Coronavírus no desporto: Conseguirão sobreviver os atuais modelos de negócio?

A maior parte do dinheiro, seja no futebol, ténis ou basquetebol, é feita de três maneiras: contratos de transmissão, patrocínios e receitas do dia de jogo.

António Sarmento

Com a pandemia mundial, são muitas os eventos que já foram cancelados ou adiados a nível mundial: Jogos Olímpicos, Campeonato Europeu de Futebol ou Liga dos Campeões. A isto juntam-se os torneios de ténis, as provas de automobilismo, os jogos da NBA e os campeonatos nacionais de futebol. Apesar de terem características muito diferentes, o modelo de negócio de muitos desportos está sob ameaça. A maior parte do dinheiro é feita de três maneiras: contratos de transmissão, patrocínios, receitas do dia de jogo, incluindo bilheteira e todo o tipo de merchandising. “Este é o maior desastre que atingiu o mundo desportivo em 75 anos e é o maior desafio que os nossos negócios já enfrentaram”, escreveu Simon Denyer, executivo do grupo de streaming desportivo DAZN, citado pelo Financial Times.

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Neste momento, os canais desportivos tentam segurar os assinantes, os patrocinadores querem renegociar contratos e os salários dos atletas estão a ser cortados. A consultora KPMG prevê que a paragem dos campeonatos de Inglaterra, Espanha, Alemanha, França e Itália, tenham um impacto negativos de quatro mil milhões de dólares em toda a indústria desportiva.

Até mesmo os dois jogadores mais bem pagos do mundo, os futebolistas Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, aceitaram cortes salariais. Ao mesmo tempo, os canais encontram-se com tempo de antena para encher. Em vez dos playoffs da NBA, a norte-americana ESPN tem oferecido aos espectadores conteúdo que eles não querem. Resultado? Na semana até 22 de março, a audiência do horário nobre da ESPN caiu 29% em relação à semana anterior. A atual falta de desporto expõe o modelo de negócio de empresas tradicionais que investiram milhões na busca por um ativo raro na era da Netflix: um programa que é melhor assistido ao vivo.

Em Portugal, a paragem do futebol nacional devido à pandemia covid-19 trará perdas “muito elevadas” para a indústria do futebol e os seus vários agentes, explicaram à Lusa os especialistas em direito do desporto Alfredo Silva e Daniel Sá. Segundo o professor da Escola Superior de Desporto de Rio Maior e coordenador da licenciatura de Gestão das Organizações Desportivas Alfredo Silva, as perdas para a indústria do futebol, na qual inclui “clubes, SADs, ‘media’, fornecedores de marketing, eventos, alimentação, equipamentos” e outros, são “muito elevadas”. Pelas contas do docente universitário, o “impacto global” de uma paragem de um mês, por exemplo, será “superior a 40 milhões de euros”, em números estimados a partir de uma observação do fluxo económico das SAD de Benfica, FC Porto e Sporting. Com mais de 3,5 milhões de espetadores em 2018/19, o que equivale, pelas contas de Daniel Sá, a um rendimento de 80 milhões de euros de bilheteira, na parte remanescente do campeonato, por agora suspensa, há aí a fatia “mais interessante”, uma vez que são “jogos decisivos”. Assim, estima o especialista, a perda pode chegar a “um quarto das receitas de bilheteira, que estão concentradas na fase final”.

Para fazer face a esta crise, a FIFA referiu que está a “ponderar prestar assistência à comunidade do futebol em todo o mundo”, salientando que tem uma situação económica “sólida” e que possui uma reserva financeira cerca de 1.500 milhões de euros. A organização liderada por Gianni Infantino mencionou a possível criação de um “fundo de apoio” para o futebol mundial, sendo que os detalhes sobre este auxílio “estão a ser estudados e discutidos com os membros da FIFA, federações e outros parceiros” e serão anunciados “num futuro próximo”.

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Há duas semanas, provas como o Euro 2020 e a Copa América foram adiadas para 2021, enquanto várias competições nacionais e continentais estão suspensas devido à propagação do novo coronavírus. Nessa altura, a FIFA anunciou a criação de um grupo de trabalho em conjunto com as confederações de futebol continentais, para debater os efeitos da crise de saúde pública nos calendários de competições e nas transferências de jogadores. Certo é que a paralisação já trouxe baixas: o MSK Zilina, sete vezes campeão de futebol da Eslováquia, e o USA Rugby, órgão nacional deste desporto, estão entre os que declararam falência nos últimos dias.

Conheça a lista de eventos desportivos afetados pelo coronavírus


Futebol: As fases finais do Euro´2020 e da Copa América foram adiadas por um ano. As principais ligas europeias e mundiais estão suspensas, assim como as maiores provas continentais de clubes (Liga dos Campeões, Liga Europa e Taça Libertadores).

Basquetebol: a liga norte-americana (NBA) foi interrompida e os derradeiros torneios universitários da National Collegiate Athletic Association (NCAA) cancelados, tal como as principais ligas europeias e todas as provas continentais, Euroliga e Eurocup.

Andebol: os principais campeonatos europeus e todos os eventos continentais (Liga dos Campeões, Taça EHF e Challenge Cup) estão suspensos.

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Atletismo: mundiais de pista coberta em Nanjing, na China, e de meia maratona em Gdynia, na Polónia, maratonas de Boston e Londres, tal como as três etapas inaugurais da Liga Mundial de Diamante, uma no Qatar e duas na China.

Automobilismo: fórmula 1, os Grandes Prémios da Austrália e do Mónaco foram anulados, enquanto as corridas no Bahrain, Vietname, China, Holanda, Espanha e Azerbaijão reagendadas para data a definir. No Mundial de Ralis, a prova no Chile foi riscada e a etapa na Argentina adiada.

Motociclismo: no MotoGP, a prova inaugural no Qatar foi cancelada, ao passo que os Grandes Prémios da Tailândia, Aragão, Américas, Argentina e Comunidade Valenciana têm novas datas.
Ciclismo: a consagrada Volta à Itália foi adiada sem data prevista, os “monumentos” Volta a Flandres, Paris-Roubaix e Liège-Bastogne-Liège devem ser remarcados, ao passo que a Milão-São Remo está cancelada.

Futsal: As principais ligas europeias e mundiais estão suspensas, assim como a ‘final four’ da Liga dos Campeões.

Ginástica: a Taça do Mundo de ginástica artística no Qatar depois de ter assistido ao cancelamento de etapas no Azerbaijão, Alemanha, Reino Unido e Japão.

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Golfe: o Masters e o PGA Championship foram adiados para datas ainda não definidas, enquanto as etapas no Quénia, Índia, Malásia, China, Espanha e Dinamarca, do European Tour, estão suspensas.

Hóquei em Patins: as principais ligas europeias e mundiais estão suspensas, assim como as maiores provas continentais de clubes (Liga Europeia e Taça WSE). No gelo, a Liga norte-americana (NHL) também está parada e o Mundial feminino no Canadá foi cancelado.

Judo: a Federação Internacional suspendeu toda a actividade até 30 de Abril.

Patinagem: mundiais de velocidade em pista curta e de patinagem artística foram remarcados para data incerta.

Râguebi: torneio das seis Nações, a Taça dos Campeões e a Liga Pro14 estão suspensos por tempo indefinido, à semelhança de diversos campeonatos nacionais.

Ténis: Grand Slam francês Roland Garros. As finais da Fed Cup, os torneios norte-americanos de Indian Wells e Miami.

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Ténis de Mesa: Os mundiais de equipas, os Opens de Hong Kong, Coreia do Sul e Austrália.

Tiro: a Taça do Mundo na Índia.

Vela: Mundial na classe 470.

Voleibol: ligas europeias, mundiais e continentais (Liga dos Campeões, Taça CEV e Challenge Cup) e a Liga das Nações.

 

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