Covid-19: Investigação revela campanha secreta do Pentágono para criar medo das vacinas da China

Esta campanha, segundo avança a Reuters, envolveu a criação de contas falsas na internet para espalhar medo e desinformação, particularmente sobre a vacina Sinovac, desenvolvida pela farmacêutica com sede em Pequim.

Pedro Gonçalves
Junho 14, 2024
15:32

Uma investigação jornalística revelou que, nos primeiros meses da pandemia de COVID-19, o Pentágono levou a cabo uma operação secreta destinada a desacreditar as vacinas provenientes da China.

Esta campanha, segundo avança a Reuters, envolveu a criação de contas falsas na internet para espalhar medo e desinformação, particularmente sobre a vacina Sinovac, desenvolvida pela farmacêutica com sede em Pequim.

O público-alvo desta campanha foi a população das Filipinas, um país severamente afetado pelo coronavírus, com mais de 4 milhões de casos e quase 67 mil mortes. O objetivo era claro: gerar desconfiança nas vacinas chinesas entre os filipinos, uma população já vulnerável devido à alta taxa de infeção.

Estratégia de Desinformação

A operação passou pela criação de perfis falsos nas redes sociais, que se apresentavam como habitantes locais alertando sobre a falta de segurança das vacinas Sinovac. Mensagens como “COVID veio da China e a vacina veio da China. Não confiem na China!” foram disseminadas. A Reuters identificou pelo menos 300 destas contas no Twitter, agora X, criadas no verão de 2020, e que aparentavam ser de antigos militares dos EUA envolvidos em operações nas Filipinas. Estes perfis desapareceram após o início da investigação da Reuters, com o Twitter justificando que se tratava de uma “campanha coordenada de bots”.

A campanha clandestina começou na primavera de 2020, ainda durante a presidência de Donald Trump, e continuou até meados de 2021, já sob a administração de Joe Biden. O objetivo não era a saúde pública, mas sim “arrastar a China pela lama”, admitiu um antigo militar sénior dos EUA envolvido na operação, citado pela agência de notícias.

Reações e Consequências

Especialistas em saúde e figuras públicas manifestaram profunda consternação e desapontamento com a revelação. Daniel Lucey, especialista em doenças infeciosas, considerou a campanha “indefensável”. Greg Treverton, antigo coordenador de espionagem do governo dos EUA, afirmou que o Pentágono “ultrapassou uma linha vermelha”.

Nas Filipinas, onde o então presidente Rodrigo Duterte havia declarado que quem não se vacinasse seria preso, a campanha clandestina exacerbou a desconfiança já existente em relação às vacinas. Nina Castillo-Carandang, ex-conselheira da Organização Mundial da Saúde e do governo filipino, criticou a campanha, lembrando que as Filipinas estavam desesperadas por soluções durante a crise pandémica. Esperanza Cabral, antiga Secretária de Estado da Saúde das Filipinas, lamentou que “muitas pessoas morreram de COVID que não precisavam de ter morrido” devido à desinformação disseminada.

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