Covid-19: Aliviar medidas? “Nos próximos três ou quatro anos não vamos poder aliviar nada”, alerta especialista

Portugal deve manter as medidas básicas de higiene e segurança, como o uso de máscara, a distância e a desinfeção das mãos, pelo menos nos próximos “três, quatro anos”, de forma a que não haja um descontrolo da pandemia de Covid-19. O alerta foi dado por Pedro Esteves, professor e investigador do departamento de Biologia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.

“Acho que nos próximos três ou quatro anos não vamos poder aliviar nada. Não nos podemos pôr a jeito, ou seja, temos de manter as medidas básicas. Com isto não estou a falar em confinamentos gerais, mas em manter estas pequenas regras”, disse em declarações à Executive Digest.

Dias depois de o Centro Europeu de Doenças ter adiantado que se podiam aliviar algumas regras para os vacinados, o especialista diz não concordar em absoluto com as recomendações, sobretudo pelo perigo que as novas variantes representam.

“Há determinadas vacinas que produzem anticorpos que conseguem neutralizar algumas variantes, mas há mutações contras as quais já está provado que as vacinas não têm assim uma eficiência tão grande”, disse exemplificando com a estirpe da Africa do Sul. “As vacinas mostraram uma eficiência muito baixa, mesmo contra casos graves. E essa estirpe existe em Portugal, ainda que com uma incidência baixa”, sublinhou.

Desta forma, o responsável considera que “ao dizermos às pessoas que estão vacinadas que podem baixar a guarda, o que estamos a fazer é aumentar a probabilidade dessas variantes serem cada vez mais frequentes, porque a proteção pode nem sequer existir”, explica.

“Além do mais, pode acontecer que essas pessoas vacinadas até consigam ter alguma proteção contra casos graves, mas que ainda tenham algum tipo de infeção, que seja suficiente para infetar os outros que as rodeiam”, ressalvou ainda.

 “Isto pode ser uma história que nunca vai acabar”

Pedro Esteves sublinha que o mais importante “sobretudo nesta fase, em que estamos a conseguir controlar a pandemia, é precisamente evitar que as variantes surjam. Então temos de continuar a usar máscara, manter a distância de dois metros e controlar os movimentos de pessoas, sobretudo de fora para dentro, porque são elas que trazem a novas variantes”, alertou.

O responsável considera que “nunca vamos atingir a imunidade de grupo. Estamos a falar de um vírus que tem taxas de infeção gigantescas, só ontem (na Índia) tivemos mais 300 mil novos casos, e por isso a probabilidade de aparecerem novas variantes é absolutamente gigantesca”, sublinhou.

“E por isso, o que eu acho que vamos ter é uma situação semelhante à da gripe. Vai haver uma espécie de correção da vacina, e vamos vacinando as pessoas e tentando de certa maneira controlar, ganhar alguma resistência contra essas variantes”.

O especialista sugere “uma medida muito importante e na qual não se fala muito, que é a sequenciação do vírus, perceber de que forma está a evoluir, quais são as frequências das diferentes variantes”. Para além disso, importa também “haver mais ensaios clínicos para perceber se a eficiência das primeiras vacinas se mantém, ou se é necessário criar novas e assim manter isto controlado”.

“A ideia é controlar, estar atentos durante os próximos anos. Porque a probabilidade de isto aumentar é muito grande. Temos de ter muito cuidado, porque sobretudo nesta altura, é a pior para aliviar”, afirmou acrescentando que devemos “manter as guardas todas, ter cuidado, calma e paciência. Pensar que isto é uma maratona e ainda só fizemos 10 mil metros”.

Para Pedro Esteves, “estamos num braço de ferro constante entre o vírus e o hospedeiro, as novas mutações podem quebrar este braço de ferro e inclinar as coisas para o lado do vírus, então vamos ter que reequilibrar novamente a situação. Isto pode ser uma história que nunca vai acabar e ninguém vai sair daqui, vamos controlando, mas esta é uma guerra que nunca ninguém vai ganhar”, conclui.

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