O Governo reúne-se esta quinta-feira em Conselho de Ministros para decidir se a terceira fase do plano de desconfinamento, prevista para a próxima segunda-feira, dia 19 de abril, vai ou não avançar.
Em causa para esta próxima etapa está a retoma das aulas presenciais do ensino secundário e superior e a reabertura de cinemas, teatros, auditórios, salas de espetáculos, bem como lojas do Cidadão com atendimento presencial por marcação, todas as lojas e centros comerciais e ainda restaurantes, cafés e pastelarias (máximo quatro pessoas ou seis em esplanadas), até às 22h ou 13h ao fim-de-semana e feriados.
Ainda neste mesmo dia, segundo o plano traçado pelo Governo, está previsto que sejam retomadas todas as modalidades desportivas de médio risco, as atividades físicas ao ar livre até 6 pessoas e ginásios sem aulas de grupo, os eventos exteriores com diminuição de lotação e também os casamentos batizados com 25% de lotação.
Costa preocupado com surtos localizados que prejudicam municípios inteiros
O primeiro-ministro, António Costa, pediu na terça-feira, na fase de debate com os especialistas na reunião do Infarmed, mais dados sobre o que fazer a nível local, pedindo-lhes «ajuda» de forma a ajustar melhor os indicadores concelhios.
O governante perguntou se era possível ajustar a leitura do risco a nível local e regional, isto porque há casos, em alguns concelhos, que estão ligados a contextos concretos como de obras em curso ou apanhas agrícolas, nomeadamente Odemira e Alandroal.
Em resposta, os especialistas disseram que é necessário olhar para os indicadores concelhios como «sinalizadores» e fazer o cruzamento com o que decidem as autoridades locais. Assim, se um concelho está no vermelho, aparece nos radares das autoridades de saúde, mas é preciso perceber se se trata de uma situação de infeção dispersa na comunidade ou se é um surto confinado geograficamente.
Esta preocupação de Costa é um sinal de que, possivelmente, o desconfinamento irá avançar a ritmos diferentes nos vários concelhos, em função do seu nível de risco, como já tinha sido avançado pelo próprio.
O governante já tinha adiantado num briefing de conselho de ministros que se um município tivesse mais de 120 casos por 100 mil habitantes em duas avaliações quinzenais seguidas, veria o desconfinamento travado. Ontem foi a vez de Eduardo Cabrita admitir o mesmo.
Governo admite “suspensão” do desconfinamento em algumas zonas
O ministro da Administração Interna afirmou ontem que o Governo vai adotar esta quinta-feira “um justo equilíbrio” entre desconfinamento e medidas restritivas, ou de suspensão do processo de reabertura, nas zonas mais atingidas pela covid-19.
“Com base em toda a informação científica disponível até ao último momento, o Governo não deixará de adotar um justo equilíbrio entre a vontade e necessidade de desconfinamento e a absoluta determinação de medidas restritivas ou de eventual pausa e suspensão no processo de reabertura onde tal seja necessário”, disse o governante no Parlamento.
“O caminho do que fazemos hoje é um passo mais. São 15 dias decisivos que estão nas mãos de todos os portugueses”, advertiu o membro do Governo, num discurso em que considerou haver “uma vontade genuína de todos para que este seja o último estado de emergência em Portugal”.
22 concelhos acima do limiar de risco
André Peralta Santos, da Direção Geral da Saúde (DGS) adiantou na reunião de terça-feira no Infarmed, que há 22 concelhos (sem incluir as ilhas) com incidência superior a 120 casos por 100 mil habitantes que correspondem a 636 mil pessoas, 6,5% da população nacional.
Segundo o responsável, o Alentejo e Algarve são os distritos que apresentam uma situação com mais concelhos com incidência superior a 120 casos por 100 mil habitantes.
Na semana de 21 a 27 de março, o Algarve e Baixo Alentejo foram os que registaram maiores crescimentos, depois na semana seguinte “algum crescimento também na zona do Algarve do Barlavento para o Sotavento e depois na última semana com algum crescimento também na zona norte da zona do Grande Porto e de Trás os Montes”.
Atualmente o cenário mais preocupante vive-se no Alandroal, no Alentejo, e no Nordeste, nos Açores. Seguem-se Barrancos, Moura, Odemira, Machico, Rio Maior, Vila Franca do Campo e Portimão, com níveis igualmente elevados.
Portugal pode atingir linhas vermelhas em duas semanas
A pandemia de covid-19 regista uma “inversão da tendência” de descida em Portugal, que já tem um índice de transmissibilidade (R) de 1,05, podendo atingir os 120 casos por 100 mil habitantes dentro de “duas semanas a um mês”.
A informação foi avançada pelo investigador Baltazar Nunes, do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA), que assinalou a atual “fase de crescimento” da disseminação do vírus SARS-CoV-2 no país e adiantou que no dia 08 de abril, o último sobre o qual havia dados, o R atingiu já os 1,09, quando na anterior reunião do Infarmed (23 de março) o valor deste índice se situava em 0,89.
“No país, com este nível de crescimento e uma taxa próxima de 71 casos por 100 mil habitantes, o tempo para chegar à linha dos 120 casos por 100 mil habitantes está entre duas semanas e um mês.
A região do Algarve já atingiu esse valor e as regiões da Madeira e Açores também”, afirmou, em alusão à primeira linha de avaliação da matriz desenhada pelo Governo para controlo da situação epidemiológica no plano de desconfinamento.
Especialistas pedem adiamento do desconfinamento
A decisão de hoje acontece numa altura em que a incidência da Covid-19 em Portugal tem aumentado, com o país a aproximar-se da zona amarela da matriz de risco, levando a alguns alertas por parte de especialistas para que se tenha mais calma, sob pena de a pandemia se descontrolar.
É o caso de Tiago Correia, professor de Saúde Internacional e investigador do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, da Universidade Nova de Lisboa, que indica que para já, ainda não existem dados disponíveis em Portugal, para que possam ser tomadas «decisões seguras» sobre a próxima fase de desconfinamento.
Da mesma opinião de que este avanço do desconfinamento é prematuro é o matemático e professor da Faculdade de Ciências do Porto, Óscar Felgueiras. «Não creio que estejam reunidas as condições ideais, estamos com um Rt acima de 1 já há quase duas semanas e não está propriamente próximo de 1, está em 1,05 ou acima», disse também ao mesmo canal.
Também Manuel Carmo Gomes, epidemiologista da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, afirmou que «se continuarmos com o desconfinamento ao ritmo a que ele está calendarizado como se nada fosse, muito provavelmente vamos ter uma quarta vaga», estima o responsável.














