Esta terça-feira assinala-se o quinto aniversário de um dos acontecimentos mais marcantes do século XXI: o confinamento imposto a metade da população mundial para conter a propagação da pandemia de Covid-19. No auge da crise sanitária, 2,6 mil milhões de pessoas estiveram sob alguma forma de restrição, num fenómeno sem precedentes que foi descrito como “o maior experimento psicológico da história” pela psicóloga Elke Van Hoof, da Universidade Vrije de Bruxelas.
Desde 11 de março de 2020, data em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou oficialmente a pandemia, a Covid-19 infetou mais de 777 milhões de pessoas e causou, de forma direta ou indireta, entre 7 e 15 milhões de mortes, segundo estimativas da OMS. Apesar dos impactos devastadores da crise sanitária e económica, a pandemia também trouxe avanços científicos, mudanças sociais e um maior reconhecimento da importância da saúde mental.
O valor da ciência e o avanço das vacinas
Uma das maiores lições da pandemia foi a rapidez sem precedentes com que a ciência respondeu à ameaça global. Em apenas nove meses, foi desenvolvida uma vacina eficaz contra o SARS-CoV-2, utilizando tecnologia de RNA mensageiro. Esta inovação, estudada há anos, ganhou impulso com a necessidade urgente de uma solução, levando ao desenvolvimento das vacinas da Pfizer/BioNTech e da Moderna.
Margaret Keenan, uma idosa britânica de 90 anos, tornou-se a primeira pessoa a receber uma vacina aprovada contra a Covid-19 a 8 de dezembro de 2020. O trabalho pioneiro dos cientistas Katalin Karikó e Drew Weissman, responsáveis pela tecnologia de RNA mensageiro, valeu-lhes o Prémio Nobel de Medicina em 2023.
Segundo Margaret Harris, porta-voz da OMS, “testemunhámos avanços tecnológicos a uma velocidade incrível”. Harris destaca ainda que a experiência da Covid-19 permitiu acelerar o desenvolvimento de vacinas para outras doenças, incluindo o cancro. Devi Sridhar, professora da Universidade de Edimburgo, reforça à BBC que as lições aprendidas melhoraram a capacidade global de resposta a futuras pandemias: “Se antes perguntávamos se uma vacina seria possível, agora perguntamos: com que rapidez podemos produzi-la?”
A revolução na educação
O encerramento de escolas durante meses teve um impacto profundo, sobretudo nas crianças mais vulneráveis. Segundo Mercedes Mateo, do Banco Interamericano de Desenvolvimento, “a pandemia levou a um aumento das taxas de abandono escolar e a um retrocesso na aprendizagem”. No entanto, também acelerou a digitalização do ensino e impulsionou o debate sobre novas metodologias de aprendizagem híbridas.
“Antes da pandemia, havia resistência à digitalização na educação. Agora percebemos que é fundamental manter o ensino acessível mesmo em situações de crise”, afirma Mateo. Ainda assim, permanece a incerteza sobre se, numa nova pandemia, os governos optariam por soluções alternativas ao fecho das escolas.
O impacto no mundo do trabalho
O mercado de trabalho sofreu uma reviravolta sem precedentes. O confinamento obrigou muitas empresas a adotarem o teletrabalho, um modelo que perdura em vários setores. Para Gerson Martínez, especialista da Organização Internacional do Trabalho (OIT), “as políticas de proteção ao emprego foram essenciais para evitar uma catástrofe maior”.
A OIT destaca que, apesar das perdas iniciais, a recuperação do emprego foi mais rápida do que o esperado. No entanto, desafios persistem, especialmente para jovens e mulheres, que foram os mais afetados. A pandemia também consolidou o trabalho remoto como uma opção viável e impulsionou novas formas de emprego, como as plataformas de entregas e serviços digitais.
A valorização da saúde mental
O impacto psicológico da pandemia foi profundo. O confinamento, o medo e a incerteza aumentaram exponencialmente os casos de ansiedade, depressão e outros transtornos mentais. Relatórios da OMS e da Organização Pan-Americana da Saúde indicam um crescimento significativo dos pedidos de ajuda psicológica, assim como um aumento nos comportamentos suicidas.
A psicóloga Laura Rojas-Marcos destaca que a pandemia “mudou a nossa memória emocional e a forma como nos relacionamos”. Apesar do sofrimento generalizado, ela observa que houve uma maior consciencialização sobre a importância da saúde mental. “Hoje entendemos que cuidar da mente é tão essencial quanto cuidar do corpo”, afirma.
A pandemia também impulsionou a adoção de terapias à distância, facilitando o acesso ao apoio psicológico. Segundo Rojas-Marcos, “o atendimento remoto permitiu ajudar pessoas em zonas isoladas e em situações extremas, como soldados na Ucrânia”.
O lado humano da crise
Apesar dos desafios, a pandemia também evidenciou a capacidade de resiliência e solidariedade das pessoas. Estudos indicam que muitas pessoas passaram a valorizar mais o tempo em família e a conexão com a comunidade. Segundo um inquérito da GlobeScan para a BBC, realizado em 2022, 36% dos entrevistados afirmaram sentir-se melhor do que antes da pandemia, destacando o reforço dos laços pessoais e a clareza sobre prioridades na vida.
Para Margaret Harris, “vimos o melhor da humanidade durante a pandemia”, com gestos de solidariedade que ajudaram a mitigar os impactos da crise.
Cinco anos depois, o que mudou?
Cinco anos após o início do confinamento global, o mundo ainda enfrenta desafios decorrentes da pandemia, mas também incorporou mudanças que podem ter impactos positivos a longo prazo. A ciência demonstrou a sua capacidade de resposta rápida, a educação e o trabalho evoluíram para modelos mais flexíveis e a saúde mental passou a ser um tema central na sociedade.
Embora a pandemia tenha sido um dos períodos mais difíceis da história moderna, as lições aprendidas poderão ajudar o mundo a enfrentar futuras crises com maior preparação e resiliência.






