Não há como negar os números: mesmo com relatórios irregulares, os casos da Covid-19 e hospitalizações estão a aumentar um pouco por todo o mundo, em particular nos Estados Unidos, segundo revelou a ‘CNN’: em Nova Iorque, mais de um quarto da população do estado vive num condado com um nível “alto” de risco, nos quais os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA recomendam o uso de máscaras. As hospitalizações diárias médias aumentaram cerca de 10% desde a última semana, segundo dados do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (CDC) dos Estados Unidos.
O culpado: um ‘spinoff’ da subvariante BA.2 da Ómicron, chamada BA.2.12.1, sinalizada pela primeira vez pelas autoridades de saúde de Nova Iorque em abril último. O BA.2.12.1, que está a crescer cerca de 25% mais rápido do que o ‘vírus pai’, BA.2, já responde por quase 37% de todos os casos da Covid-19 nos Estados Unidos, de acordo com as estimativas do CDC – o BA.2 causou cerca de 62% de todos os casos da Covid-19 na última semana, abaixo dos 70% da semana anterior.
A BA.2.12.1 não é, contudo, a única ramificação da Ómicron que os cientistas observam. Após semanas de declínio, a África do Sul viu os seus casos da Covid-19 aumentarem acentuadamente nas últimas duas semanas, devido a duas subvariantes relativamente novas, BA.4 e BA.5, que começaram a dominar a transmissão no país – juntas, são já quase 60% de todos os novos casos da Covid-19 até ao final de abril, segundo revelou o Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis da África do Sul.
Estas novas subvariantes da Ómicron estão a espalhar-se pelo mundo – as sequências BA.4 já foram relatadas em 15 países, enquanto a BA.5 já chegou a 13 países, de acordo com o site ‘Outbreak.com’. Assim como BA.2.12.1, a BA.4 e BA.5 têm uma vantagem de crescimento sobre a BA.2.
Subvariantes Ómicron fogem da imunidade
Um estudo recente, ainda não revisto por pares, apontou que a BA.4 e BA.5 estão a ganhar terreno: podem escapar dos anticorpos gerados por infeções anteriores causadas pelo primeiro vírus da Ómicron (BA.1). Podem também fugir de anticorpos de pessoas que foram vacinadas e que tiveram infeções por BA.1, embora isso tenha acontecido em menor grau do que o observado em pessoas que foram só infetadas.
Investigadores na África do Sul testaram a capacidade dos anticorpos no sangue em combater os vírus BA.4 e BA.5 em laboratório – em pessoas que não foram vacinadas mas recuperaram recentemente de uma infeção por BA.1, observaram uma queda de mais de sete vezes na capacidade dos anticorpos. Em pessoas que foram vacinadas, mas também uma infeção causada por BA.1, a capacidade foi só três vezes menor. A título de comparação, a Organização Mundial de Saúde (OMS) usa uma queda de oito vezes na neutralização como o limite para a perda de proteção que exige uma atualização das vacinas contra a gripe sazonal.
Os resultados do estudo levaram os investigadores a alertar que a “BA.4 e BA.5 têm potencial para resultar numa nova onda de infeção”, tornando as vacinas contra a Covid-19 e as doses de reforço cruciais para interromper a próxima onda.
Mutação partilhada
Os vírus BA.4 e BA.5 e BA.2.12.1 apresentam mutações na localização 452 dos seus genomas, uma reunião que codifica parte do domínio de ligação ao recetor do vírus – a parte do vírus que se ‘relaciona’ com as nossas células. Já a variante Delta e outras tinham mutações nesse local específico e o investigadores acreditam que estas mudanças ajudam o vírus a ligar-se mais firmemente às nossas células e a esconder-se dos defensores imunológicos. “Isso pode fazer com que se transmita melhor, talvez também entre as nossas células”, disse Alex Sigal, virologista do Africa Health Research Institute. Também apresentam alterações na localização 486: os vírus anteriores com mutações nesse local não se deram bem. “De repente, este vírus conseguiu. Então não sabemos o que isso faz”, apontou Sigal.
Os cientistas começaram a trabalhar para tentar entender melhor o BA.2.12.1, que foi detetado em 22 países, embora a maioria das sequências tenha vindo dos Estados Unidos. Antes do vírus SARS-CoV-2, os cientistas pensavam que os coronavírus não mudavam muito. Andy Pekosz, virologista e professor de microbiologia molecular e imunologia da Universidade Johns Hopkins, garantiu no entanto que, olhando para trás, não sabíamos ao que íamos. Enquanto o vírus continuar a ter hospedeiros para infetar, vai continuar a evoluir. “Este vírus mostrou que sofreu mutações lentamente mas enquanto continuar a revelar boas mutações, vai continuar a chegar”, finalizou.











