. Decidir supõe, nesta pandemia, a solidariedade institucional e estratégica entre Presidente, Assembleia e Governo com um único fim: enfrentarem juntos a causa comum. Assim tem sido, assim continuará a ser, sendo certo que o Presidente da República é, pela natureza das coisas, o principal responsável.”

Antes, o chefe de Estado traçara a ideia que está em muitas mentes. “A economia e a sociedade sofrem uma crise profunda. Cultura, movimento associativo, desporto, restauração, hotelaria, muito comércio, sofrem ainda mais. A saúde mental está crescentemente abalada. As escolas e as crianças e os jovens em particular veem segundo ano letivo atropelado. Só importaria garantir a existência de vacinação mais rápida e ampla que cobrisse o que se fosse abrindo, começando pelas escolas, vacinando mais cedo nas escolas. Só importaria ainda assegurar testagem e rastreio mais amplos e virados para o mais urgente. No caso das escolas, com testes simples, rápidos, mas fiáveis. Com a dupla segurança de vacinas e testes seria possível desconfinar por fases sem os riscos corridos no passado. Estas as razões de quem quer ou quem espera o anúncio de passos imediatos para acabar com o regime do último mês”, resumira.

“Tudo o que fica dito tem lógica, corresponde ao que pensam muitos portugueses e é sedutor, é mesmo mais sedutor perante o cansaço destas exigentes semanas. Há, porém, um outro passo na balança: o número de internado ainda é quase o dobro do indicado por intensivistas que estão no terreno a tratar do mais grave; o número de cuidados intensivos é mais do dobro do aconselhado para evitar riscos de novo sufoco. Nunca se pode dizer que não há recaída ou recuo e os números que nos colocaram no lugar de piores da Europa e do mundo não são de há um ano ou de há meses – são de há um mês, tal como de há três semanas são as filas de ambulâncias à porta dos hospitais. Pior do que vivem agora a economia, a sociedade, a saúde mental e as escolas só mesmo se tivermos de regressar ao que acabámos de viver daqui a semanas ou meses”, dissera, antes de definir aquele que lhe parece o caminho mais adequado.

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