A Inglaterra vive uma ‘nova normalidade’ desde 27 de janeiro último, depois de ter abandonado praticamente todas as medidas contra a Covid-19: já se pode entrar em qualquer loja sem máscara, assim como o teletrabalho foi descartado, assim como a necessidade de um certificado digital. A Inglaterra, segundo proclamou o secretário de saúde e assistência social Sajid Javid, é o “país
mais aberto da Europa”.
Outros países europeus estão a seguir o exemplo – a Irlanda já abandonou quase todas as restrições, a Dinamarca prepara-se as eliminar a partir de 1 de fevereiro, exceto os testes na chegada do exterior. Outros países nórdicos sinalizaram que farão o mesmo nas próximas semanas. Também o Governo espanhol pediu que se considere a possibilidade de a Covid-19 seja tratado como uma doenças endémica, ou seja, um elemento permanente nas nossas vidas.
Apesar do elevado número de casos da Ómicron, há países que começam a declarar – talvez prematuramente – que o pior da pandemia já passou e chegou a hora de seguir em frente, de aprender a viver com a Covid-19. A Organização Mundial de Saúde (OMS) já alertou que podem surgir novas variantes e que a pandemia não está nem perto do fim.
Então, o que fazer agora? Como se processa o ‘novo normal’? Como vamos lidar e que feridas podemos estar a carregar?
George Bonanno, psicólogo clínico da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, mostrou-se confiante que a maioria das pessoas vai gostar do regresso ao normal – ou a alguma semelhança com a normalidade anterior. “Acho que as pessoas estão realmente prontas para sair da sombra desta coisa”, apontou o autor do livro ‘The Ende of Trauma’, no qual argumentou que os humanos são mais resilientes do que acreditamos.
A pandemia, segundo o especialista, não foi um ‘trauma’. “Quando as pessoas começam a falar sobre trauma coletivo, entram na ilusão de algum tipo de diagnóstico médico e isso está errado”, explicou. Mas foi, certamente, traumático para muitas pessoas: profissionais de saúde, que suportaram o peso de cuidar de pacientes e vê-los sofrer e morrer, estão a relatar níveis recorde de stress pós-traumático (TEPT), uma condição de saúde mental desencadeada por uma experiência traumática, com sintomas que incluem flashbacks, dificuldades em dormir, ansiedade e pesadelos. Segundo o Royal College od Psychiatrists do Reino Unido, 40% da equipa britânica de cuidados intensivos apresenta sintomas de TEPT, assim como 35% dos pacientes com a Covid-19 que foram ventilados.
Embora não possa ser considerado traumático para todos, a pandemia da Covid-19 tem sido chamada de fator de stress crónico, ou por outras palavras, uma fonte quase constante de stress e ansiedade, o que tem o seu preço. É por isso normal – e razoável – que um regresso ao normal desperte ansiedade em algumas pessoas, referiu Bonanno. Muitos acostumaram-se ao estilo de vida ‘eremita’, alguns até podem ficar fechados por mais tempo com receio de infeções, uma reação que foi apelidada de “síndrome da caverna”. De acordo com dados do Escritório de Estatísticas Nacionais do Reino Unido, as taxas de depressão dobraram no Reino Unido no início de 2021, assim como os relatos de sintomas de ansiedade e depressão também aumentaram dramaticamente nos EUA.
Afinal, é difícil ignorar que a Covid-19 ainda está entre nós. A vida é inerentemente arriscada. Atividades comuns – atravessar uma rua ou conduzir – trazem riscos. Mas as apostas são maiores agora para muitas atividades quotidianas. “O que acho difícil agora é que as pessoas querem dizer: ‘Bem, quando é seguro? Quando voltará ao ponto de ser seguro?’”, apontou Julie Downs, psicóloga social que pesquisa a perceção de risco na Carnegie Mellon University, no Estados Unidos. Para alguns, não haverá regresso ao normal.
Uma das consequências do Governo suspender as restrições é que o ónus de tomar precauções de saúde vai recair do coletivo para o individual. “À medida que passamos a pensar na Covid-19 como um risco endémico em vez de uma pandemia, traz consigo uma mudança na abordagem da saúde pública de ‘O que todos nós podemos fazer para ajudar a reduzir o impacto sistémico deste evento’ para ser mais um de todos os risco que estamos a tentar reduzir para nós mesmos”, lembrou Downs. “E isso vai demorar um pouco para as pessoas se reorientarem e tomarem as suas próprias decisões.”




