Contra os canhões marchar, marchar

Por Nuno España, Gestor

Sempre considerei estas semanas entre o Natal e a Passagem de Ano um período que nos convida a refletir sobre o ano que passou e a planear o que pretendemos para o ano seguinte.

Também é, para mim todos os anos, um momento especial. Logo para arrancar o ano, e durante duas semanas, decorre o emblemático Rali Dakar. O simplesmente Dakar, anteriormente conhecido como Rali Paris-Dakar, é a maior prova de rali do mundo. A primeira prova decorreu em 1978 e foi realizada em Paris, França, tendo seguido até ao Dakar, Senegal. Devido à falta de segurança na Mauritânia, a prova foi alterada. Chegou inclusivamente a arrancar de Portugal e em 2008 foi até cancelada. Entre 2009 e 2019 a prova realizou-se na América do Sul e desde 2020 e durante os próximos anos, realizar-se-á na Arábia Saudita.

Esta competição é aberta a participantes amadores e profissionais, sendo que os amadores representam cerca de oitenta por cento dos participantes. Este ano, os participantes realizarão cerca de 8 mil quilómetros no espaço de 15 dias, entre as várias categorias – motas, moto 4, buggies, jipes e camiões. São 21 os portugueses nesta edição, entre pilotos, navegadores e mecânicos, distribuídos por 578 viaturas em prova.

Nesta comitiva vão seis amigos. O Mário Patrão (piloto profissional de motas), o Luis Portela Morais (piloto SSV), o David Megre (Copiloto do Luis), O Pedro Bianchi Prata (Piloto profissional de motas), o Miguel Barbosa (piloto de jipes) e o Carlos Damião (mecânico de motas).

O Mário, depois de vários anos a fazer o Dakar, decidiu arriscar por conta própria e retirar-se da melhor equipa de motas que alguma vez existiu. Quer fazer o Dakar dos “duros”, ou seja, fazê-lo exclusivamente com a mota, uma caixa de ferramentas e uma tenda. Nada nem ninguém o pode apoiar. É uma loucura, mas fascinante.

O Luis e o David, depois de terem ido ao Dakar em 2017 em motas e infelizmente não terem conseguido terminar após queda no final, que obrigou a intervenção cirúrgica dos dois no local, sentiram a necessidade de voltar, agora em conjunto num SSV (buggies). A união faz a força. Querem terminar o que deixaram incompleto em 2018.

À semelhança do Mário, também já se perdeu a conta à quantidade de vezes que o Pedro foi ao Dakar. Já foi como piloto de mota, como co-piloto de SSV e este ano regressa, porque como o próprio reconheceu, é onde se sente em casa. Pessoalmente acredito que, depois da morte do Paulo Goncalves, existe um “ajuste de contas” e que passa por concluir de novo um Dakar agora em motas, como forma de homenagear o companheiro de tantas loucuras e aventuras.

O Miguel é um veterano. Recordo-me de o seguir há mais de 20 anos. Desde então, sempre me fascinou a forma de conduzir, tornando o que era difícil em algo que parecia tão fácil. Este ano e depois de 12 anos, regressa. Quer contrariar o Rui Veloso – afinal não há nada como regressar aos lugares onde fomos felizes, porque, apesar das diferenças que possam existir, há sempre algo mais para dar e receber.

O Carlos é de Portalegre e é mecânico. Apesar de ser um empresário de mão cheia, a paixão pela mecânica fala sempre mais alto e, sempre que pode, disponibiliza-se para ajudar quem precisa. É tão herói o que corre, como aquele que passa as noites em claro a preparar os carros e motas durante a noite, para que possam seguir no dia seguinte sem problemas e prontos para levantar pó.

Apesar de todos poderem ser considerados verdadeiros “heróis do inútil” e as suas motivações serem muito diferentes, reconheço em todos uma vontade de se superar e ir um pouco mais longe. Através destes desafios, vão dando ainda mais sentido às suas vidas e, pelo caminho, inspiram outros, mostrando que com proatividade, resiliência e fé, tudo é possível.

Provavelmente por inveja boa, sinto que, com cada um deles, foi também um bocadinho de mim. Uma parte de mim, encontra-se nas dunas da Arabia Saudita, a apoiar, puxar e gritar por eles, porque enquanto eles correm, eu tento empurrar à minha maneira.

Muito boa sorte a todos e que consigam elevar o nome de Portugal. Por vocês, por nós e por todos!

Estamos juntos!

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