Portugal, que detém atualmente a presidência rotativa da União Europeia (UE), escreveu uma carta aos ministros da saúde do bloco, na qual propõe uma abordagem comum na utilização da vacina contra a Covid-19 da AstraZeneca, avança a ‘Bloomberg’.
Na carta, a que a agência de notícias teve acesso, o nosso país sugere uma posição conjunta e uma atuação coordenada, que passam essencialmente pela restrição da vacina da AstraZeneca apenas a pessoas com mais de 60 anos, suspendendo-a nas restantes faixas etárias.
“Existem muitas formas de tentarmos estabelecer uma posição europeia partilhada e restringir a administração da vacina AstraZenca às mesmas faixas etárias pode ser um bom ponto de partida”, pode ler-se no documento, assinado pela ministra da Saúde, Marta Temido, datado de 9 de abril.
A proposta surge depois de os ministros do bloco não terem conseguido criar uma resposta unificada na semana passada, no que diz respeito às ligações entre a vacina da AstraZeneca e a formação de tromboembolismos, em alguns dos pacientes vacinados.
A carta reconhece que “durante a reunião, mas particularmente durante todo o processo, os Estados membros estavam profundamente divididos sobre o que fazer”. E continua dizendo que “a delicadeza do assunto deixou muitos de nós frustrados, e isso ficou claro quando os países tomaram a palavra”.
Já na semana passada, tanto o primeiro-ministro, como o Presidente da República, e até a ministra da saúde, tinham apelado à união e «atuação coordenada» dos estados-membros em matéria de vacinas.
António Costa considera que as autoridades nacionais e todos os estados-membros da União Europeia (UE) devem respeitar as decisões da Agência Europeia do Medicamento (EMA) e evitar tomar medidas unilaterais.
Para o governante, é «fundamental que, ao menos na UE, haja uma atuação coordenada» e aguarda que os técnicos tenham uma «posição clara, compreensível e que dê tranquilidade».
Já Marcelo Rebelo de Sousa indica que a polémica da AstraZeneca «é uma situação incómoda para a Europa como um todo» e sublinha que «os estados reagem de forma diferente» perante o surgimento de dúvidas sobre a eficácia das vacinas, o que não devia acontecer.
O facto de «não haver uma posição unida, clara e duradoura em matéria de vacinas», por parte dos estados-membros da UE, «perturba as opiniões públicas», defende.
Também Marta Temido defendeu uma «participação determinada» na construção do projeto da União Europeia da Saúde, alegando a necessidade de uma resposta europeia concertada à pandemia da covid-19. «Se permanecermos unidos, seremos mais fortes na nossa capacidade de resposta» à pandemia, salientou a responsável na quarta-feira.
Segundo a governante, esta necessidade de concertação no combate à covid-19 convoca «uma participação determinada na construção de uma União Europeia da Saúde», projeto que, num primeiro momento, implica a aprovação de um pacote legislativo específico.
Como os países da UE reagiram a este assunto
Portugal anunciou a suspensão da vacina em questão para menores de 60 anos, uma posição também tomada por alguns países. É o caso de Espanha que anunciou que vai continuar a administrar a vacina, mas apenas à população com mais de 60 anos, a mesma medida vai ser adotada pela Alemanha, Países Baixos, Itália e Estónia.
Outros países europeus tomaram medidas semelhantes, ainda que com algumas divergências, França e Bélgica decidiram destinar a vacina da AstraZeneca a pessoas com 55 anos ou mais. Já a Dinamarca anunciou que vai deixar de administrar a vacina.
A Finlândia e a Suécia estão a administrar a vacina desde o final de março apenas à população com mais de 65 anos. A Alemanha também limitou, no final do mês de março, o uso da injeção a pessoas com mais de 60 anos e grupos de alta prioridade, após relatos de um raro distúrbio no sangue cerebral.
EMA reitera que benefícios da vacina superam os riscos
A diretora da Agência Europeia do Medicamento (EMA, na sigla em inglês), Emer Cooke, esclareceu na quarta-feira da semana passada, que apesar de se confirmar eventos de trombose «raros» devido à toma da vacina da AstraZeneca, os benefícios continuam a superar os riscos.
A responsável referiu que «análise feita à vacina da AstraZeneca confirmou que os benefícios na prevenção da Covid-19 continuam a superar os riscos». «A vacina provou ser altamente eficaz na luta contra a pandemia, pelo que continuamos a aconselhar o seu uso», acrescentou.
Ainda assim, a EMA encontra uma «possível ligação» entre os casos de coágulos sanguíneos e a vacina, motivo pelo qual, estes sintomas «serão incluídos na lista de efeitos secundários raros da mesma», revelou ainda Cooke.
«Não há uma ligação de género, idade, ou pré-condições de saúde nestes casos raros de coágulos sanguíneos», adiantou a diretora da EMA sublinhando que é importante considerar estes sintomas, pelo que os profissionais de saúde «devem estar atentos».














