Covid-19: Tecnologia desenvolvida para rastrear infeção pode facilitar abusos de privacidade, alerta especialista

O aviso é do “ativista da privacidade” Phil Booth, que há muito defende a necessidade de regular este mercado

Teresa Campos

 

Em nome do combate à Covid-19, cresceram e multiplicaram-se os sistemas de monitorização das águas residuais, esgotos e afins – que podem revelar uso de drogas, mas não só. No entender de Phil Booth, coordenador da MedConfidential e acérrimo ativista da privacidade médica, o risco é que a tecnologia desenvolvida para acompanhar a propagação da Covid-19 se torne uma nova forma de vigilância e propicie abusos.

“As minhas preocupações assentam no alcance que estas ferramentas podem ter sobre a vida das pessoas. E na possibilidade de isso se estender muito para lá dos tempos de pandemia”, disse Booth, citado pela Sky News. No seu entender, o passo seguinte é claro: “tem de haver regulamentação de todo o tipo de tecnologia que possa ter um efeito na vida das pessoas, em grupo ou individualmente”.
São receios que Booth torna públicos mais uma vez, agora que foi anunciado o lançamento de uma empresa de biotecnologia que, no seu entender, não é mais do que “uma plataforma de vigilância móvel”. Tudo sob o pretexto de detetar o vírus da Covid-19 em esgotos de edifícios.

Segundo descreve aquele especialista britânico, trata-se de um equipamento do tamanho de uma mala que pode ser ligado a um qualquer tubo e enviar dados remotamente para um computador, onde é interpretado usando inteligência artificial. Chamada Modern Water, a empresa em causa assumiu já que tem monitores estáticos instalados em cerca de 3 mil locais, espalhados por 60 países, e que pode – efetivamente – detetar “medicamentos, pesticidas e até vestígios de hormonas, nas águas residuais que analisa.

Ao que explicou já Paul Ryan, director de desenvolvimento de negócios da empresa-mãe Deepverge, em declarações à Sky News, a expectativa é que o novo dispositivo esteja disponível para aluguer dentro de meses para monitorizar a COVID em edifícios, incluindo escolas, hospitais e hotéis. “Trata-se de vigilância, trata-se de identificar a presença de COVID e outros agentes patogénicos antes do tempo”, justificou. “Entendemos que há um consenso crescente de que a epidemiologia baseada em águas residuais oferece uma nova camada de informação que permite uma melhor vigilância sanitária.”

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A vigilância dos esgotos aumentou consideravelmente desde que se descobriu, logo em 2020, que a análise dos resíduos permite identificar o vírus da Covid-19. Segundo um relatório publicado em setembro do ano passado, o Programa de Monitorização Ambiental para a Protecção da Saúde, no Reino Unido, abrangia aproximadamente 40 milhões de pessoas. No entanto, o risco apontado por Booth foi já desvalorizado pela Agência de Segurança Sanitária do Reino Unido: “estão a ser seguidas as normas governamentais de proteção de dados”, garantindo que “os dados recolhidos não permitem identificar os indivíduos ou casas onde vivam pessoas infetadas”.

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