O escândalo de corrupção no Parlamento Europeu (PE), conhecido como ‘Qatargate’, que envolve figuras de Bruxelas, incluindo a ex-vice-presidente do PE, Eva Kaili, continua a ganhar novos relevos à medida que se vão conhecendo detalhes da investigação e interrogatórios. Agora, sabe-se que o Qatar não é o único envolvido em suspeitas de pagamento de subornos aos envolvidos no caso, para que agissem em nome do país nas instituições da União Europeia. Marrocos também é alvo de suspeitas e terá sido neste país no norte de África que o escândalo rebentou.
O verdadeiro início do escândalo de corrupção começa entre Rabat, Marraquexe e Bruxelas, segundo o La Repubblica, que teve acesso aos documentos dos procuradores belgas a cargo do caso.
A investigação inicial ao caso que envolve Marrocos têm três momentos-chave, relatados pelo jornal italiano. Em 2018, Pier Antonio Panzeri, ex-eurodeputado dos Socialistas Europeus, diretor da ONG Fight Impunity, que seria paga para exercer influência sob decisores políticos da UE, e um dos detidos no escândalo, tirava uma fotografia sorridente com Andrea Cazzolino, eurodeputado de quem Francesco Giorgi, companheiro de Eva Kaili, é assessor, e Abderrahim Atmoun, embaixador da Polónia em Marrocos, encontram-se. Tiram uma fotografia e dizem “Marrocos e a União Europeia têm e sempre terão melhores relações”.
Noutro episódio, no hotel Mamounia, em Marraquexe, um dos mais luxuosos do mundo, Panzeri abre uma garrafa entre amigos e família para celebrar e ao lado está uma mala cheia de presentes, oferecidos por Atmoun. A filha de Panzeri pergunta à mãe: “Como raio é que vamos levar isto tudo?”. Terceira cena, nos serviços secretos marroquinos, o Dged, o Ministério dos Negócios Estrangeiros pede informação sobre Panzeri, que aparece em vários relatórios diplomáticos. A resposta: “É o nosso querido amigo Antonio Panzeri”.
As primeiras denúncias partiram dos serviços secretos de um país europeu – o mais provável é Espanha -, que informa as autoridades belgas de que Marrocos tem recorrido a um grupo de influência dentro do Parlamento Europeu, em particular envolvendo os Socialistas Europeus, que exerciam influência nas decisões de organismos da UE a favor do país africano.
Era indicado o nome do embaixador Abderrahim Atmoun, que seria o elo de ligação com o referido grupo de influência e apontado o nome de um intermediário Mohamed Belharache.
Este nome faz soar os alarmes nos serviços secretos belgas. As autoridades percebem que Mohamed Belharache está nas bases de dados, por, meses antes ter sido parado no aeroporto de Orly, em Paris, com uma pasta de documentos secretos, tendo depois subornado um polícia para o deixar passar. A investigação acredita que seria uma operação de contrainteligência, e os belgas pedem mais informação aos serviços secretos espanhóis.
As informações são escassas, mas recordam-se de um episódio com Miguel Urban, eurodeputado da Esquerda, que tem seguido a questão de Marrocos na UE, e tem sido uma das vozes críticas do país no Parlamento Europeu, que apresentou uma queixa depois de a sua casa ter sido invadida. O político acreditava na altura que teria sido obra dos serviços secretos marroquinos, o que se veio a confirmar agora.
Depois do aviso de Espanha, as autoridades belgas pedem às francesas para confirmarem informações, e pedem dados à polónia sobre Atmoun. O nome de Panzeri vai sendo ouvido uma e outra vez, bem como de Francesco Giorgi.
Aqui, reside um facto que ainda causa embaraço à investigação: a garantia de que, se tivesse havido maio colaboração entre autoridades, ao nível judicial, poderiam ter sido recolhidas mais e melhores informações, mais precisas. Isto porque a Bélgica pede informações sobre os envolvidos, mas nunca relata que o que está em investigação são suspeitas de uma rede de corrupção.
Com informação recolhida, os serviços de inteligência belgas, a Vsse, fez buscas à casa de Panzeri, para ver se as suspeitas se confirmaram. Na altura, o ex-eurodeputado está fora de Bruxelas. A operação decorreu em segredo, a 12 de julho.
“Bingo”, ouve Francisca Bostyn, que lidera os serviços secretos belgas, da equipa na casa de Panzeri: encontraram malas e malas cheias de notas, num total de mais de 700 mil euros. São 200 mil a mais do que, cinco meses depois, a Polícia Judiciária Federal Belga encontra em novas buscas, desta vez públicas à casa de Antonio Panzeri.
Recorde-se que Panzeri permanece em prisão preventiva, tal como Eva Kaili, que só verá a medida de coação reavaliada na próxima quinta-feira.














