Coronavírus: Fábricas têxteis já só têm matérias primas para mais um mês

Se a produção chinesa permanecer parada, devido ao coronavírus, as fábricas portuguesas porem correr risco de falta de abastecimento total.

Simone Silva

De momento, as empresas têxteis portuguesas têm materiais suficientes para continuar o seu trabalho, contudo a situação pode mesmo piorar se a produção chinesa se mantiver parada, depois de Março, devido ao surto de coronavírus (COVID-19), de acordo com o ‘Dinheiro Vivo’.

Todos os materiais sintéticos e outros acessórios tais como fivelas, fechos, etiquetas e alguns tecidos, vêm directamente da China, considerada a «fábrica do mundo», para abastecer as fábricas da Europa e as portuguesas não são excepção.

A falta de matérias primas já se começa a fazer sentir, diz César Araújo, presidente da Associação Nacional as Indústrias de Vestuário e Confecção (ANIVEC) e os stocks só duram até Março, segundo Mário Jorge Machado, líder da Associação Têxtil e do Vestuário de Portugal (ATP). Ambos consideram que a Europa tem de reformular a sua estratégia industrial.

Mário Jorge Machado aponta que «se estivéssemos a falar de comida e a China deixasse de nos abastecer a todos, íamos perceber a dimensão do problema. Na verdade, a política agrícola comum (PAC) foi criada nos anos 80 para garantir a autossuficiência da Europa em termos alimentares. Porque não fazê-lo, também, em termos industriais», questiona o líder da ATP, deixando no ar que o coronavírus «nos deve fazer pensar se devemos estar tão dependentes de um só país», diz citado pelo ‘Dinheiro Vivo’.

Se a China não abrir os seus portos, nem expandir as suas mercadorias, durante os próximos dias, «a situação vai complicar-se lá para o final do mês de Março, quando os stocks actuais terminarem», indica Mário Jorge Machado. Turquia, Paquistão, Índia, Bangladesh e Coreia do Sul, são vistos como alguns dos mercados alternativos à China. Relativamente à situação italiana, o líder da ATP indica que «o problema parece estar confinado ao sul de Milão, a indústria está situada a norte e não está a ser afectada pelo isolamento, estão a laborar normalmente».

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Já César Araújo faz uma análise mais pessimista da situação, referindo que «as empresas têm, habitualmente, stocks para 4 a 6 semanas. Estamos no fim de Fevereiro, a partir de agora as coisas vão complicar-se. E não é só nas matérias-primas. As lojas na China estão fechadas, as marcas não vendem, vão existir menos encomendas à indústria. Isto vai ser um pesadelo»l, defende. O presidente da ANIVEC considera que de momento as indústrias têm os «instrumentos necessários» para combater a situação, ou através da antecipação das férias, ou do recurso ao regime de adaptabilidade de horário, tal como aconteceu na sua empresa, Calvelex, que fechou duas semanas para férias, ganhando uma maior flexibilidade nos recursos humanos. «A Europa está refém da China por efeito da globalização e isto tem que ser repensado. Não podemos continuar a destruir a indústria europeia», afirma.

A situação não é apenas preocupante para aqueles que são abastecidos pela China, mas também para quem vende para o país, exemplo disso é o grupo Riopele, vendedor de tecidos para grandes marcas mundiais que produzem na China. A empresa tem neste momento o armazém cheio de encomendas que aguardam a saída tardia para a China.

O CEO da Riopele, José Alexandre Oliveira refere: «a China é o maior mercado de artigos de luxo. Com as lojas fechadas, as grandes marcas internacionais, como a Louis Vuitton, a Prada e outras, estão com vendas 30% abaixo do esperado. Pelo menos. Porque este dado era do início do mês, quando estive na feira de Paris, a Première Vision», diz citado pelo ‘Dinheiro Vivo’, acrescentando ainda que «alguns dos meus clientes já começaram a regressar ao trabalho, nos escritórios, mas as fábricas de confeções continuam paradas». A China representa 2,4 milhões de euros da facturacção anual da Riopele.

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