Covid-19. «Precisamos de abrir uma excepção». Ministro holandês recua sobre disponibilização de fundos

O ministro holandês das Finanças, Wopke Hoekstra, que recentemente defendeu que a Comissão Europeia devia investigar países como Espanha e Itália, que dizem não ter almofada financeira para lidar com o impacto da crise provocada pelo Covid-19, admitiu esta quarta-feira que «é importante que a Europa disponibilize fundos».

«Reunião de Eurogrupo muito longa, intensa e também construtiva sobre a crise do coronavírus que nos afecta a todos. Estamos a lidar principalmente com uma crise de saúde e é importante que a Europa disponibilize fundos. Também concordamos com o apoio do Banco Europeu de Investimento às empresas e empreendedores em dificuldades», escreveu no Twitter.

E salientou: «Devido à actual crise, precisamos de abrir uma excepção e o Mecanismo Europeu de Estabilidade deverá ser utilizado incondicionalmente para cobrir custos médicos. Para o apoio económico de longo prazo, achamos que seria sensato acordar a utilização do Mecanismo Europeu de Estabilidade mediante certas condições económicas. Continuaremos as discussões sobre como lidar com esta crise».

Porém, insiste que a «Holanda é e mantém-se contra a ideia dos Eurobonds». «Pensamos que tal criaria mais problemas do que soluções para a União Europeia. Teríamos de assegurar as dívidas de outros países, o que não é razoável. A maior parte do Eurogrupo não apoia esta solução e é contra os Eurobonds», argumentou o governante.

Na última reunião do Eurogrupo, a 26 de Março, o ministro das Finanças holandês sugeriu uma investigação a Espanha depois de Madrid ter afirmado que não tinha margem orçamental para responder à crise provocada pelo novo coronavírus sem o apoio financeiro da União Europeia. O primeiro-ministro português saiu em defesa de Espanha: «Esse discurso é repugnante». «Ninguém está disponível para voltar a ouvir ministros das Finanças holandeses como aqueles que já ouvimos em 2008, 2009, 2010 e anos consecutivos», disse o António Costa.

«Essa mesquinhez recorrente mina completamente o espírito da União Europeia e ameaça o seu futuro. Se a União Europeia quer sobreviver é inaceitável que um responsável político, seja de que pais for, possa dar respostas dessa natureza perante uma pandemia como aquela que estamos a viver, foi à custa disto que todos percebemos que insuportável trabalhar com o senhor [Jeroen] Dijsselbloem [antigo ministro das Finanças holandês]. Mas pelos vistos há países que insistem em irem mudando de nomes, mas mantendo pessoas com o mesmo perfil», afirmou o chefe do Governo português.

Reunião do Eurogrupo suspensa após maratona de 16 horas 

A reunião do Eurogrupo foi suspensa esta madrugada após 16 horas de discussões sem consenso para um compromisso político sobre a resposta económica da Europa à crise provocada pela pandemia covid-19, sendo retomada na quinta-feira, foi hoje anunciado.

«Após 16 horas de discussões, chegámos perto de um acordo, mas ainda não estamos lá», pelo que «suspendi o Eurogrupo e [a discussão] continua amanhã, quinta-feira», informa através da rede social Twitter o presidente do fórum de ministros das Finanças da zona euro, o português Mário Centeno.

Antes da reunião de ontem, Centeno dizia esperar que os ministros das Finanças europeus chegassem a acordo sobre um pacote financeiro de emergência robusto para trabalhadores, empresas e países, e que se comprometam claramente com um plano de recuperação de grande envergadura. Contudo, o compromisso a que os ministros das Finanças estão «obrigados» a chegar está a revelar-se difícil de «fechar», pois o ponto mais controverso da resposta, o financiamento para os Estados-membros, que Centeno defende que deve ser garantido através de linhas de crédito do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE), por ser a opção mais prática e »consensual», continua a dividir os Estados-membros.

De um lado, vários países, encabeçados por Itália, defendem antes a emissão conjunta de dívida – os chamados eurobonds ou coronabonds – e o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, já reafirmou a sua oposição à solução em forma de empréstimos do fundo de resgate da zona euro. Do outro, um conjunto de países, com Holanda à cabeça, rejeita liminarmente a mutualização da dívida, e, mesmo em relação às linhas de crédito do MEE, quer impor condições.

Mais pacíficas serão as duas outras vertentes do pacote de emergência que o presidente do Eurogrupo espera «fechar» nesta reunião, para apresentar aos chefes de Estado e de Governo da UE: o programa de 100 mil milhões de euros proposto pela Comissão Europeia para financiar regimes de protecção de emprego e uma garantia de 200 mil milhões de euros do Banco Europeu de Investimento para apoiar as empresas em dificuldades, especialmente as pequenas e médias empresas.

Em pouco mais de um mês, esta é a quarta reunião por videoconferência dos ministros das Finanças europeus para tentar acordar uma resposta comum à crise do novo coronavírus, sendo que desta feita é-lhes «exigido» um compromisso, para ser apresentado aos líderes europeus.

*Notícia actualizada às 10:27 com novo título

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