COVID-19. Carta aberta de Itália a Portugal (e não só): «Estamos agora onde vocês estarão»

«Escrevo-vos de Itália, o que significa que escrevo do futuro. Estamos agora onde vocês estarão daqui a uns dias.» É desta forma que começa a carta aberta de Francesca Melandri, escritora italiana que está em quarentena em Roma há quase três semanas. Num texto publicado no jornal britânico The Guardian, a autora deixa um aviso ao Reino Unido mas também a toda a Europa, alertando que devem levar o assunto COVID-19 a sério se não quiserem ver a história de Itália repetir-se.

Segundo Francesca Melandri, estamos todos a dançar ao som da mesma música, mas há países que vão um passo à frente dos outros. Tal como a província chinesa de Wuhan estava à frente de Itália, é agora a vez de Itália estar à frente do resto do Velho Continente e haverá lições valiosas a reter.

«Nós observamo-vos a comportarem-se tal como nós nos comportámos. Vocês apresentam os mesmos argumentos que nós apresentávamos até há algum tempo», sublinha a escritora, indicando que o mundo se divide, actualmente, entre aqueles que acham que é apenas uma gripe e aqueles que já compreenderam a gravidade da situação.

Diz Francesca Melandri que ao olhar para o resto da Europa a partir de Itália, sabe que muitos estarão a pensar nos unviversos criados por autores como George Orwell – que imaginou uma população constantemente vigiada no livro “1984”. No entanto, garante, haverá muito com que se entreterem em quarentena, a começar pela comida, uma das poucas coisas que continuarão a poder fazer. Seguir-se-ão os grupos nas redes sociais, os tutoriais para adquirir novas competências, os livros que estavam a ganhar pó nas prateleiras e, de novo, mais comida.

«Juntar-se-ão a eles todos [os grupos e workshops] e depois ignorá-los-ão por completo ao fim de alguns dias (…) Comerão de novo. Não dormirão bem. Perguntarão a vocês próprios o que está a acontecer à democracia», continua Francesca Melandri. Também começarão a sentir saudades de amigos e familiares e antigas discussões deixarão de fazer sentido. Ao mesmo tempo, muitas mulheres sofrerão de violência doméstica, vendo-se impedidas de sair de casa.

Em breve, se tudo acontecer como em Itália, os europeus começarão a pensar em quem não tem casa e na forma como as pessoas sem-abrigo estarão a lidar com o novo coronavírus. Também vão sentir-se vulneráveis sempre que forem às compras. «Perguntar-se-ão se é assim que as sociedades colapsam. Acontece mesmo assim tão rápido? Vão bloquear estes pensamentos e, quando regressarem a casa, vão comer de novo.» Como consequência, conta, as pessoas em isolamento social vão engordar e começar a procurar treinos desportivos online.

Haverá também espaço para rir, garante Francesca Melandri nesta carta aberta, mais não seja perante a constatação de quão absurda é a vida e o universo em geral. Ainda sobre emoções e sentimentos, a escritora italiana garante que as circunstâncias vão encarregar-se de revelar a verdadeira essência de cada um. «Terão confirmações e surpresas», escreve.

Francesca Melandri sublinha ainda que a classe é um factor de peso. Se é verdade que todos temos de estar em casa – e, aí, há igualdade – também é verdade que é bastante diferente passar dois meses numa vivenda com jardim ou num apartamento com mais pessoas do que devia.
«Aquele barco em que navegarão para derrotar a epidemia não parecerá o mesmo para todas as pessoas e não será o mesmo para todas as pessoas: nunca foi.»

Francesca Melandri conta também que a quarentena resultará em divórcios, nascimentos e num novo mundo. As pessoas terão medo, partilharão esse medo com os outros ou escolherão guardar os receios para não sobrecarregar os restantes.

«Estamos em Itália e é isto que sabemos sobre o vosso futuro. Mas é apenas adivinhação a uma escala pequena», acrescenta a escritora. Se apontarmos mais adiante, a um futuro mais longíquo, «o futuro que é desconhecido tanto para vocês como para nós, podemos apenas dizer-vos isto: quando tudo acabar, o mundo não será o mesmo».

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