Cortes à Internet na Rússia geram protestos em Moscovo e pressão gigantesca sobre o Kremlin

A intensificação das restrições ao acesso à internet na Rússia desencadeou protestos em Moscovo e abriu uma frente de contestação que envolve cidadãos, empresários e figuras políticas.

Pedro Zagacho Gonçalves

A intensificação das restrições ao acesso à internet na Rússia desencadeou protestos em Moscovo e abriu uma frente de contestação que envolve cidadãos, empresários e figuras políticas. As limitações impostas pelo Kremlin à internet móvel e a aplicações de comunicação como WhatsApp e Telegram estão a provocar um crescente descontentamento social e económico no país.

No último fim de semana, várias dezenas de pessoas concentraram-se junto a um edifício governamental na capital russa, formando filas em sinal de protesto, sob vigilância policial. A mobilização tornou-se visível também nas redes sociais, onde surgiram publicações a denunciar a situação. De acordo com a Associated Press, a maioria das tentativas de organização de manifestações autorizadas foi rejeitada pelas autoridades, tendo alguns ativistas sido detidos sob diversas acusações.

Desde o início da guerra, a Rússia tem registado interrupções no acesso à internet, sobretudo em zonas estratégicas ou próximas da fronteira com a Ucrânia, com o objetivo de controlar a informação que sai do país. Contudo, nas últimas semanas, os cortes tornaram-se mais frequentes e abrangentes, afetando diversas regiões.

O apagão da internet móvel foi reportado pela primeira vez a 5 de março, em subúrbios de Moscovo, tendo-se posteriormente estendido à totalidade da capital. O Kremlin justifica as medidas com razões de segurança, mas as restrições estão a gerar críticas, inclusive entre simpatizantes do Governo.

Os manifestantes que apresentaram queixas denunciam cortes regulares na internet móvel, bloqueios de aplicações populares de mensagens e interrupções no acesso a milhares de páginas e serviços digitais.

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Empresários alertam para impacto económico
A contestação não se limita à sociedade civil. Líderes empresariais têm apelado à revogação das medidas, sublinhando os prejuízos para a atividade económica.

O presidente da União Russa de Industriais e Empresários, Alexander Shokhin, dirigiu-se diretamente a Vladimir Putin num fórum recente da organização. Segundo afirmou, os cortes na internet móvel “dificultaram a vida tanto para as empresas como para os cidadãos”.

“Dado o alto nível de penetração da tecnologia móvel nas nossas vidas, esperamos que se encontre uma solução sistémica e equilibrada”, declarou Shokhin, antigo ministro na década de 1990 e membro do partido Rússia Unida desde os anos 2000.

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Putin, presente no palco durante a intervenção, não respondeu diretamente ao apelo, apesar de o tema ganhar centralidade no debate público russo.

Oposição fala em descontentamento generalizado
O político opositor Boris Nadezhdin afirmou, em entrevista à Associated Press, que as decisões do Kremlin “enfurecem muitíssima gente”, refletindo um sentimento de frustração crescente.

Nadezhdin e outros grupos ativistas convocaram manifestações em dezenas de cidades russas a 12 de abril, sustentando que “o descontentamento é generalizado” e garantindo estar disposto a “aumentar a pressão” sobre o Governo.

Também o primeiro-ministro da Arménia, Nikol Pashinián, deixou uma referência indireta ao tema durante uma reunião televisiva com Putin, ao afirmar que “as redes sociais na Arménia são 100% livres, sem qualquer tipo de censura”. A declaração provocou uma reação visível de desconforto por parte do presidente russo.

Kremlin invoca razões de segurança
Esta terça-feira, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, respondeu às críticas, garantindo que as restrições “são levadas a cabo por motivos de segurança” e que serão levantadas quando a ameaça cessar.

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“Encontramo-nos numa situação em que considerações de segurança exigem a adoção de determinadas medidas”, declarou Peskov aos jornalistas, rejeitando que se trate de medidas regressivas.

No quotidiano, os cidadãos relatam dificuldades significativas. Entre as queixas mais frequentes estão a impossibilidade de realizar chamadas telefónicas, efetuar pagamentos contactless através de NFC ou utilizar aplicações essenciais.

Em algumas zonas de Moscovo, utilizadores referem que até as chamadas de emergência deixaram de funcionar, levantando preocupações quanto à segurança e ao acesso a cuidados de saúde urgentes.

WhatsApp e Telegram sob restrição e promoção da app estatal MAX
O Kremlin intensificou ainda as restrições às duas aplicações de mensagens mais utilizadas no país — WhatsApp e Telegram — ao mesmo tempo que promove uma aplicação estatal denominada MAX.

O Governo sugere que os cidadãos utilizem esta aplicação “nacional”, desenvolvida na Rússia e inspirada no modelo da chinesa WeChat, integrando serviços de mensagens, pagamentos bancários e funcionalidades de rede social. A MAX é amplamente considerada uma ferramenta com potencial de vigilância reforçada.

Inicialmente, foram bloqueadas as chamadas de voz e vídeo no WhatsApp e no Telegram. Posteriormente, o envio de mensagens tornou-se inviável sem recurso a VPN, uma solução que também passou a ser alvo de restrições acrescidas.

Novas medidas contra VPN geram polémica
O ministro dos Assuntos Digitais e Comunicações, Maksut Shadayev, anunciou que recebeu instruções para reduzir ainda mais o uso de VPN. Segundo informações divulgadas na imprensa, o ministério propôs novas medidas para impedir que os cidadãos contornem os bloqueios através dessas redes privadas.

A empresária do setor tecnológico Natalya Kasperskaya criticou publicamente a agência reguladora das comunicações, Roskomnadzor, acusando-a de afetar serviços essenciais. Segundo afirmou, os esforços da entidade provocaram mesmo uma interrupção no serviço bancário durante o fim de semana.

“Não existe uma forma técnica de bloquear as VPN sem interromper toda a ligação à internet”, escreveu numa publicação no Telegram.

Num tom crítico, acrescentou: “Camaradas, façam capturas de ecrã de sites interessantes, levantem todo o dinheiro que puderem e preparem-se para ouvir relatórios na rádio sobre inimigos estrangeiros que bloquearam a nossa outrora amada Runet”.

A Roskomnadzor negou envolvimento direto nas falhas reportadas. Kasperskaya acabou por apresentar desculpas pelas declarações, mas defendeu um reforço do diálogo entre as autoridades e o setor tecnológico.

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