Covid-19: há 11 genes que determinam como uma pessoa fica doente durante uma infeção, revela estudo

Estudo, publicado na ‘Cell Reports’, analisou por que isso aconteceu e examinou o impacto da Covid-19 em quem fica perigosamente doente e quem não fica. Através do estudo de pulmões, os investigadores encontraram um conjunto de genes que determinam se as células imunológicas montam uma defesa robusta ou se descontrolam e colocam alguém num ventilador

Francisco Laranjeira

Há onze genes que definem a proteção contra a infeção da Covid-19, segundo revelou um novo estudo de investigadores dos Laboratórios Nacionais de Doenças Infeciosas Emergentes (NEIDL) da Universidade de Boston e da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, o que ajuda a responder à questão sobre os motivos pelos quais umas pessoas ficam mais doentes dos que outras devido à infeção mas, sobretudo, pode ajudar muitos a evitar sintomas piores.

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As vacinas contra a Covid-19 salvaram pelo menos um milhão de vidas apenas nos Estados Unidos, mas, para muitas pessoas, há um medo persistente: se, ou quando, forem atingidos pelo coronavírus, o quão mau poderá ser? Segundo a OMS, desde o início da pandemia, em 2020, já morreram mais de seis milhões de pessoas – foi estimado ainda que tenha provocado, de forma direta ou indiretamente, mais de 15 milhões de mortes. E ainda assim, a grande maioria das pessoas que contraíram a Covid-19, cerca de 99% dos mais de 500 milhões de casos confirmados, sobreviveram ao contacto com o vírus.

Então, por que algumas pessoas são tão severamente afetadas pela Covid-19 quando muitas mal são prejudicadas? A idade e outras condições de saúde aumentam o risco de doenças graves mas o novo estudo sugeriu que aqueles que escapam dos piores sintomas também podem ter o equilíbrio certo de um tipo de célula imune chamada macrófagos.

Os glóbulos brancos encontrados em todos os tecidos, os macrófagos, partem de um grupo de células chamadas células mieloides – protetoras do sistema imunológico, são as curadoras. São também responsáveis por ataques aos invasores, engolindo e digerindo qualquer coisa que não pareça pertencer ao corpo, desde células mortas até bactérias nocivas. Esse modo de ataque ajuda-nos a permanecer saudáveis mas também parece ser um fator em casos graves. Há evidências de que muitas mortes por coronavírus são causadas por uma resposta hiperimune: macrófagos violentos que atacam não apenas o vírus, mas também os nossos corpos, causando inflamação excessiva e danos ao tecido cardíaco e pulmonar.

O estudo, publicado na ‘Cell Reports’, analisou por que isso aconteceu e examinou o impacto da Covid-19 em quem fica perigosamente doente e quem não fica. Através do estudo de pulmões, os investigadores encontraram um conjunto de genes que determinam se as células imunológicas montam uma defesa robusta ou se descontrolam e colocam alguém num ventilador. “Se se puder entender por que a maioria das pessoas está protegida contra a Covid-19 e como o seu corpo as protege, então podemos usar esse conhecimento para desenvolver terapias e outros avanços”, explicou Florian Douam, professor assistente de microbiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Nova Iorque e coordenador do estudo.

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Porque motivo alguns pulmões estão protegidos?

Após dois anos de pandemia, os cientistas sabem muito sobre como o SARS-CoV-2 é transmitido e como os nossos corpos reagem quando o contraímos. Mas há ainda muito por descobrir: veja-se o caso dos pulmões. Sabe-se que a Covid-19 pode deixar os pulmões cheios de líquido e inflamados, às vezes marcados pela sepse. Mas a maior parte do que se sabe sobre o vírus nos pulmões baseia-se em amostras recolhidas daqueles que morreram da doença, não daqueles que sobreviveram.

Para superar esse obstáculo, Douam e a equipa de investigadores desenvolveram um novo modelo, um rato de laboratório com tecido pulmonar humano e reforçado com um sistema imunológico humano derivado de células-tronco, para monitorizar os diferentes estágios da infeção. Quando foi estudado o efeito do vírus associado a um sistema imunológico, os resultados foram surpreendentes. “Quase nunca vimos vírus nos pulmões. O pulmão estava protegido. Então, fizemos a pergunta: ‘Por que o pulmão está protegido?’ E foi aí que encontramos os macrófagos.”

Segundo Devin Kenney, principal autor do artigo, uma característica dos pulmões que foi mais severamente afetada pela Covid foi a falta de diversidade de macrófagos, que foram dominados por um macrófago pró-inflamatório, as células que geralmente respondem a vírus e bactérias, chamado M1. “Essa resposta hiperinflamatória parece conduzir a um estado de doença mais grave”, referiu Kenney. Em contraste, os sistemas imunológicos que se misturaram com mais células que normalmente ajudam no ‘combate’ (M2 ou macrófagos reguladores) saíram-se melhor. “Se tiver uma população mais diversificada de macrófagos, pode-se regular de forma mais eficaz os sinais que impulsionam as respostas antivirais, desligando-os mesmo se for apropriado. Então o sistema imunológico pode eliminar o vírus muito rapidamente e proteger o tecido”, frisou o investigador.

Esta resposta antiviral positiva está relacionada com um conjunto de 11 genes – em caso de resistência efetiva, esses genes trabalharam mais. “Agora, sabemos que os macrófagos podem não apenas promover a proteção no tecido pulmonar. Também conhecemos o conjunto-chave de genes que esses macrófagos precisam expressar para proteger o pulmão”, finalizou.

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