A lenda de Las Vegas parece confirmar-se: a seca que tem atingido o reservatório do Rio Colorado, a apenas 30 minutos de carro de ‘Sin City’, já ‘revelou’ dois conjuntos de restos humanos em apenas uma semana – o Lago Mead revela agora o que parecem ser episódios das histórias de crime organizado na cidade do Nevada. “Não podemos dizer o que vamos encontrar no Lago Mead”, apontou oscar Goodman, antigo mayor de Las Vegas. “Mas não é um mau sítio para despejar um corpo.”
Goodman, antigo advogado, fez fama ao representar figuras da máfia, incluindo Anthony Spilotro, um dos mais proeminentes mafiosos de Las Vegas antes de cumprir três mandatos como autarca mas recusou citar nomes de quem poderia aparecer no vasto reservatório. “Tenho quase a certeza de que não foi Kimmy Hoffa”, gracejou, acrescentando que muitos dos seus antigos clientes pareciam interessados no “controlo climático”, que é o termo da máfia para manter o nível do lago alto e os cadáveres nos seus túmulos aquáticos.
No entanto, as mudanças climáticas fizeram a superfície do Lago Mead cair mais de 52 metros desde 1983 – o lago é responsável pelo abastecimento de 40 milhões de pessoas em sete estados americanos e caiu para 30% da sua capacidade. “Se o lago for muito mais baixo, é muito possível que coisas muito interessantes venham à superfície”, apontou Michael Green, professor de história da Universidade de Nevada, Las Vegas. “Mas estou disposto a apostar que haverá mais alguns corpos”, garantiu.
O primeiro cadáver, em estado de decomposição, foi descoberto num barril enferrujado preso na lama. O corpo não foi identificado mas a polícia de Las Vegas garantiu que foi baleado, provavelmente entre 1970 e início dos anos 1980. No último sábado, duas irmãs que praticavam paddle avistaram ossos no areal recém-emergido, a mais de 14,5 quilómetros do barril.
A polícia de Las Vegas apontou, na última segunda-feira, que não havia indícios imediatos de crime e que só abriria investigação de homicídio se o médico legista de Clark County determinar que a morte foi suspeita.
“Mais corpos serão descobertos”, previu Geoff Schumacher, vice-presidente do ‘The Mob Museum’, uma agência de correios e prédio federal renovado no centro histórico de Las Vegas, inaugurado em 2012 como Museu Nacional do Crime Organizado e Aplicação da Lei. “Acho que muitos desses indivíduos provavelmente foram vítimas de afogamento”, disse.
Green disse que as descobertas fazem com que as pessoas falem não apenas sobre ataques da máfia mas também pode trazer alívio para as famílias sem respostas. “As pessoas vão falar sobre isso pelas razões certas e pelas erradas”, explicou. “Vão pensar que vamos resolver todos os assassinatos da máfia. Na verdade, podemos ver alguns.”
Na última segunda-feira, o nível da água do Lago Mead estava cerca de 320 metros acima do nível do mar – cerca de 50 metros abaixo do nível de 2000, quando foi considerado cheio pela última vez. É o nível mais baixo já registado desde que foi preenchido na década de 1930.
O baixo nível expôs uma das válvulas originais de entrada de água do reservatório em abril pela primeira vez. A válvula estava em serviço desde 1971 mas não pode mais extrair água, de acordo com a ‘Southern Nevada Water Authority’. Essa agência é responsável pela gestão dos recursos hídricos de 2,2 milhões de pessoas no sul de Nevada, incluindo Las Vegas.













