O governo italiano pediu ajuda ao Estados-membros da União Europeia (UE), numa altura em que o vírus invadia a Europa e o país, mas acabou por ser ignorado, de acordo com uma recente investigação do ‘The Guardian’ e do Bureau of Investigative Journalism, com base em registos internos e entrevistas com especialistas.
O jornal britânico descreve a situação como «um momento de clareza arrepiante», quando a 26 de Fevereiro de 2020, numa altura em que o número de italianos infectados pelo coronavírus triplicava a cada 48 horas, o primeiro-ministro do país, Giuseppe Conte, se dirigiu aos estados-membros da UE em busca de ajuda.
Os hospitais em Itália estavam sobrecarregados, profissionais de saúde deixaram de ter máscaras, luvas e outros equipamentos necessários para se manterem seguros, e os médicos eram obrigados a fazer uma escolha sobre que pacientes deveriam privilegiar, por não haver ventiladores suficientes para todos.
Perante o cenário, Giuseppe Conte decidiu transmitir um pedido de ajuda urgente de Roma para a sede da Comissão Europeia em Berlaymont, Bruxelas. Todas as especificações das necessidades de Itália foram transferidas para o Sistema Comum de Comunicação e Informação de Emergência da UE (CECIS).
Contudo, «o que aconteceu depois foi um choque. O pedido de socorro foi recebido em silêncio», escreve o ‘The Guardian’. «Nenhum estado membro respondeu ao pedido italiano, nem à solicitação da comissão», afirmou Janez Lenarčič, comissário europeu responsável pela gestão de crises.
«Isto significa que não é só Itália que não está preparada… Ninguém está preparado… A falta de resposta ao pedido italiano não foi tanto por falta de solidariedade, mas antes por falta de equipamentos», defende o responsável citado pelo jornal britânico.
Segundo a mesma publicação, a 17 de Janeiro aconteceu a primeira teleconferência realizada pela UE, para discutir o problema, mas apenas 12 dos 27 países responderam à chamada.
Isto ajuda a explicar as cerca de 180 mil mortes e 1,6 milhões de infectados em toda a área económica do bloco europeu, desde que a doença chegou ao continente em Dezembro do ano passado.
O verdadeiro número de mortes será certamente maior do que o registado até agora. O recente aumento de infecções na Sérvia e nos Balcãs é motivo de grande preocupação. «O continente está agora num caminho inalterável para a pior recessão económica desde a Grande Depressão da década de 1930», escreve o ‘The Guardian’, em grande parte como resultado dos bloqueios necessários para proteger as populações.
Nesta altura já se questiona qual o objectivo concreto do projecto europeu, se nem os próprios estados-membros se conseguem ajudar uns aos outros, nas alturas mais difíceis. No próximo fim de semana, os 27 chefes de estado e de governo da UE vão reunir-se em Bruxelas pela primeira vez pessoalmente em cinco meses, para tentar traçar um caminho a seguir.
O ‘The Guardian’ classifica esta investigação como «uma história de autoridades bem-intencionadas em Bruxelas, que abordam os factos em tom urgente de um desastre iminente (…) Dos ministros da saúde cada vez mais desesperados, incapazes de convencer os chefes de governo do que estava por vir» e de como era «imperativo agir».
«Dos governos que reconhecem tardiamente a velocidade com que o vírus se estava a espalhar (…) E das instituições e agências da UE nas quais figuras centrais não tinham experiência ou poderes para convencer as capitais a agir».
O impacto do Brexit
Uma das fontes europeias citadas pelo ‘The Guardian’ considera que «a Comissão Europeia devia ter agarrado o problema mais cedo», visto que na altura Ursula von der Leyen tinha assumido o cargo de presidente há pouco tempo, (19 de Dezembro de 2019), o que tornou ainda mais complicado o cenário.
O Brexit foi também aqui um factor importante, pois naquela época as atenções estavam focadas no impacto que a crise de saúde pública poderia vir a ter no acordo comercial.
«A sala de imprensa estava quase vazia. Pedimos preparação, para que todos os Estados-membros levassem a ameaça a sério. Houve muito eco na sala vazia, mas ainda assim esperávamos que houvesse algum eco nos media no dia seguinte», o que acabou por não se verificar, explica o Comissário Europeu para a Gestão de Crises, citado pelo ‘The Guardian’.
«Entendo que era um momento histórico, um triste e emotivo momento. Mas isso não invalida o facto de que nós também tínhamos algo importante a dizer no mesmo dia. A maioria das pessoas não se mostrou interessada», conclui o responsável.
Por sua vez, Ammon, do Instituto Robert Koch considera que «os governos subestimaram a velocidade a que a doença se espalhava».











