Algumas semanas depois do episódio da suposta cerca sanitária ao Porto, o autarca Rui Moreira disse, em entrevista ao “Observador”, que a directora-geral da Saúde, Graça Freitas, «não tem competência nem autoridade para dizer o que disse». «Quem tem é o governo, o Conselho de Ministros, ou até, numa situação de emergência, o ministro da Administração Interna. Seria normal que eu, como responsável máximo pela Proteção Civil na cidade do Porto tivesse sido ouvido», defendeu.
«Nesse dia, à hora a que a senhora diretora-geral de Saúde estava a dar a sua conferência de imprensa diária, eu estava no supermercado. Subitamente, percebi que havia alguma agitação e pessoas a chegar em catadupa. Mal saio do supermercado, sem perceber o que se estava a passar, recebo um telefonema de uma pessoa que é conselheiro de Estado, o doutor António Lobo Xavier. Estava a ligar-me, quase a medo, a perguntar se eu achava bem estar a declarar uma cerca sanitária», contou.
Questionado sobre as suas declarações, o autarca do Porto esclareceu que «não foi nenhuma irritação». «A primeira coisa que nós precisamos, numa situação destas, é tranquilizar a população. Se me apressei imediatamente a fazer uma declaração, foi no sentido de travar aquilo que já tinha acontecido tempos antes, logo que a pandemia foi decretada, que foi uma corrida aos supermercados. E evitar pessoas a saírem da cidade em pânico», explicou.
«Depois percebeu-se que aquilo resultava de um erro de contas, o que é perfeitamente legítimo», defendeu, reiterando que «quis tranquilizar as pessoas». E insistiu: «É bom que cada um de nós, num tempo em que as pessoas subitamente têm comportamentos, muitas vezes, irracionais, não contribua para criar situações de ansiedade, de pânico».
«Não estou a dizer que haja coisas escondidas, não acredito em helicópteros negros que nos filmam e nessas coisas estranhas da internet», disse Rui Moreira, acrescentando, contudo, que «os portugueses já se aperceberam, ao lerem os relatos e até as estatísticas diárias que nos são fornecidas através da Direção-Geral de Saúde, que nem sempre são compreensíveis». «A Direção-Geral de Saúde talvez se sinta na necessidade de comunicar muito mais rapidamente e, portanto, os números não sejam suficientemente escrutinados. Foi isso que sucedeu no caso da cidade do Porto. Tinham sido dadas à senhora diretora-geral de Saúde informações com os números duplicados», lembrou.
O presidente da Câmara de Lisboa revelou, ainda, que logo nesse dia recebeu um telefonema de Marta Temido: «A senhora ministra da Saúde falou-me logo a seguir a essas declarações. No fundo, a pedir desculpa por aquilo ter saído cá para fora e dizer que não ia haver cerca sanitária nenhuma».
Para Rui Moreira, «o Governo tem sabido corresponder». E não só o Governo, «também o Presidente da República, tudo aquilo que são autoridades dos níveis intermédios do Estado, têm conseguido, apesar de tudo, dar uma resposta a uma situação complicada». «O Serviço Nacional de Saúde, para já, tem conseguido não entrar em ruptura. Isso deve-se, naturalmente, aos hospitais às pessoas que lá trabalham, mas também às medidas que foram tomadas. Genericamente concordo com aquilo que tem sido a atuação do governo», vincou. Já em matérias como a questão dos mais velhos e dos lares, «parece-me que houve, se calhar, decisões que deviam ter sido tomadas mais cedo. Foram tomadas tardiamente», considerou.
Em Portugal já morreram 973 pessoas das 24.505 confirmadas como infectadas, de acordo com o boletim da Direção-Geral da Saúde divulgado nesta quarta-feira, 29 de Abril.
Portugal cumpre o terceiro período de 15 dias de estado de emergência, iniciado em 19 de Março. O Governo anunciou a proibição de deslocações entre concelhos no fim de semana prolongado de 1 a 3 de Maio.
A nível global, segundo um balanço da agência de notícias «France-Presse», a pandemia de Covid-19 já provocou mais de 227 mil mortos e infectou mais de 3,1 milhões de pessoas em 193 países e territórios. Cerca de 890 mil doentes foram considerados curados.
A doença é transmitida por um novo coronavírus detectado no final de Dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.







