Covid-19: «Tal como numa guerra, temos de decidir quem salvar», diz médico italiano

Um médico a exercer funções na chamada ‘zona vermelha’ do Covid-19, em Itália, traça o cenário vivido nos hospitais do país.

Simone Silva

Christian Salaroli tem 48 anos e é médico terapeuta, especializado em terapia intensiva. Encontra-se actualmente em Itália, na considerada ‘zona vermelha’, por ser a mais preocupante devido ao Covid-19 e faz um relato do cenário vivido nos hospitais italianos, de acordo com o jornal italiano ‘Corriere della Sera’.

Ao contrário daquilo que se pensava, o sistema de saúde italiano não tem conseguido disponibilizar camas e máscaras para todos os pacientes. Salaroli refere por esse motivo, que é necessário fazer escolhas: «Tal como numa guerra, temos de decidir quem salvar», diz citado pelo jornal.

O médico tomou a decisão de relatar a situação vivida em Itália ao jornal, «porque a maioria dos italianos não sabe o que acontece nos hospitais». Salaroli luta na linha da frente contra o Covid-19, no hospital Papa Juan XXIII, em Bergamo, perto de Milão, admitindo que se encontra sobrecarregado, «não só por causa do excesso de trabalho, mas também devido à carga emocional, que é devastadora», refere o médico.

«Não estamos em posição de fazer milagres. É a realidade», disse Salarolli, explicando a batalha diária enfrentada pelos médicos e enfermeiros italianos. «Somos obrigados a tomar uma decisão em dois dias, no máximo. A ventilação não invasiva é apenas uma fase transitória. Nem toda a gente pode ser intubada porque não existem camas para tratar os pacientes que atingem um nível crítico».

Salaroli continua dizendo: «Não existe uma regra por escrito. Os médicos devem estabelecer quem pode ser salvo. Pacientes com cardiopatias respiratórias graves são cuidadosamente avaliados, porque têm fraca tolerância a uma crise aguda e poucas hipóteses de sobrevivência», explicou.

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Também a idade é considerada um factor decisivo, isto porque «se uma pessoa entre 80 e 95 anos sofrer de uma insuficiência respiratória grave, não avançamos. Se uma pessoa tiver uma falência em mais de três órgãos vitais, isso significa que apresenta uma taxa de mortalidade de 100%», afirma o médico.

Salaroli fala ainda da Unidade de Primeiros Socorros: «abrimos um local com vinte camas, utilizado para eventos em massa», sendo neste espaço feita a escolha entre aqueles que sobrevivem e aqueles que acabam por não resistir. Todos os infectados com Covid-19 que sofrem de insuficiência respiratória «são colocados em ventilação não invasiva», na manhã seguinte é dado o veredicto final.

«Para além da idade e do quadro geral, o terceiro elemento tido em conta é a capacidade do paciente resistir a uma intervenção de reanimação», explicou Salaroli ao ‘Corriere della Sera’.

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Salaroli falou sobre o cenário vivido pelos profissionais de saúde italianos: «Muitos colegas sofrem de uma pressão emocional excessiva. Vi enfermeiros, homens e mulheres a chorar, com trinta anos de experiência. Alguns têm colapsos nervosos, tremem repentinamente. A grande maioria dos italianos não sabe o que está a acontecer nos hospitais e eu quero que eles tenham essa noção, que estejam conscientes da gravidade da situação. Ainda há muitas pessoas na rua», afirma o médico.

Por fim, deixa um conselho aos italianos: «não saiam de casa, é a única maneira de conter o contágio».

 

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